segunda-feira, 28 de setembro de 2015

SOBRE A LÍNGUA LATINA NA IGREJA




Por Blasius Ludovicus

O QUE É O LATIM?
É a língua própria da Igreja Romana, é a língua oficial de nossa Santa Igreja Católica[1] “capaz de promover, junto a qualquer povo, toda a forma de cultura; e como não suscita inveja e se apresenta imparcial para todos os povos, não é privilégio de ninguém, e, enfim, a todos aceita e reúne.”[2]

II
DONDE VEIO A LÍNGUA LATINA?

A língua latina teve origem em Roma, Lacio[3], 753 anos antes de Cristo,[4] inclusive o famoso código de direito romano, de Julio César, foi escrito uns 50 anos antes do nascimento de Nosso Senhor em latim.
Na época de Jesus Cristo estavam em uso as línguas aramaica, grega e latina,[5] prova disso é que o letreiro[6] posto sobre a cabeça de Nosso Senhor Crucificado estava escrito nestas três línguas. Jesus, provavelmente, celebrou o Santo Sacrifício no cenáculo em língua aramaica que era a comum, mais popular na época. Porém, nem Ele nem seus Apóstolos reprovou as outras duas línguas.[7]
Quando a Igreja começou a anunciar o Evangelho aos pagãos usava já o latim e o grego por terem se tornado as línguas mais faladas. Igualmente o latim e o grego eram usados para a Sagrada Liturgia. Depois de alguns séculos, quando os cristãos tiveram que se adaptar cada vez mais às grandes mudanças nos países onde o Evangelho estava sendo pregado, nos quais nasceram várias línguas que eram usadas, a Igreja começou a ter dificuldades em anuncia sempre a mesma Palavra, Jesus Cristo, de um modo uniforme, fiel à Verdade e à tradição apostólica. Nem todas as línguas (novas ou não) tinham palavras capazes de traduzir os significados da Palavra revelada à Igreja (o que acontece ainda hoje!).
Por isso, a Igreja continuou usando sempre o latim e o grego nos três primeiros séculos, sobretudo na Liturgia; o grego, num primeiro momento, predominou em Roma[8], por isso, ainda hoje é usado em algumas celebrações em Roma e se conservou na Liturgia da Igreja palavras gregas. Na Igreja Romana o latim começou a se fixar, entre outros motivos, pela tradução da Sagrada Escritura, feita no século II, que servia para as reuniões eclesiásticas. O latim escolhido para a tradução foi o dito vulgar e não o clássico, porque o clássico era usado pelos pagãos e pecadores enquanto que o vulgar era de maior acesso.[9]
Assim o latim foi tornando-se referência não só na Sagrada Escritura, mas, também para a Sagrada Liturgia, sobretudo na Santa Missa. O uso desta língua anterior à própria Igreja tornou-se tão natural, e necessário, que todos os cristãos, praticamente, falavam-na, do século I até o infeliz Lutero.[10]
O Papa São Gregório Magno (590-604) escreveu seu ofício em latim no ano 600.[11] Embora o latim tenha se tornado a língua natural da Santa Igreja de Cristo, somente no ano 666 o Papa São Vitaliano (657-672) ordenou, pela primeira vez, que a Santa Missa fosse celebrada em latim.[12] Assim a língua latina se tornou um sinal de unidade da Igreja Católica no mundo inteiro e de unidade das Igrejas particulares com a Igreja de Roma.
O Papa São Pio X, em carta ao Cardeal Dubois que trabalhava para que a pronúncia do latim fosse conforme a romana, escreveu ter grande satisfação ao “que ele [Dubois] se aplicava com tão grande zelo, nas diversas dioceses da França, a conformar cada vez mais a pronúncia da língua latina com a [pronúncia] usada em Roma”.[13] Do mesmo modo desejava o Papa Bento XV que

esta unidade da pronúncia do latim segundo o tipo da que é sempre viva no centro da catolicidade. Por esta unidade da pronuncia duma língua já tão largamente conhecida, os povos de hoje, como a cristandade de outrora, possuiriam enfim esta língua única e universal que tantas vezes e mais ou menos em vão se procurou fora da Igreja. Esta maior possibilidade de mútuas relações seria atrativo e um laço a mais para esta Sociedade das Nações pela qual nos levam a suspirar ardentemente o desejo e preocupações duma paz duradoura. [14] 
E o monge Dom Gaspar Lefebvre, diante do antigo uso da venerável língua latina, exclama:

