terça-feira, 29 de setembro de 2015

“LUTERO SACUDIU O PÓ DA BÍBLIA”?



Finalmente o autor deste texto nos deu permissão para nomeá-lo, é nosso amigo já de outras postagens e colaborador de nosso blog. 

Por Diácono Jorge Luís

“A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras [...] já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar toma tanto da mesa da Palavra de Deus quanto do Corpo do Cristo o Pão da vida [...]. E é tão grande o poder e a eficácia que se encerra na Palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo e vigor para a Igreja, e, para seus filhos, firmeza da fé, alimento da alma, pura e perene fonte da vida espiritual.”
(Const. Dog. Dei Verbum, n. 21)

Estamos encerrando o mês de setembro que a Igreja Católica dedica à Sagrada Escritura. Gostaria de aproveitar essa ocasião para responder uma das afirmações protestantes mais mentirosa e confusa. 
A Santa Igreja Católica vive com a Sagrada Escritura e esta existe para a Igreja. Foi à Igreja que Jesus ordenou ir pelo mundo e fazer de todos seus discípulos (cf. Mc 16, 15-17; Mt 28, 18-19). Mesmo assim, não raras vezes escuta-se um ou outro protestante dizer que a Igreja Católica escondia a Bíblia Sagrada dos fiéis e que os leigos, ao menos antes, não tinham acesso à Palavra de Deus. Mas o triste mesmo é vermos irmãos católicos afirmarem que Lutero foi o primeiro a oferecer a Bíblia Sagrada nas mãos do povo.
Nesse sentido, usando a expressão protestante, “Lutero sacudiu o pó da Bíblia”. Mas será que, de fato, foi o infeliz Lutero que “tirou o pó da Bíblia”?
O Reverendíssimo Monsenhor Ricardo D. Liberali, no seu recomendadíssimo livro, inclusive pelo Papa, intitulado “Horas de Combate”, desmentiu esta afirmação protestante, provando que a Sagrada Escritura foi traduzida para quase todas as línguas faladas antes de Lutero.[1]
Um dos grandes argumentos usados para sustentar a afirmação protestante é que a Bíblia era em latim e que o povo não entendia nada da Palavra de Deus.
Não podemos dizer que o povo não entendia nada porque a Bíblia era em latim sem levar em conta a história. Nós, católicos, menos ainda os protestantes, não podemos taxar a Bíblia latina como sendo um impedimento para o povo.
Antes de tudo temos que nos lembrar que a Igreja sempre transmitiu aos fiéis a Revelação recebida de Jesus e em Jesus.[2] Assim, a Igreja sempre praticou a pregação, sobretudo na homilia, na qual é anunciada e explicada a Palavra de Deus em língua vernácula. E isso ela o faz desde o princípio e continua até hoje. Logo, o povo de Deus tinha e tem contato com a Palavra confiada à Santa Igreja Católica.
Depois temos de recordar que a Sagrada Escritura, no princípio constituída só pelo Antigo Testamento, foi “codificada” e traduzida pelos Setenta sábios do hebraico para o grego, antes mesmo do nascimento de Nosso Senhor. Depois de Cristo a Igreja juntou ao Antigo Testamento dos Setenta os livros escritos pelos Apóstolos e Evangelistas que, por sua vez constituíram o Novo Testamento. Como o latim tornou-se a língua mais falada a Igreja traduziu a Bíblia completa para o latim. São Jerônimo (340-420) foi o responsável pela tradução que ficou conhecida como Vulgata. Portanto, desde o início, a Igreja teve a solicitude de conservar a Sagrada Escritura na língua do povo, visto que o latim era falado por quase todas as nações (como consequência da dominação do Império Romano). Eis o fator histórico da língua latina.
Assim o latim foi tornando-se referência não só na Sagrada Escritura, mas, também para a Sagrada Liturgia, sobretudo na Santa Missa. O uso desta língua anterior à própria Igreja tornou-se tão natural, e necessário, que praticamente todos os cristãos falavam-na, do século I até a loucura do infeliz Lutero.[3]
“Mas Lutero tirou o pó da Bíblia, traduzindo-a e colocando-a nas mãos do povo”, diria um perfeito protestante e uma pseudo-católico. Isso é o que querem que seja a verdade! Porém, não passa de uma engenhosa mentira. O revoltado Lutero traduziu a Bíblia protestante em 1520, mas antes disso, além das traduções até São Jerônimo, havia uma variedade de traduções da Sagrada Escritura pela autoridade e vigilância da Igreja Católica.
Explica o citado Monsenhor Ricardo Liberali:
