quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Catecismo do Motu Proprio Summorum Pontificum
















Temos a satisfação de apresentar a todos os interessados o presente Catecismo sobre o Summorum Pontificum.  Não é um trabalho exaustivo, mas uma coletânea de citações que explicam o contexto, valor jurídico, normas e aplicação do Motu Proprio do Santo Padre Bento XVI, tudo isso apresentado como um diálogo entre um monsenhor e um coroinha em 242 perguntas e respostas.
Escolhi fazer o diálogo entre esses dois personagens tendo em mente tantos padres retos e saudosos dessa Missa de sua infância e outros tantos coroinhas, como já fui, que, uma vez conhecendo a Forma Extraordinária, encontram nela elementos que facilitam a união com Nosso Senhor, alimento fácil à espiritualidade, a sacralidade e a reverência como antes não conheciam. Nos textos tentei conservar as citações íntegras, modificando só o necessário para o diálogo. 
Rezamos para que este Catecismo seja útil aos que, em comunhão com a Santa Igreja e na retidão de consciência, desejam conhecer, participar e divulgar a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano, ao mesmo tempo em que desejamos fazer conhecida nossa eterna gratidão ao Papa Bento XVI por ter dado à Forma Extraordinária cidadania na Igreja, para o bem das almas.
Boa leitura!
Blasius Ludovicus


I
INTRODUÇÃO

O velho e o novo
01. Monsenhor – Hoje o assunto do nosso catecismo será a Santa Missa...
02. Juninho – De novo, monsenhor? Mas semana passada não foi sobre isso também?
03. Monsenhor – Calma, Juninho, você nem sequer me esperou terminar de falar! Hoje vamos falar sobre a Santa Missa na Forma Extraordinária...
04. Juninho – “Extraordinária!”, monsenhor, quer dizer a Missa de “de vez em quando”? O que é isso?
05. Monsenhor – Não, Juninho, a Missa na Forma Extraordinária é a Missa na sua forma antiga, como era no tempo em que eu era apenas um coroinha, como você.
06. Juninho – Ah! Acho que já ouvi falar, é aquela Missa que o padre rezava de costas para o povo e só falava em latim...
07. Monsenhor – ... é a Missa em que o padre celebra de frente para o altar e usa a língua oficial da Igreja, o latim.
08. Juninho – Mas essa Missa nem existe mais, monsenhor!
09. Monsenhor – Só porque você não vê não significa que não exista. Em vários lugares, mesmo depois da última reforma litúrgica, existem pessoas que só tem a Missa como aqui, outras só a tem na sua forma antiga, e outras tem as duas.
10. Juninho – E isso pode? Se a Igreja reformou não é por que estava ruim ou errado?
11. Monsenhor – Não, não. E veremos, pois a Igreja falou recentemente falou sobre o assunto no Motu Proprio Summorum Pontificum. Podemos começar nosso catecismo?

Generalidades
12. Juninho – Sim, senhor. O que significa essa expressão “motu proprio” usada no título do Summorum Pontificum?
13. Monsenhor – “Motu proprio” é uma expressão latina que equivaleria a movimento por si mesmo. Quer dizer que o documento emanado sob este nome é resultado de um movimento, uma vontade direta e unicamente do Romano Pontífice. É uma verdadeira Lei na Igreja e pode versar sobre os mais variados assuntos.

14. Juninho – Por que este documento chama-se “Summorum Pontificum”?
15. Monsenhor – Chama-se assim porque os documentos pontifícios normalmente tomam seu título das primeiras palavras no texto do documento.

A solicitude litúrgica dos Sumos Pontífices
16. Juninho – Qual foi a preocupação constante dos Sumos Pontífices até os nossos dias?
17. Monsenhor – Preocuparam-se os Sumos Pontífices para que a Igreja de Cristo oferecesse à Divina Majestade um culto digno para glória do Seu nome e para bem de toda a santa Igreja. Por isso, cada Igreja particular deve concordar com a Igreja universal não só quanto à doutrina da fé e aos sinais sacramentais, mas também quanto aos usos universalmente aceitos por uma ininterrupta tradição apostólica como devendo ser observados, não só para evitar erros, mas também para transmitir a fé na sua integridade, porque a norma de oração da Igreja corresponde à sua norma de fé.