Que grandioso espetáculo o de todos os fiéis, dirigindo a Deus na Liturgia, em íntima união com os seus sacerdotes, o seu bispo e o papa, uma mesma oração cantada numa mesma língua e com a mesma pronúncia que a do Pontífice supremo, chefe da Igreja universal![15]

III
POR QUE A IGREJA CONTINUA USANDO O LATIM?

“O uso da língua latina, diz o Papa Pio XII, vigente em grande parte da Igreja, é um caro e nobre sinal de unidade e um eficaz remédio contra toda corruptela da pura doutrina.”[16] “De fato a Igreja, como mantém unidos no seu conjunto todos os povos e durará até a consumação dos séculos... exige, pela sua natureza, uma linguagem universal, imutável, não vulgar”[17]
Como já dissemos[18], a Igreja sentiu a necessidade de ter uma língua própria, com a qual seria entendida por todos os fiéis em qualquer parte do mundo ou pelo menos pelos sacerdotes. Isto foi motivo para a fixação do latim na Igreja Católica. Em seguida a língua latina ficou morta, ou seja, não evoluiu mais (o que favoreceu ainda mais a Igreja), tornando-se praticamente língua de uso sagrado no culto a Deus.
Só no pontificado do Papa Pio XII foi permitido, em circunstancias especiais, celebrar a Santa Missa em língua vernácula (nacional), desde que houvesse expressa permissão da Santa Sé. No Concílio Vaticano II, foi determinado que podia-se celebrar a Santa Missa sem esta autorização da Santa Sé, colocando a decisão do uso da língua vernácula nas hierarquia competente.[19] Porém, o atual Código de Direito Canônico diz que os seminaristas devem dominar a língua latina[20] e que a Santa Missa, ordinariamente, deve fazer-se em língua latina[21].
Depois vieram outros motivos (que ainda hoje permanecem) para o uso da língua latina.

IV
QUAIS AS VANTAGENS DO USO DO LATIM NA MISSA?


A primeira de todas é a continuação do venerável e multissecular uso da língua latina na Igreja Católica, sobretudo na Santa Missa.
A língua latina não evolui (é “morta”), isso é bom porque permite assegurar que as palavras conservem sempre o mesmo sentido, desde os tempos apostólicos até a consumação dos tempos. Se a Igreja não tivesse o latim teria que constantemente está renovando os livros por causa do progresso das diversas línguas. Com o latim tanto o Magistério fica inalterado como a fé é sempre baseada na mesma doutrina, independentemente de tempo e lugar.
O latim evita que as palavras santas usadas no culto a Deus sejam usadas no uso profano e dos hereges, pois estes não sabem o latim perfeitamente. Evita também que os fiéis dêem sentido diverso do sentido da Igreja às coisas santas. Assim cada fiel que queira saber o significado real de algo do culto terá que aprender da Igreja e não da subjetividade de sua própria mente.
Como o latim não evolui as suas palavras não mudam mais de significados. São sempre os mesmos.[22] E como não é língua usada por nenhum povo ou nação suas palavras não sofrem reformas, como aconteceu recentemente com a língua portuguesa.
Por ter sido originada em Roma o latim tem uma perfeição de termos e precisão de sentido lógico incomparável. O que garante ainda a perpetuidade da Igreja através dos séculos.
Além disso, sempre foi convicção na Igreja que, para uma ação tão santa e sumamente maior do que qualquer outra neste mundo, era necessário uma língua diferente daquelas usadas no uso cotidiano.[23] É notável que as grandes religiões, mesmo as mais diferentes do cristianismo e pagãs, nos seus atos de culto usam ou uma língua diferente do uso ordinário ou assumem palavras e orações misteriosas.
Se é verdade que os brasileiros, por exemplo, se unem por causa da língua comum a todos, muito mais verdade é que a Igreja se une na mesma língua (o latim), independentemente da nacionalidade[24]. Se é fato que nas ciências do mundo (por exemplo, na medicina, na biologia, na física, na filosofia etc.) a língua latina está presente, muito mais o deve ser na ciência sagrada o latim a língua ordinária.