Com a queda do Império Romano, o latim se restringiu ao Ocidente e, por isso, se fez na Ásia, as traduções siríaca, e, no Egito, a cóptica. Logo após apareceu em árabe. Antes disso, porém, tendo-se convertido as hordas bárbaras dos gôdos, para eles, fez o bispo Úfilas uma tradução em gôdo; o seu original se conserva ainda hoje em Úpsala, na Suécia, é o código “argênteo”, assim chamado por serem as suas letras de prata. No Ocidente demorou-se mais para traduzir a Bíblia, por dois motivos: o primeiro porque o povo todo, embora falasse em latim “macarrônico” que depois foi dando [origem] as línguas latinas (italiana, francesa, portuguesa, espanhola, rumena, etc.), entendia perfeitamente o latim gramatical; e, em segundo lugar, porque as línguas latinas modernas não estavam perfeitamente constituídas. Mas, logo que foram tomando foros de língua, nelas se fez a tradução.[4]
É fato histórico que as línguas derivadas do latim se estruturaram tardia e lentamente e que todas as universidades ensinavam tudo em latim. Por isso, no Ocidente, não havia tanta necessidade de traduções vernáculas, pois nos lugares onde aparecia uma língua derivada do latim, as pessoas entendiam a língua da qual a sua era derivada.
“Então é verdade que, pelo menos no Ocidente, Lutero tirou o pó da Bíblia, traduzindo-a na língua do povo”, protestaria um falso cristão. Mas, mais uma vez se enganam!
Quando o latim passou a ser língua morta, diz Monsenhor Liberali, fizeram-se logo edições na língua do povo, desde os tempos mais remotos.
Assim, temos em italiano as seguintes edições da Bíblia: 1) a de Tiago de Voragine, bispo de Gênova; 2) a de Nicolau Malerbi, frade beneditino; 3) a de Veneza; que obteve, antes de 1500, nada menos de trinta e três edições; 4) a de Frei Guido, de Veneza; 5) a de Pantaleão Giustiniani, bispo de Nebbio (ao depois Frei Agostinho de Gênova).
Em francês temos: 1) a de Médar; 2) a de Jaques Lefevre; 3) a de Guiar de Moulins; 4) uma anônima, em 1378.
Em outras línguas que não sejam latinas, apareceram mais as seguintes traduções: em alemão – 1) a de Nuremberg, que obteve três edições, antes de 1500; 2) a de Augsburgo, com 8 edições; 3) a de Fausto; 4) outras anônimas.
Em flamengo são conhecidas: 1) uma editada em 1475, em Colônia, a qual obteve três edições, antes de 1488; 2) outra versão católica apareceu em 1518.
Em boêmio temos uma, 1488.
Em inglês, diz Tomaz de Moore que era conhecida uma tradução anterior a Wicleff.
E todas estas edições da Bíblia, em língua vernácula, foram feitas sob os auspícios da Igreja Católica, antes do aparecimento do protestantismo organizado, isto é, antes de 1520; e, exceto uma só [a tradução de 1518], todas foram publicadas, mesmo antes de Lutero se revoltar, com a publicação de suas famosas teses, em 1517.
Depois, foi Lutero que tirou a Bíblia do pó!!!...
Isso, sim, que é calunia. Isso, sim, que é injúria.[5]
Diante de tais afirmações não é prudente duvidar! Mas se alguém duvidar por ser afirmações de um sacerdote católico[6], deve-se ao menos dar credibilidade a César Canto “o grande historiador imparcial, e de outros”[7] do qual o Monsenhor Liberali tirou os dados.
Portanto, caríssimos, não aceitemos mais essas mentiras e calunias à Santa Igreja Católica. Sejamos católicos e não protestantes! Permaneçamos na catolicidade da Igreja de Cristo, pois o pior protestante que pode existir no mundo é aquele que se esconde em pele de católico!
A Bíblia é católica, foi escrita para a Igreja e por ela; só ela é que deve, através do Magistério e assistida pelo Espírito Santo, traduzir e interpretar fielmente a Sagrada Escritura. Mas isto é assunto para outro momento!
Que fique claro: a intenção de Lutero ao traduzir a Bíblia era fazer uma releitura dela, conforme o seu pensamento anticatolico, na qual fosse possível sustentar, pela tradução, os argumentos protestantes. 


REFERÊNCIA
LIBERALI, Mons. Ricardo D., Horas de Combate: ou Vademecum apologético para uso dos leigos. 6º ed. São Paulo: Paulinas, 1956. 286 p.



[1] Cf. Horas de Combate, p. 41.
[2]  Cf. Dei Verbum, n. 7.21.
[3]  Cf. Horas de Combate, p. 134.
[4]  Ibid, p. 42.
[5]  Ibid, p. 44-45.
[6]  Mesmo que este sacerdote seja digno de fé, tanto por causa de sua posição na Igreja como por causa da aprovação dos diversos irmãos no início de Horas de Combate, e aprovado e recomendado pelo Sumo Pontífice.
[7]  Cf. Horas de Combate, p. 45.

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