18. Juninho – Se essa foi a preocupação dos Sumos Pontífices, o senhor poderia dar o exemplo de algum deles?
19. Monsenhor – Sim. Podemos ressaltar o nome de São Gregório Magno, que se esforçou para que aos novos povos da Europa se transmitisse tanto a fé católica como os tesouros do culto e da cultura acumulados pelos romanos nos séculos precedentes. 

20. Juninho – E o que ele fez?
21. Monsenhor – Ele mandou que fosse definida e conservada a forma da Liturgia sagrada, relativa quer ao Sacrifício da Missa quer ao Ofício Divino, no modo como se celebrava em Roma. Promoveu com a maior solicitude a propagação dos monges e monjas que, agindo segundo a Regra de São Bento, por toda a parte juntamente com o anúncio do Evangelho ilustraram com a sua vida esta máxima salutar da Regra: “Que nada seja anteposto à obra de Deus” (cap. 43). Desta forma, a Liturgia sagrada, celebrada segundo o uso romano, enriqueceu não somente a fé e a piedade, mas também a cultura de muitas populações.

22. Juninho – Por que ele mandou definir e conservar a Liturgia no modo como se celebrava em Roma?
23. Monsenhor – Porque, efetivamente, a Liturgia latina da Igreja, nas suas várias formas, em todos os séculos da era cristã impulsionou na vida espiritual de numerosos Santos, reforçou muitos povos na virtude da religião e fecundou a sua piedade.

24. Juninho – E o senhor teria mais algum Sumo Pontífice para citar?
25. Monsenhor – Sim. Muitos outros Pontífices Romanos, no decorrer dos séculos, mostraram particular solicitude em assegurar que a Liturgia sagrada desempenhasse de forma mais eficaz esta função: entre eles destaca-se São Pio V, que, animado por grande zelo pastoral, na sequência da exortação do Concílio de Trento, renovou todo o culto da Igreja, preocupou-se pela edição dos livros litúrgicos corrigidos e renovados segundo a norma dos Padres e destinou-os para uso da Igreja latina. 

26. Juninho – Qual o principal desses livros litúrgicos?
27. Monsenhor – Entre os livros litúrgicos do Rito Romano sobressai o Missal Romano, que se desenvolveu na cidade de Roma e, com o decorrer dos séculos, pouco a pouco tomou formas que têm grande semelhança com a vigente nos tempos mais recentes.

28. Juninho – E depois de São Pio V outros Sumos Pontífices se preocuparam com essa matéria?
29. Monsenhor – Com certeza. Os Romanos Pontífices, no decorrer dos séculos seguintes, procuraram alcançar este mesmo objetivo assegurando a atualização e definindo os ritos e os livros litúrgicos; e depois, a partir dos inícios deste século, empreendendo uma reforma mais geral. Assim agiram Clemente VIII, Urbano VIII, São Pio X, Bento XV, Pio XII e São João XXIII.

O Concílio Vaticano II 
30. Juninho – Mas até aqui estamos falando da Missa Tridentina ou da Missa Nova?
31. Monsenhor – Estamos falando da única Missa Romana que, então, existia. Se voltássemos no tempo, por exemplo, na época de São João XXIII, e disséssemos “missa tridentina” com certeza ririam de nós. Esse modo de falar é uma consequência do pós Concílio.

32. Juninho – Pós Concílio...?
33. Monsenhor – Sim, pós Concílio. É que nos tempos mais recentes, o sagrado Concílio Vaticano II expressou o desejo de que a devida e respeitosa reverência ao culto divino se renovasse outra vez e se adaptasse às necessidades da nossa época.

34. Juninho – Mas quem convocou o Concílio Vaticano II?
35. Monsenhor – O Concílio foi convocado pelo Papa São João XXIII, mas ele faleceu logo.

36. Juninho – Quem continuou o Concílio?
37. Monsenhor – Eleito o novo Sumo Pontífice, Paulo VI, movido pelo desejo expresso pelo Concílio, em 1970, aprovou para a Igreja latina os livros litúrgicos reformados e, em parte, renovados. Estes, traduzidos nas diversas línguas do mundo, foram acolhidos de bom grado pelos Bispos, sacerdotes e fiéis. 