V
OS FIÉIS NÃO ENTENDEM NADA DO LATIM?

Isto não é verdade ou pelo menos não deveria ser. O que acontece é que há um desejo diabólico de que o latim seja esquecido na Igreja. Por isso não se ensina aos fiéis. A questão não é que os fiéis não entendem o latim, mas sim que o latim não é ensinado aos fiéis! É verdade que a Igreja pede que os fiéis participem e entendam o que se passa na Missa, mas isto não se refere ao latim, pois quem é que (estando presente e atento à Santa Missa) vendo o sacerdote no altar repetindo o que Jesus fez na última Ceia não sabe, ao menos imperfeitamente, o que ali se passa?
Quem, presente no calvário, estava explicando o que acontecia com Jesus na Cruz? Quem, por mais ignorante que seja vendo o sacerdote subir com tanta reverência e humildade ao altar e olhando para aquele grande crucifixo não saberá, ao menos minimamente, que Jesus se deu em sacrifício por nós?
Além do mais, quantos de nossos atuais católicos, mesmo vendo o padre repetir as mesmas palavras de Nosso Senhor no altar em português, entendem o que aquilo significa? Quantos dos fiéis, ouvindo em português a Sagrada Escritura, têm entendimento da Liturgia da Palavra? Quantos dos fiéis entendem mais as cerimônias e ritos da Igreja só pelo fato de serem realizados na língua vernácula?[25]
Acaso não é verdade que em nossas comunidades muitas vezes, mesmo rezando-se em nossa língua, é necessário (ou pelo menos se acha necessário) explicar aos fiéis os ritos e os diversos símbolos usados na liturgia? Ou ainda, quantas vezes em nossas comunidades, depois de se ter explicado um símbolo ou um rito, os fiéis nada terem entendido do que viram e ouviram?
As respostas a essas perguntas nos levam a pensar que o latim não é, nem nunca foi, um impedimento para a participação dos fiéis na Santa Missa. A questão é outra!
Antes do Concílio, todas as Missas de Rito Latino eram em latim. E, obviamente, em muitos lugares do mundo o povo não sabia falar em latim: a Missa era em latim tanto na China quanto no Japão, por exemplo. No Brasil, porém, era ensinado latim nos colégios, então o povo tinha noções da língua.
Aqueles que dizem que somente os fiéis sabedores da língua latina podem ter a “Missa em latim”, evidentemente cometem um grave erro. Afinal, as graças de Cristo são alcançadas pelos fiéis independente da língua em que se celebra a Missa. Caso vá um fiel brasileiro para o Japão, se ele não falar japonês então ele não pode assistir Missa? Ou, se assistir, não irá receber dos frutos dessa Missa? Esse argumento parte da idéia – de origem protestante – de que todos os fiéis devem participar da Missa, para que a Missa tenha efeito. Por causa do sacerdócio ministerial do padre, os fiéis não são obrigados nem a responder as orações, já que a participação dos fiéis se dá quando eles desejam se unir àquela Missa, para usufruir de seus efeitos. Os fiéis, portanto, rezam a Missa pelas mãos do padre, por meio do padre, mas não diretamente. Por isso, não são obrigados nem a saber a língua da Missa.[26]
Mesmo que o latim fosse esse impedimento que nos querem fazer crer, porque então não aprender, pelo menos o que diz respeito à Santa Missa? Estamos dispostos a aprender tantas coisas no mundo e por tantos motivos, será que não somos capazes de aprender algo por causa de Deus? Muitas vezes nos vemos obrigados a aprender uma outra língua como o inglês, por exemplo, por causa da necessidade temporal; seja porque precisamos manusear programas do computador ou porque isto é exigido pelo mercado de trabalho seja porque está é a norma da atualidade num mundo governado por grandes potências. O que custa aprender ao menos o necessário, por necessidade espiritual, da língua da Igreja que nos governa e conduz à glória do Céu?
Somos todos egoístas e, por isso, nos envaidecemos muito até das coisas devidas só a Deus. Assim, por exemplo, nos sentimos “valorizados” ao ver o padre falar conosco. Por isso, ao ouvirmos a língua e a posição do sacerdote na Santa Missa (português e de frente) poderíamos pensar que a Missa é celebrada para nós, ou que somos personagens principais da ação sagrada. Não é para nós a celebração da Santa Missa, pelo contrário, unidos ao sacerdote que celebra a Santa Missa, oferecemos o Santo Sacrifício a Deus, o único a quem é devido. Não somos personagens principais da ação sagrada, nem mesmo a Virgem Maria o foi porque nós seríamos? Na Santa Missa, embora tenhamos papel importantíssimo, somos figurantes, ou seja, estamos participando, mas ao lado, sem ofuscar o lugar devido somente a Jesus Cristo.
Alguma contradição ou falta de catolicidade há no discurso antilatim!


Confira também: Como pronunciar o latim;
                                O que diz o Vaticano II sobre o Latim.




[1] Cf. Liturgia: P. F., p. 284; João XXIII, Const. Após. Veterum Sapientia, n. 3.
[2] João XXIII, Const. Após. Veterum Sapientia, n. 3.
[3] Cf. João XXIII, Const. Após. Veterum Sapientia, n. 3; Programa de Latim, vol. I, n. 50, p. 31.
[4] Cf. Horas de Combate, p. 43.
[5] Cf. Reus, n. 79, 2, p. 46.
[6] Cf. João 19,19.
[7] Cf. Reus, n. 79, 1-2, p. 46.
[8] Ibid, n. 80, p. 47.
[9] Ibid, n. 81, p. 47.
[10] Cf. Horas de Combate, p. 134.
[11] Idem.
[12] Idem. É bom lembrarmos que o fato desta ordenação do latim ter acontecido somente em 666 não significa que só aí ele tenha sido introduzido na Igreja ou se tornado universal, pelo contrário, significa que seu uso já vinha de tempos imemoráveis na Sagrada Tradição!
[13] Liturgia: P. F., p. 236.
[14] Carta do Cardeal Gasparri ao P. Delporte, de Tour-Coing, apud Liturgia: P. F., p. 235-36.
[15] Liturgia: P. F., p. 236.
[16] Mediator Dei: Col. Documentos da Igreja, Pio XII, n. 53, p. 313.
[17] Pio XI, Epist. Ap. Officiorum omnium, 1-8-1922 apud João XXIII, Const.Apos. Veterum Sapientia, n. 4.
[18] Cnferir acima o n. II sobre o latim.
[19] Cf. Sacrossanctum Concilium, nn. 22.36.54 pp. 21-22.27-28.36.
[20] Cf. Cânon 249.
[21] Ibid 928.
[22] Por exemplo, em português a palavra mãe não possui um único sentido e, além dos que possui vai adquirindo outros com o passar dos tempos. Foi o que aconteceu com a palavra rapariga, que significa moça, donzela, em nossos dias ninguém ousa chamar uma moça de família de rapariga, pois está já não possui seu significado orignal! É embaraçoso quando, por exemplo, alguém lê numa das traduções portuguesas quando Jesus, no discurso do Pão da Vida, diz “quem me come terá a vida eterna”, pois dizer este me come é em nossos dias totalmente distorcido pelo emprego comum, tendo um significado pejorativo.
[23] Cf. Reus, n. 82, p. 47.
[24] É bom relembrarmos que dentre as diversas línguas originadas da língua latina se encontra a língua portuguesa. Além disso, muitas palavras e expressões que usamos são próprias do latim.
[25] Com estas perguntas não quero colocar em questão o uso da língua vernácula, não me entendam assim, mas quero levá-los a pensar que o entendimento dos fiéis não está só na língua, mas naquela união das palavras com a alma, da ação exterior com a ação interior tantas vezes pedida pela Igreja, inclusive no Vaticano II (Cf. Sacrosanctum Concilium, n. 11, p. 15)
[26] Ivan, Principais Perguntas, Objeções e Questões sobre o Rito Tridentino, 13.

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