terça-feira, 29 de setembro de 2015

A TERRÍVEL REALIDADE DO PECADO

Por Blasius Ludovicus

A realidade do pecado
Antes de tudo, devemos ter em mente que “o começo do pecado e da queda do homem foi uma mentira do tentador que induziu a duvidar da palavra de Deus, de sua benevolência e fidelidade”.[1]
Deus nos criou à Sua imagem e semelhança, fazendo-nos participar de Sua santa amizade. Criou-nos homem e mulher, e nos entregou toda a criação. No entanto, “o homem, tentado pelo Diabo, deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Foi nisto que consistiu o primeiro pecado do homem”.[2] A Santa Igreja sempre nos ensinou que “por trás da opção de desobediência de nossos primeiros pais há uma voz sedutora que se opõe a Deus e que, por inveja, os faz cair na morte. A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo destronado, chamado Satanás ou Diabo”.[3]

Mas o que é o pecado?
O Catecismo da Igreja Católica ensina que pecado é “uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Foi definido como ‘uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna’. O pecado é ofensa a Deus”.[4]
Fomos todos criados em estado de graça, de santidade, e nosso destino era participarmos da divindade do próprio Deus, mas por causa da sedução de Satanás, querendo nós com ele sermos como deuses, fomos condenados à morte por causa da desobediência, como diz as Escrituras: “Tu vieste do pó e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Assim a morte entra na história da humanidade, por meio do pecado, pois, “pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores” (Rm 5, 19). [5]
A este pecado de nossos pais chamamos de pecado original porque é a origem de todos os outros pecados. Do pecado original todos nós participamos, não como pecado pessoal ou cometido, mas como pecado “contraído”, como um estado no qual perdemos a santidade e a justiça originais. Ele corrompe nossa natureza, mas não totalmente, deixando-a lesada, inclinada para o mal.[6]
Mesmo assim Deus não nos abandonou às mãos da morte, procurou logo nos preparar remédio eficaz que seria prefigurado em toda a história da salvação e receberia sua realização na plenitude dos tempos com Nosso Senhor Jesus Cristo. Enquanto isso, “pelo pecado dos primeiros pais, o Diabo adquiriu certa dominação sobre o homem, embora este último permaneça sempre livre”.[7]

Mas por que Deus, o Todo-Poderoso, permitiu que o homem pecasse? 
“São Leão Magno responde: ‘A graça inefável de Cristo deu-nos bens melhores do que aqueles que a inveja do Demônio nos havia subtraído’. E Santo Tomás de Aquino: ‘Nada obsta a que a natureza humana tenha sido destinada a um fim mais elevado após o pecado. Com efeito, Deus permite que os males aconteçam para tirar deles um bem maior. Donde vem a palavra de São Paulo: onde abundou o pecado superabundou a graça (Rm 5,20).”[8]
O pecado é sempre uma ofensa a Deus. Conforme sua gravidade os pecados podem ser classificados como: mortal ou venial.
pecado mortal, ou pecado grave, destrói a caridade do coração humano, desvia o homem de Deus e o torna incapaz de progredir na perfeição, pois sua alma fica privada de bens espirituais necessários à santificação. O pecado mortal só encontra remédio eficaz no Sacramento da Confissão, pois, atacando o amor em nós, nos afasta de Deus que é o próprio Amor. O pecado venial, ou pecado leve, não destrói a caridade, mas a fere e ofende, deixando-nos assim mais propensos a cometer mais e mais pecados, inclusive mortais.
É considerado pecado mortal todos aqueles cometidos em matéria grave, em plena consciência e deliberadamente.[9] Matéria grave é tudo o que está contido nos Dez Mandamentos. Pecar contra qualquer um dos Mandamentos da Lei de Deus é pecar mortalmente. Os pecados mortais podem ser distinguidos segundo a sua gravidade, por exemplo: bater nos pais é mais grave do que bater num desconhecido; matar os pais é mais grave do que matar um desconhecido, embora bater e matar sejam sempre pecados graves.[10]
O pecado mortal nos faz perder o estado de graça que só poderá ser recuperado pelo arrependimento e perdão de Deus. Caso contrário causamos nossa exclusão do Reino de Deus e nos precipitamos nos abismos do Inferno.[11] “Morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa separar-se do Todo-Poderoso para sempre, por nossa própria opção livre. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra ‘inferno’”.[12]
É considerado pecado venial aqueles cometidos contra a lei moral, mas sem pleno conhecimento ou sem pleno consentimento. O pecado venial é demonstrado pelo apego às coisas criadas e ele impede que a alma progrida no exercício das virtudes, assim como na prática do bem moral. Porém, não quebra a aliança com Deus.[13] “A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhantemente endurecimento do coração pode levar à impenitência final e à perdição eterna”.[14]
Além de deixar em nós uma inclinação para o mal, o pecado cometido repetidamente pode gerar um vício. Os vícios são classificados conforme a raiz de cada um, pois, sendo chamados de pecados capitais, significam que são geradores de outros pecados. Os pecados capitais são: orgulho, avareza, inveja, ira, impureza, gula e preguiça.[15]
orgulho é um pecado que atenta diretamente contra Deus, porém, disfarçadamente, pois, enquanto que o homem se vangloria a si mesmo, colocando-se como causa de seu próprio sucesso ou até de seu bem espiritual, tira de Deus o mérito daquilo que lhe acontece atribuindo a si mesmo o que é próprio de Deus. O orgulho foi justamente o pecado de Satanás que, achando-se igual a Deus, quis fazer-se deus.
avareza é o apego excessivo ao dinheiro a tal ponto de negar a caridade ao próximo. Quem assim peca, de certo modo, comete também um tipo de orgulho, pois, se reconhecesse que o que possui vem-lhe de Deus não recusaria ao menos a caridade. Mas porque vê o que possui como justo por causa dele mesmo, então, não entende que tenha que partilhar nada com ninguém.
inveja é aquela tristeza sentida diante dos bens dos outros e aquele desejo de possuí-los. É o pecado próprio de Satanás que nos fez pecar por inveja. Ela representa uma forma de tristeza, ou seja, é uma recusa da caridade, provindo muitas vezes do orgulho. Se a inveja levar ao desejo de morte ou à própria morte de alguém é pecado mortal.[16]
ira ou cólera é um desejo de vingança. Se o irado desejar ou matar ou ferir alguém comete pecado gravíssimo. A ira está incluída entre as principais paixões do homem. A ira dá ao homem uma força demoníaca no sentido de que o irado consegue fazer coisas que, estando em paz, não conseguiria, como por exemplo: matar, bater em alguém, discutir, revelar os segredos.[17]
impureza ou luxuria é aquele desejo desordenado e aquele gozo desregrado do prazer da carne. Peca-se por luxuria quando se busca o prazer sexual desordenadamente e por si mesmo, sem a intenção de “procriação e de união”, sem se importar que a relação sexual só deve ser praticada mediante o Sacramento do Matrimônio.[18]
gula é aquele pecado que se comete na alimentação. É precisamente a busca do prazer na comida, prazer por si mesmo, ou seja, ver na comida a sua alegria e satisfação sem lembrar-se da ação de graças por Aquele que possibilitou tivéssemos o pão de cada dia. É errado pensar que a gula consiste no muito comer, embora muitas vezes coincida. A gula, ensinam os Santos Padres, é pôr na criatura (alimentos) o que é próprio do Criador (a satisfação, a alegria, a saciedade, o prazer).
preguiça é entendida tanto como aquela preguiça física como aquela preguiça espiritual, chamada acídia. É um pecado contra o amor de Deus que, tendo trabalhado por seis dias seguidos, continua trabalhando com Seu Filho Jesus por nós. A preguiça provocar em nós a indiferença ou negligencia, a recusa da caridade, o menosprezo e falta de força. A acídia é tão terrível que chega a recusar até a alegria que vem do próprio Deus.[19]
Irmãos, nós buscamos uma vida mais próxima de Deus, na radicalidade do Evangelho e na perfeição, devemos sempre estamos atentos aos pecados, pois do contrário estaremos sendo negligentes e enganamo-nos a nós mesmos. Na vida de seminário, assim como na vida religiosa da qual vocês participam, somos orientados a uma vida de constante crescimento espiritual. Porém, somos igualmente tentados.
Infelizmente entre os pecados e tentações mais comuns se encontram os pecados contra a santa castidade, contra a pobreza, contra os legítimos superiores, contra o próximo e contra nós mesmos.
Por exemplo, a masturbação é pecado grave, pecado mortal por ir contra o mandamento de não pecar contra a castidade. A masturbação, que consiste na excitação voluntária dos órgãos genitais a fim de conseguir um prazer sexual, é um ato grave e desordenado. Está diretamente ligada ao orgulho, à gula e à luxúria, pois excluir a dimensão da união do homem e da mulher pelo ato sexual, buscando em si mesmo o prazer que, lícita, cristã e moralmente, foi criado para a doação mútua e procriação humana entre um homem e uma mulher.[20]
No caso das pessoas consagradas, a masturbação é um pecado mais grave ainda porque, tendo deixado o mundo e propondo-se a uma vida santa, ofende-se a Deus, quebrando a castidade e cometendo aquele adultério que Jesus anunciou dizendo que só por olhar e desejar.
Aliada à masturbação está a pornografia que consiste em retirar os atos sexuais próprios da intimidade matrimonial, sejam reais ou simulados, para exibi-los a terceiros. A pornografia ofende a castidade porque incita a procurar a satisfação sexual, ou melhor, ela própria já é uma satisfação. A pornografia é pecado mortal e como tal deve ser combatido.[22]
Talvez algum de nós pense: graças a Deus estou livre, nunca vi ou não mais procurei filmes, revistas e a internet! Porém, a pornografia não consiste somente nisto. Muitas vezes não precisamos destes artifícios, pois, sem percebermos ou admitirmos, cenas, desejos, sonhos e conversas pornográficas habitam nosso interior, nossa mente. Por isso, somos obrigados a permanecermos vigilantes a fim de que não ofendamos a santa castidade nem a Deus enganando-nos a nós mesmos. Cada um sabe o que se passa pela mente e coração, combatamos corajosamente esta nossa inclinação!
Fora estes pecados somos ainda mais combatidos pela “vontade” ou inclinação para a mentira, o ódio, a omissão, o fuxico, a tristeza e tantos outros pecados que em maior ou menor grau se infiltram em nossas comunidades.
É interessante perceber que o mandamento de honrar pai e mãe também diz respeito a honrar nossos legítimos superiores, pois foram constituídos por Deus para nos guiarem a bom termo. Assim negar submissão aos nossos superiores (reitor, guardião, provincial, bispo e papa) é pecar gravemente contra o quarto Mandamento da Lei de Deus.[23] Esta submissão não significa fazer indistintamente tudo o que for mandado, mas obedecer em tudo o que não for contra o Evangelho, contra a moral e doutrina católicas, enfim, obedecer em tudo o que não for contra nossa própria salvação.
Eis meus irmãos uma pequena visão da dura realidade do pecado a que estamos sujeitos e inclinados neste mundo. Mas, graças a Deus, a realidade não é só esta. Deus, em Sua infinita bondade e misericórdia, nos providenciou remédio eficaz para todos os pecados e nos ofereceu em Jesus a libertação de toda a escravidão do pecado e do Demônio.



[1] São JOÃO PAULO II, Catecismo da Igreja Católica, n. 215.
[2] Ibid, n. 397.
[3] Ibid, n. 391.
[4] Ibid, n. 1849-50.
[5] Cf. Ibid, n. 400. 402.
[6] Cf. Ibid, n. 405.
[7] São JOÃO PAULO II, Catecismo da Igreja Católica, n. 407.
[8] Ibid, n. 412.
[9] Cf. Ibid, 1857.
[10] Cf. Ibid, n. 1858.
[11] Cf. Ibid, n. 1860.
[12] São JOÃO PAULO II, Catecismo da Igreja Católica, n. 1033.
[13] Cf. Ibid, 1862-63.
[14] São JOÃO PAULO II, Catecismo da Igreja Católica, n. 1864.
[15] Cf. Ibid, n. 1866.
[16] Cf. Ibid, n. 2539.2540.
[17] Cf. Ibid, n. 2302. 1772.
[18] Cf. Ibid, n. 2351.
[19] Cf. Ibid, n. 2094.
[20] Cf. n. 2352.
[21] Cf. Ibid, n. 2357.
[22] Cf. Ibid, n. 2354.
[23] Cf. Ibid, n. 2199.

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