38. Juninho – Qual a importância de São João Paulo II para o Missal de 1970?
39. Monsenhor – São João Paulo II reviu a terceira edição típica do Missal Romano, para que esta espécie de edifício litúrgico aparecesse de novo esplendorosa por dignidade e harmonia. 

II
AS NORMAS DO SUMMORUM

A dúvida...
40. Juninho – Então o Missal aprovado pelo Sumo Pontífice Paulo VI aboliu o Missal que havia sido editado por São João XXIII?
41. Monsenhor – Em nenhum lugar, seja no Concílio, seja nos documentos posteriores ou no próprio Missal de 1970, se disse que com essa reforma se abolia o Missal anterior. Por isso, pairou uma dúvida que perdurou por muitos anos e foi motivo de muitos desentendimentos no seio da Igreja. E além disso, na altura da introdução do novo Missal, não pareceu necessário emanar normas próprias para um possível uso do Missal anterior. Supôs-se, provavelmente, que se trataria de poucos casos individuais que seriam resolvidos um a um na sua situação concreta. 

Razões da crise pós conciliar
42. Juninho – Mas se esses novos livros traduzidos nas diversas línguas foram bem acolhidos por que esses desentendimentos? 
43. Monsenhor – Foi porque em algumas regiões, contudo, não poucos fiéis estavam apegados, e continuam a estar, com grande amor e afeto às formas litúrgicas anteriores, que tinham impregnado tão profundamente a sua cultura e o seu espírito.

44. Juninho – E só por isso a Igreja teve que sofrer tanto internamente com desentendimentos entre seus filhos?...
45. Monsenhor – Não, a situação é complexa.

46. Juninho – Resuma a questão, por favor...
47. Monsenhor – Todos nós sabemos que, no movimento guiado pelo Arcebispo Lefebvre, a fidelidade ao Missal antigo apareceu como um sinal distintivo externo; mas as razões da divisão, que então nascia, eram muito mais profundas...
Muitas pessoas, que aceitavam claramente o caráter vinculante do Concílio Vaticano II e que eram fiéis ao Papa e aos Bispos, desejavam, contudo, reaver também a forma, que lhes era cara, da sagrada Liturgia; isto sucedeu antes de mais porque, em muitos lugares, se celebrava não se atendo de maneira fiel às prescrições do novo Missal, antes consideravam-se como que autorizados ou até obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia no limite do suportável. 
Falo por experiência, porque também eu vivi aquele período com todas as suas expectativas e confusões. E vi como foram profundamente feridas, pelas deformações arbitrárias da Liturgia, pessoas que estavam totalmente radicadas na fé da Igreja.

48. Juninho – E quais eram as causas desses abusos?
49. Monsenhor – As causas desses abusos litúrgicos eram especialmente: a criatividade, a manipulação e banalização, a inculturação e o secularismo, e o protagonismo do celebrante, como podemos ver constatado em vários lugares especialmente por Bento XVI.

50. Juninho – Qual é o problema da criatividade na Liturgia?
51. Monsenhor – Conforme dizia o então Cardeal Ratzinger, a idéia [errada] de base é que a Liturgia seja uma celebração comunitária, um ato durante o qual a comunidade se constitui e se experimenta como tal. Mas, dessa maneira, a forma e atitude espiritual da liturgia passam a ser na prática as próprias de uma festa de vizinhos (festa surpresa). Isso se nota, por exemplo, na importância cada vez maior das palavras de saudação e despedida, assim com a procura de elementos que sirvam de entretenimento. O grau de entretenimento se converte no fator para medir se a celebração litúrgica foi bem sucedida, o que a faz depender da criatividade, ou seja, das invenções do seu organizador. 
Por isso, a diferença entre a liturgia segundo os novos livros, como ela é praticada de fato, celebrada em lugares diferentes, é frequentemente maior do que a que existe entre uma Liturgia antiga e uma Liturgia nova, celebradas ambas conforme os livros litúrgicos prescritos. A juventude atual é muito sensível a isso. Por isso, os lugares onde a Liturgia se celebra com solenidade, de modo reverente, sem frivolidades, ainda que não se entendam todas as palavras, gozam de uma grande atração. Necessitamos de mais centros que sigam essa linha.
Diante de tudo isso, já o Papa Paulo VI se lamentava dizendo que em matéria litúrgica, as próprias Conferências Episcopais vão às vezes, por sua própria conta, além dos justos limites. Acontece igualmente que se fazem experiências arbitrárias ou que se introduzam ritos que estão em oposição flagrante com as regras estabelecidas pela Igreja. 

52. Juninho – E por que o senhor fala de manipulação e banalização?
53. Monsenhor – Porque o então Cardeal Ratzinger também já dizia que para a maioria dos fiéis, a liturgia se apresenta como uma tarefa de criação para a comunidade correspondente; tarefa que conduz, em determinados círculos, a elaborar, semana após semana, ‘liturgias’ novas, e isso com um empenho tão admirável quanto errôneo. Entretanto, a liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas ‘simpáticas’, de invenções ‘cativantes’, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado.
Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser ‘feita’ por toda a comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém, terminou por dispersar o proprium litúrgico, que não deriva daquilo que nós fazemos, mas do fato de que acontece. Algo que nós todos juntos não podemos, de modo algum, fazer. Para o católico, a liturgia é a Pátria comum, é a fonte mesma da sua identidade. Também por isso ela deve ser ‘predeterminada’, ‘imperturbável’, porque através do rito se manifesta a Santidade de Deus. Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado ‘a velha rigidez rubricista’, acusada de inibir a ‘criatividade’, arrastou também a liturgia ao vórtice do ‘faça-você-mesmo’, banalizando-a, porque reduzindo-a à nossa medíocre medida.

54. Juninho – E a inculturação não está certa?
55. Monsenhor – Ao ver do Cardeal Ratzinger, havia uma tendência errada na reforma litúrgica, que visa à ‘inculturação’ total da liturgia ao mundo moderno: fazê-la mais curta, fazer desaparecer o que se considera incompreensível, traduzi-la em uma linguagem ainda mais simples, mais vulgar. Desse modo, a essência da liturgia e a própria celebração ficam completamente desvirtuadas; porque em liturgia não se tem que entender as coisas só de forma racional, como se entende uma conferência, mas de modo mais completo, participando com todos os sentidos e deixando-se compenetrar por uma celebração que não foi inventada por uma comissão, mas que nos chega desde a profundidade dos séculos e, definitivamente, desde a eternidade.
Assim, infelizmente, após o Concílio, certas mudanças pouco refletidas foram feitas, na rapidez, no entusiasmo, na rejeição de certos exageros do passado, mas caindo em outro extremo: a liturgia tomou direções errôneas como o abandono do sagrado e da mística, a confusão dos papeis entre os leigos e os padres; o conceito de Eucaristia como um banquete comum... Essa mudança de mentalidade enfraqueceu o papel da liturgia ao invés de reforçá-lo… Assim, para enfrentar o progresso do secularismo no mundo, não era preciso nos tornar secularizados, mas que nos aprofundássemos ainda mais, pois o mundo tem sempre mais necessidade do Espírito, da interioridade.

56. Juninho – Mas pelo menos o padre deve ser o protagonista, não?
57. Monsenhor – Como disse Ratzinger, em certas circunstâncias, se dá à pessoa do sacerdote uma importância desmedida, quer dizer, se espera dele que faça tudo perfeito, que apresente tudo muito bem, etc. Porque, com essa mentalidade, o centro da celebração é realmente o sacerdote. Quando, ao contrário, o sacerdote sabe desaparecer pessoalmente e reconhecer-se só como mero representante, então o que sucede não gira em torno dele, mas põe-se de lado e aparece algo maior. No centro está então a Palavra, que é anunciada e explicada. 
A verdade é que o sacerdote não é um ‘showman’ ou ‘showmaster’ (apresentador de programa), que hoje inventa qualquer coisa e a transmite com habilidade. Pelo contrário, ele pode não ter talento nenhum como ‘showman’, porque ele está representando algo completamente diferente e que não depende absolutamente dele mesmo.

58. Juninho – Mesmo assim não consigo entender... Como uma reforma promovida pela Igreja pode causar tantos conflitos internos?...
59. Monsenhor – Você não entende por causa da nossa mentalidade atual. Imagine se hoje ocorressem varias mudanças uma atrás da outra, mas levando em conta que os meios de comunicação eram muito precários ainda. E de repente grupos consistentes de fiéis leigos e também de eclesiásticos se sentissem incomodados, porque tinham que deixar a Liturgia a que tinham uma forte ligação, a qual já vigorava havia séculos. 
Penso nos sacerdotes que durante cinquenta anos haviam celebrado a hoje chamada Missa de São Pio V e que, de uma hora para outra, viram-se obrigados a celebrar uma outra; penso nos fiéis que estavam acostumados com o velho rito havia gerações; penso ainda nas crianças, como os coroinhas, que de repente ficaram embaraçadas ao servirem à Missa com o Novus ordo.

60. Juninho – Terá sido assim tão abrangente?
61. Monsenhor – Com certeza. Houve um mal-estar em vários níveis. Para alguns, o problema era também de natureza teológica, pois consideravam que o rito antigo expressava o sentido do sacrifício melhor do que o rito que era introduzido. Outros, até por razões culturais, lembravam com saudade o gregoriano e as grandes polifonias, que eram uma riqueza da Igreja latina. Para agravar isso tudo, as pessoas que se sentiam incomodadas atribuíam as mudanças ao Concílio, quando, na realidade, o Concílio por si mesmo não havia nem pedido nem estabelecido os detalhes dessas mudanças. A Missa que os padres conciliares celebravam era a Missa chamada hoje de São Pio V. O Concílio não havia pedido a criação de um novo rito, mas um uso mais amplo da língua vernácula e uma maior participação dos fiéis.

62. Juninho – Então o que São João Paulo II fez?
63. Monsenhor – O Sumo Pontífice São João Paulo II, movido pela solicitude pastoral para com estes fiéis, no ano de 1984, com o indulto especial Quattuor abhinc annos emitido pela Congregação para o Culto Divino, concedeu a faculdade de se usar o Missal Romano editado em 1962 por São João XXIII; mais tarde, no ano de 1988, ainda São João Paulo II, com a Carta Apostólica Ecclesia Dei, dada sob a forma de Motu proprio, exortou os Bispos a fazerem, ampla e generosamente, uso desta faculdade em favor de todos os fiéis que o solicitassem.  Além do mais, esse quadro normativo para o uso do Missal de 1962, não continha prescrições detalhadas, mas fazia apelo, de forma mais geral, à generosidade dos Bispos para com as “justas aspirações” dos fiéis que requeriam este uso do Rito Romano.

64. Juninho – E isso resolveu a questão?
65. Monsenhor – Infelizmente não. São João Paulo II veio a falecer sem ver a unidade litúrgica interna da Igreja restaurada, por vários motivos. Continuava aberta, porém, a difícil questão do uso do Missal de 1962 fora dos grupos ligados ao movimento de Dom Lefèbvre, para os quais faltavam precisas normas jurídicas, antes de mais porque, nestes casos, frequentemente os Bispos temiam que a autoridade do Concílio fosse posta em dúvida.

66. Juninho – Não seria melhor esperar essa geração saudosa morrer? assim a geração seguinte só conheceria o Missal de 1970...!
67. Monsenhor – De fato, logo a seguir ao Concílio Vaticano II podia-se supor que o pedido do uso do Missal de 1962 se limitasse à geração mais idosa que tinha crescido com ele, mas, entretanto vê-se claramente que também pessoas jovens descobrem esta forma litúrgica, sentem-se atraídas por ela e nela encontram uma forma, que lhes resulta particularmente apropriada, de encontro com o Mistério da Santíssima Eucaristia.

68. Juninho – Então eram tantos fiéis, assim, que se decidiam por ficar com o Missal antigo?
69. Monsenhor – Sim, bem depressa se constatou que não poucos continuavam fortemente ligados a este uso do Rito Romano que, desde a infância, se lhes tornara familiar. Isto aconteceu, sobretudo, em países onde o movimento litúrgico tinha dado a muitas pessoas uma formação litúrgica notável e uma profunda e íntima familiaridade com a Forma anterior da Celebração Litúrgica.

70. Juninho – Parece que a Igreja precisava realmente ajudar esses fiéis.
71. Monsenhor – Sim, pois surgiu assim a necessidade duma regulamentação jurídica mais clara, que, no tempo do Motu Proprio de 1988, não era previsível; estas Normas pretendem também libertar os Bispos do dever de avaliar sempre de novo como hão de responder às diversas situações.

O Papa Bento XVI
72. Juninho – Quem sucedeu São João Paulo II?
73. Monsenhor – Sucedeu-lhe o Sumo Pontífice Bento XVI.

74. Juninho – Quem era ele antes de ser Papa?
75. Monsenhor – Joseph Ratzinger participou do Concílio do Vaticano II (1962 – 1965), como perito em teologia do Cardeal Joseph Frings de Colónia. Foi sagrado bispo, a 28 de maio de 1977. Depois foi nomeado Arcebispo de Munique e Frisinga em 25 de março de 1977, pelo Papa Paulo VI, e elevado a Cardeal no consistório de 27 de junho de 1977 com o título presbiteral de “Santa Maria Consoladora em Tiburtino”. Em 1981, foi escolhido para ser o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé pelo Papa São João Paulo II. Foi designado cardeal-bispo da Sé Episcopal de Velletri-Segni em 1993, e tornou-se Decano do Colégio dos Cardeais em 2002, tornando-se o bispo titular de Ostia. Participou do Conclave de 1978 que elegeu o Papa João Paulo I e do conclave do mesmo ano que elegeu São João Paulo II. Ratzinger foi um dos mais influentes integrantes da Cúria Romana, especialmente por ser prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé durante vinte e três anos. Foi eleito Papa aos 78 anos no conclave de abril de 2005, um dos mais rápidos da história, tendo apenas quatro votações e duração de apenas 22 horas. No dia 24 de abril do mesmo ano iniciou seu ministério petrino.
O Santo Padre Bento XVI participou desde o início de toda a questão Lefebvre e, portanto, conheceu muito bem o problema que a reforma litúrgica criava para aqueles fiéis. O papa tem um amor especial pela Liturgia. Um amor que se traduz também em capacidade de estudo, de aprofundamento da própria Liturgia. Por esse motivo, Bento XVI considera a liturgia anterior à Reforma do Concílio um tesouro inestimável.

76. Juninho – E o que fez o Sumo Pontífice Bento XVI?
77. Monsenhor – Como curiosamente, nas novas gerações, tanto de clérigos quanto de leigos, parece florescer também um interesse e uma estima pelo rito anterior. E são sacerdotes e simples fiéis que muitas vezes não têm nada a ver com os chamados lefebvrianos. Esses são fatos da vida da Igreja, aos quais os pastores não podem continuar surdos. Foi por isso que Bento XVI, que é um grande teólogo, autorizado por seu conhecimento de causa, com uma profunda sensibilidade litúrgica, decidiu promulgar o Motu Proprio.

78. Juninho – Quer dizer que ele não ouviu ninguém e agiu por conta própria?
79. Monsenhor – Bento XVI, conhecendo a sequência das súplicas insistentes destes fiéis ligados ao Missal de 1962, o que foi objeto já de longa deliberação por São João Paulo II, e depois de ter auscultado os Padres Cardeais no Consistório realizado em 22 de Março de 2006, tendo refletido profundamente sobre todos os aspectos da questão, após ter invocado o Espírito Santo e confiando na ajuda de Deus, só depois de tudo isso, ele escreveu por si mesmo sua Carta Summorum Pontificum com o qual estabelece algumas disposições sobre o assunto.  Portanto, o documento é fruto de longas reflexões, múltiplas consultas e de oração.
Além do mais, antes da promulgação do Motu Proprio o Papa Bento XVI convocou alguns prelados, por diferentes motivos particularmente interessados na questão, que representassem todos os continentes. Apresentou o texto a eles, dando-lhes a possibilidade de fazerem observações. