segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O MISTÉRIO DO CORDEIRO DE DEUS

Por Blasius Ludovicus

A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, guardiã da única Fé e dos tesouros do Céu, oferece a cada dia e em toda parte, do nascer ao pôr do sol, o maior dom que lhe foi entregue por Deus: Jesus Cristo, Senhor Nosso. A Santa Igreja Católica dá aos seus filhos “a essência de tudo o que há de bom e belo”[1] nela mesma, ou seja, Jesus Cristo, morto e ressuscitado por amor dos homens. Por isso, com materna solicitude a mesma Esposa de Cristo ordena: Participar de Missa inteira aos domingos e festas de guarda. Mas por que a Igreja, para nos oferecer Jesus do modo mais eficaz possível, nos ordena ir à Santa Missa em domingos e festas de guarda? O que há de tão importante na Missa? Ou melhor, o que é a Missa católica? Qual sua ligação com Jesus Cristo?
A Santa Missa que hoje tantas vezes é dita “Ceia do Senhor”[11] não pode ser esquecida enquanto Sacrifício. É no Sacrifício que está a sua origem e finalidade, conforme as palavras do próprio Senhor Jesus Cristo na instituição:
Mateus,  26
20Ao anoitecer, Jesus se pôs à mesa com os Doze. 26Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão e pronunciou a bênção, partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: “Tomai, comei, isto é o meu corpo”. 27Em seguida, pegou um cálice, deu graças e passou-o a eles, dizendo: “Bebei dele todos, 28pois este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados”.
Marcos,14
22Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. 23Depois, pegou o cálice, deu graças, passou-o a eles, e todos beberam. 24E disse-lhes: “Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos”.
 Lucas,  22
14aQuando chegou a hora, Jesus pôs-se à mesa 19A seguir, tomou o pão, deu graças, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim”. 20Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós.”
Quando Nosso Senhor parte o Pão e fala sobre o Sangue derramado Ele faz alusão aos sacrifícios do Antigo Testamento[12], usando as mesmas expressões (partir, derramar) para Se identificar como a única e verdadeira Vítima capaz de tirar os pecados dos homens e trazê-los à comunhão com Deus. Assim, se tornam evidentes as palavras do Bem-Aventurado João Batista que, tendo visto Jesus e reconhecendo-O, declarou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”[13]. Pelo Sangue, ou seja, pelo Sacrifício da Vítima divina, Jesus Cristo, fomos salvos da antiga culpa e reconciliados com Deus Pai, ofendido com o pecado de Adão e com os pecados dos filhos de Eva.

O SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA
Já dissemos que a Santa Missa é digna e satisfatoriamente chamada “Santo Sacrifício”, porém, devemos esclarecer ainda que MISSA não é o SACRIFÍCIO em si e SACRIFÍCIO não é o RITO DA MISSA (a celebração).
Como vimos nos relatos da instituição do Santo Sacrifício na última Ceia do Senhor, Jesus tomou o pão e o vinho, os abençoou e deu aos discípulos dizendo isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue, tomai e comei[14], é nisto, nessas palavras, nesse rito original e nessa transubstanciação que consiste o SACRIFÍCIO.
Ao longo dos séculos a Igreja, desde os Apóstolos até pouco antes da codificação da Santa Missa por São Pio V[15] foi cercando este fundamento do Sacrifício de Jesus com ritos e cerimônias, seja em preparação seja em ação de graças. A isto chamamos Missa.
Simplificando: SACRIFÍCIO é propriamente dito a consagração das oblatas (hóstias), ou seja, a transubstanciação, enquanto que MISSA é, além da própria consagração, o conjunto dos ritos e cerimônias que cercam as palavras da consagração. Por isso, é conveniente chamar a Missa de Santo Sacrifício da Missa, para dizer que é o Sacrifício de Jesus oferecido na Santa Missa.
A Santa Missa (ritos e cerimônias) e o Santo Sacrifício são duas coisas distintas, mas estão de tal modo unidas que se apresentam como uma única e mesma ação divina de Jesus em sua Igreja[16]. É nessa união ritual que podemos identificar a união ou importância da Liturgia da Igreja (Missa) com o único e verdadeiro Sacrifício de Cristo, consumado na Cruz.
“Notai, portanto que na Santa Missa não se faz apenas uma representação, uma simples memória da morte e ressurreição do nosso Salvador, mas num sentido realíssimo, o mesmo que se realizou outrora no calvário aqui se realiza novamente: tanto que podemos dizer, a rigor, que em cada Santa Missa nosso Redentor morre misticamente, sem morrer na realidade, estando ao mesmo tempo vivo e como imolado”[17] como diz o apocalipse: De fato, vi um Cordeiro, estava de pé, como que imolado[18].

OS MISTÉRIOS DO CORDEIRO NA SANTA MISSA
É notável que todas as religiões ofereceram sacrifícios a seus deuses, assim também o povo de Israel ofereceu ao único Deus verdadeiro sacrifícios em adoração de sua infinita majestade. Porém, tudo o que foi estabelecido na Antiga Aliança era figura, símbolo e em preparação da Nova e eterna Aliança que viria somente com Jesus, verdadeiro Cordeiro de Deus, descido do Céu para livrar o mundo do pecado.
Só o Sacrifício de nossa santa religião, que é a Santa Missa, é um Sacrifício santo, perfeito, e, em todo sentido, completo: por ele, cada fiel honra dignamente a Deus, reconhecendo, ao mesmo tempo, o próprio nada e o supremo domínio de Deus. Davi o chama: Sacrifício de Justiça Sacrificium Justitiae; tanto porque contém o Justo dos justos e o Santo dos santos, ou melhor a Justiça e a Santidade, como porque santifica as almas pela infusão das graças e abundancia dos dons que lhes confere[19]
Na Santa Missa católica temos a possibilidade de, além de receber os frutos e méritos da Cruz, viver ou contemplar os mistérios de Jesus Cristo, desde a Encarnação até sua ascensão gloriosa. Através dos ritos e cerimônias, que tem significados práticos e místicos, são tornados presente mistérios que Nosso Senhor viveu em sua vida mortal, em meio aos homens. Dos quais nos deteremos em alguns agora.
A Santíssima Virgem Maria ama os sacerdotes não só por serem seus filhos prediletos, mas porque Ela sabe que eles, e somente eles, são capazes de fazer o Senhor e Deus todo poderoso e Rei do Céu descer aos nossos altares. Neste sentido, podemos também afirmar esse amor da Santíssima Virgem pelo fato de Ela e os sacerdotes serem os únicos canais escolhidos pelo Santíssimo Padre Eterno para fazer acontecer a Encarnação de Deus Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso.
Uma única e feliz vez, tendo descido ao seio puríssimo da sempre Virgem Maria, Jesus Se encarnou, fazendo-Se homem pela salvação dos homens. Na Santa Missa, milhares de milhares de vezes, pelo nosso bem, Jesus torna a Se encarnar, todas as vezes que ouve Suas palavras sair dos lábios dos Seus sacerdotes, fazendo-Se homem, Cordeiro e Hóstia Imaculada.
Contemplando este mistério do Cordeiro Santo Agostinho exclamou: “Oh! sublime dignidade do sacerdote, em cujas mãos Jesus Cristo Se encarna de novo. Oh! celeste mistério operado, tão maravilhosamente, pelo Padre, pelo Filho e pelo Espírito Santo, por intermédio do sacerdote!”[20]
Por isso, a Santíssima Mãe de Deus cuida com carinho e solicitude primaz dos sacerdotes de Seu Filho Jesus, pois sabe a importância de seu ofício e vela para que esta encarnação sacramental de Jesus seja, como a Encarnação em Seu seio virginal, para a honra de Deus e salvação das almas.
Muito unido ao mistério da encarnação está o mistério do nascimento do Cordeiro Imaculado. Seja pelos ritos da Missa, pelo canto do glória que se inicia com as mesmas palavras dos Santos Anjos aos pastores, seja pelo próprio fato da encarnação somos levados a viver no Santo Sacrifício da Missa o glorioso nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sobre este mistério o Santo Papa Leão I escreveu que “as palavras do Evangelho e as profecias nos inflamam de tal modo, que o nascimento do Cristo não nos parece um fato passado, porém um acontecimento presente. Também ouvimos a boa nova trazida aos pastores pelos Anjos: ‘Eis que vos anuncio uma grande alegria: hoje nasceu o Salvador’”[21]. Mas como pode o Senhor Jesus nascer a cada Santa Missa?
São Jerônimo é quem nos responde dizendo que “os sacerdotes formam o Cristo pelos lábios consagrados”[22]. Por isso, o Papa Gregório XIII exortava os sacerdotes para que antes de subirem ao altar dissessem: “Quero celebrar a Santa Missa e formar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo”[23]
São Pedro Julião Eymard nos ensina:
As relações entre o nascimento do Salvador em Belém e a Eucaristia, encarada qual Sacramento repetem-se em se tratando da Eucaristia encarada qual Sacrifício. Ah! na verdade, Jesus nasce como um tenro Cordeiro no presépio em Belém, e, como ele, conhece apenas Sua Mãe. Ofereceu-Se desde logo em sacrifício – é seu primeiro grito: ‘Hostias et oblationes noluisti, Corpus autem aptasti mihi’. ‘Pai, não quisestes mais hóstias, nem sacrifícios da lei, mas me destes um Corpo e eis-me’ [...]. Esse caráter de Vítima esta de tal forma gravado nele que São João, ao avistá-lO no primeiro dia de Sua vida pública, só saberá designá-lO pelo nome de Cordeiro divino: ‘Ecce Agnus Dei; ecce qui tollit peccata mundi’.
O sacrifício, começado em Belém, consuma-se sobre o altar na Santa Missa.[24]     
Assim, é mistério também do Cordeiro na Santa Missa o poder contemplar Sua vida, pois, conforme o Cartucho São Dionísio, “toda a vida de Cristo não foi mais do que uma Missa solene, em que foi Ele templo, o altar, o sacerdote e a vítima”[25]. O venerável Padre Martinho de Cochem (1630-1712), para explicar essa “Missa solene” da vida de Nosso Senhor diz:
Na verdade, Jesus Cristo revestiu-Se das vestes sacerdotais no santuário do seio materno, onde nos tomou a carne e com ela a vestimenta da nossa mortalidade. Saiu desse santuário na noite sagrada do natal e começou o ‘intróibo’, entrando no mundo. Entoou o ‘Kyrie eleison’, lançando os primeiros vagidos[26] no presépio; o ‘Gloria in excelsis’ foi entoado pelos Anjos, quando apareceram aos pastores, e, convidando-os a misturar seus louvores com os deles, conduziram-nos ao berço do recém-nascido.
Jesus disse a ‘Coleta’ em suas vigílias noturnas, onde implorava a misericórdia divina para nós. Leu a ‘Epistola’, quando explicava Moisés e os profetas, demonstrando que os tempos eram findos. Anunciou o ‘Evangelho’, quando percorria a Judéia a pregar a boa nova. Fez o ‘ofertório’, quando, no mistério da apresentação, ofereceu-Se a Seu Pai pela salvação do mundo. Cantou o ‘Prefácio’, louvando, por nós, a Deus sem cessar e agradecendo-lhe os benefícios.
O ‘Sanctus’ foi entoado pelos hebreus, no dia de Ramos, quando, na entrada de Jesus em Jerusalém, exclamava: ‘Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana ao Filho de Davi!’
A ‘Consagração’, o Salvador efetuou-a na última Ceia, pela transformação do pão e do vinho em Seu Corpo e Sangue. A ‘Elevação’ realizou-se, quando foi pregado na Cruz, elevado nos ares e exposto em espetáculo aos olhos do mundo. O ‘Pater Noster’, Jesus o disse quando Sua Alma Santíssima separou-se de Seu Corpo adorável. O ‘Agnus Dei’, o centurião o disse no momento em que exclamou: ‘Verdadeiramente, este homem é o Filho de Deus!’. A Santa ‘Comunhão’ foi o embalsamamento e a sepultura. A ‘Benção’ no fim, Jesus a deu no monte das oliveiras, estendendo as mãos sobre os discípulos na ocasião da Ascensão.
Eis a Missa solene celebrada por Jesus Cristo sobre a terra![27]
Na Santa Missa Nosso Senhor e Cordeiro Imaculado exerce o misterioso ofício de Advogado dos homens. Como se não bastasse já ter perpetuado o Sacrifício de nossa salvação, que Ele operou no alto da Cruz, em nossos altares, Ele une à oferenda de Si mesmo na Santa Missa uma oração infalível ao Santíssimo Padre Eterno, de tal forma que pela oblação do altar nós recebemos os frutos e méritos da Cruz e pela Sua oração nos alcança de Deus Pai tudo o que Ele, Deus Filho, nos quer dá.
A divina intercessão de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santa Missa é acompanha de ofertas Suas, singulares e espontâneas, ao Pai Eterno, conforme testemunha Santa Gertrudes que relata uma visão: “Vi, na elevação, Nosso Senhor erguer com as próprias mãos e sob a forma de um cálice, o dulcíssimo Coração que apresentou ao Seu Pai. Imolou-se então em favor de Sua Igreja, de maneira incompreensível à criatura”[28]. Nosso Senhor é neste ofício durante a Santa Missa tão misterioso que nem mesmo os Santos Anjos O conhecem totalmente, conforme Sua própria revelação a Santa Matilde: “Eu somente sei e compreendo, perfeitamente, como me ofereço cada dia a meu Pai pela salvação dos fiéis; nem os Querubins nem os Serafins nem as Potestades podem concebê-lo inteiramente”[29].
“Cada vez que o Santo Sacrifício da Missa é oferecido, Jesus intercede por quem o oferece e também pelas pessoas a cuja intenção é oferecido”[30] e “enquanto o Cristo é imolado sobre o altar, [Ele] clama a Seu Pai e mostra-lhe Suas chagas para preservar os homens da condenação eterna”[31].
“A Paixão de Cristo é o próprio Sacrifício que oferecemos”[32] eis aí outro mistério do Cordeiro pascal: na Santa Missa acontece a Paixão de Cristo. Com isso não pensem que afirmamos que Jesus na Missa derrama Seu Sangue, pois São Gregório nos ensina que “Aquele que ressuscitou entre os mortos não morre mais; entretanto sofre ainda por nós, de maneira misteriosa, no Santo Sacrifício da Missa”[33], pois “não oferecemos outro Sacrifício senão o que foi oferecido sobre a Cruz”[34].
Através dos gestos, ritos, vestes e palavras é manifestada a na Santa Missa a morte gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobretudo, no estado da Presença Real sob as Espécies Sagradas.
Assim nos ensina o apóstolo da Eucaristia, São Pedro Julião Eymard:
Ora, Nosso Senhor é a Hóstia Santa. Veste o estado das Espécies Sagradas, substitui-lhes a substância, subordina Seu estado à maneira de ser delas que se tornam a forma de Sua vida e constituem a lei de Sua duração. E, qual súdito, fica-lhes sujeito e delas depende.[35]
Seja qual for o aspecto sob o qual encaremos a Eucaristia, lembra-nos Ela de modo frisante a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo [...]. O estado de Jesus é um estado de morte [...]. Sem movimento, sem vontade, assemelha-se ao cadáver que é carregado. Em redor, reina o silêncio mortal; seu altar é um túmulo que encerra ossos de mártires. Encima-o uma cruz, alumia-o a lâmpada como alumia os túmulos. Envolve a Hóstia Santa, o corporal, novo sudário – novum sudarium. O sacerdote ao celebrar o Sacrifício, traz sobre si as insígnias da morte; os paramentos santos são todos ornados da cruz, que ainda traz pela frente e pelas costas. É sempre a morte, sempre a cruz. Tal o estado da Eucaristia considerada em Si mesma.
Considerada enquanto Sacrifício e Comunhão, é a morte de modo mais sensível ainda. O sacerdote pronuncia, em separado, sobre as matérias do pão e do vinho, as palavras sacramentais, de forma que, pela virtude intrínseca destas palavras, o Corpo deveria estar separado do Sangue – e isto equivale a morrer. [...]
E assim Jesus Cristo continua na Sua morte mística o Sacrifício da Cruz, renovado deste modo milhares de vezes pelos pecados do mundo.[36]
Tendo em vista tudo que dissemos até agora, ou melhor, que aprendemos dos Santos e da Igreja, vemos como é lamentável o comportamento de tantos “fiéis” durante o Santo Sacrifício. Quanta irreverência! Quanta falta de atenção ao que acontece com Nosso Senhor no altar!... Mas o mais lamentável é que nós, que já sabíamos (ou agora sabemos) disso e de tantas verdades e ensinamentos, somos muitas vezes personagens em irreverências e desrespeitos, ou pelos menos omissos diante de tais situações.
Nossa intenção com este pequeno artigo é despertar a consciência para os mistérios de Jesus, simbolizados, presentes e “renovados” na Santa Missa.
Porém, para que não digam ou pensem que o Cordeiro de Deus está presente nas Espécies Eucarísticas somente sob o símbolo de morte ou de cruz saibam que na Santa Missa Nosso Senhor está verdadeiramente vivo e glorioso, embora, pela aparência, Ele se mostre todo “mortificado”. Eis outro grande e maravilhoso mistério de Jesus na Santa Missa.
Aquele que morreu, morreu uma única vez, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou e subiu ao Céu com grande poder e glória. É este mesmo Jesus que adoramos, é sacrificado e comungamos na Santa Missa. “Ele é o verdadeiro Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Morrendo, destruiu a morte, e, ressurgindo, deu-nos a vida”[37]. Jesus, na Santa Missa, “imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente.”[38]
Assim como na Santa Missa a morte de Nosso Senhor é significada por meio de ritos, gestos e palavras, da mesma forma é apresentada Sua gloriosa Ressurreição.
O sacerdote ao paramentar-se está se identificando com o Senhor Jesus, de quem recebeu a ordem de “fazer isto [a Missa]” em Sua memória.
A Palavra de Deus, de modo particular o Santo Evangelho, é anunciada da mesa sagrada do ambão que, segundo a IGMR, tem tanta dignidade que somente o ministro da Palavra pode subir até ela[39], e isto por causa da dignidade de Quem nos fala no Evangelho. Porém, a mesa da Palavra por si mesma é sinal de Cristo ressuscitado, o que podemos constatar pelo seu nome ambão que, conforme a liturgia, significa sepulcro vazio, como que para nos dizer que Quem nos fala na Palavra está vivo, deixou o sepulcro vazio.
Desde o princípio a Santa Igreja ensina que Jesus, no Santo Sacrifício da Missa, é ao mesmo tempo Sacerdote, Altar e Cordeiro[40]. Por isso, se em um aspecto Ele está sob a forma de Vítima de morte (na Hóstia que é sacrificada), em outro Ele está como Aquele que vive e sacrifica-Se a Si mesmo, pois Ele é o Sacerdote verdadeiro que sempre se oferece ao Pai pela nossa salvação[41]. Mesmo na Cerimônia da Sexta-feira da Paixão Jesus, na Liturgia, está vivo, pois, se misticamente choramos sua morte, Ele permanece firme e inabalável, representado pela pedra do altar, lembrando que Ele é a pedra fundamental, a pedra angular.   Ou seja, embora a Paixão seja renovada sob as Espécies Eucarísticas, Jesus está sempre vivo, glorioso e reinante sobre a Igreja na Terra, no Purgatório e no Céu.
Se pelas palavras da Consagração, proferidas primeiramente sobre o pão e depois só sobre o vinho, significam a morte mística de Jesus, a Sua Ressurreição gloriosa é significada pela intinção, isto é, quando o sacerdote, tendo partido a Hóstia Santíssima ao meio, quebra um Fragmento de uma das partes do Corpo de Nosso Senhor e lança no cálice, fazendo a união do Corpo e Sangue de Jesus. Esta união faz-nos crer que, além de Jesus está glorioso e vivo sobre a Igreja, está também vivo sob as Espécies do Pão e do Vinho.
Caríssimos, eis aí os motivos pelos quais a Santa Madre Igreja manda seus filhos irem à Santa Missa!
A Santa Missa é um livro infinito no qual Jesus é o assunto e o autor. Por isso, os mistérios do Senhor no Santo Sacrifício são tantos que penso ser quase impossível de uma única alma, em sua imensa imperfeição, conhecê-los todos. Mas cabe a nós, católicos, estudar este livro do Amor Divino.
Feliz a alma que durante a vida corporal reconhecer tais mistérios de Nosso Senhor, Agnus Dei, no Santo Sacrifício da Missa. Infeliz será eternamente a alma que não reconhecer a Missa como o único e verdadeiro Sacrifício de nossa Redenção consumado na Cruz. Aquela que amar a Santa Missa e dela participar com devoção receberá, depois da morte, o Céu como recompensa eterna, onde poderá ver claramente o Cordeiro Imaculado, sem o Véu sacramental, e o adorará pelos séculos dos séculos.




[1] São Leonardo de Porto-Mauricio, “As excelências da Santa Missa”, p. 5. Versão  online. (Será citado simplesmente como São Leonardo)
[11] Cfr. IGMR, n. 27.
[12] Por exemplo, o capítulo primeiro do livro de Levítico: “3Se a oferta for um holocausto de gado bovino, deverá oferecer um macho sem defeito, que levará até à entrada da Tenda do Encontro, para ser aceito pelo Senhor. 5Depois matará o bezerro diante do Senhor. Os sacerdotes aaronitas oferecerão o sangue, derramando-o em torno do altar que está à entrada da Tenda do Encontro. 10Se a oferta para o holocausto for de gado miúdo, das ovelhas ou cabras, deverá oferecer um macho sem defeito. 11Matará o animal ao lado norte do altar, na presença do Senhor, e os sacerdotes aaronitas derramarão o sangue em torno do altar.” (Cfr. ainda Lv 1,14 -15.17; 3,7-8.12-13;4,3.5-7.13.16-16.22-25a.27.30).
[13] Jo 1, 29.
[14] Conferir os relatos da instituição acima.
[15] E recentemente, de certo modo, no Concilio Vaticano II.
[16] Por caridade, não queiram os irmãos entender que quero separar a Missa do Sacrifício de Jesus ou que com tais palavras ensino heresia, apenas quero enfatizar o centro da Missa (consagração) entre os ritos e cerimônias que o cercam.
[17] São Leonardo, p. 7.
[18] Cf. Apocalipse 5, 6.
[19] São Leonardo, p. 6.
[20] Santo Agostinho, homilia 2, in Os. 37 apud Padre Martinho.
[21] Sermão 9, de nativitate, apud Padre Martinho.
[22] São Jerônimo, Apud Padre Martinho.
[23] Idem.
[24] São Pedro Julião Eymard, A Divina Eucaristia, vol. I, p. 215-216 (será citado simplesmente por São Pedro Julião)
[25] Vida sacerdotum, Anlwerpiae, Vostermann, 1751, apud Padre Martinho.
[26] Choro de recém-nascido.
[27] Padre Marinho, VI.
[28] Apud Padre Martinho, VII.
[29] Idem
[30] Suárez, tom. 3, disp. 79, sect. 21, apud Padre Martinho, VII.
[31] São Lourenço Justiniano, apud Padre Martinho.
[32] São Cipriano, Epist. Ad Caeciliam, apud Padre Martinho.
[33] São Gregório, homilia 137, apud Padre Martinho
[34] Teodoreto, in cap. 8 hebr. apud Padre Martinho.
[35] São Pedro Julião, p. 180.
[36] Ibid, extratos das p. 69-70.
[37] Prefácio da Páscoa I: o mistério pascal.
[38] Prefácio da Páscoa III: o Cristo, nosso intercessor.
[39] Cf. IGMR, n. 309, p. 123, edição CNBB.
[40] Prefácio da Páscoa V: o Cristo, sacerdote e vítima; cf. Vida sacerdotum, Anlwerpiae, Vostermann, 1751, apud Padre Martinho.
[41] Prefácio da Santíssima Eucaristia I: Eucaristia, sacrifício e sacramento de Cristo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário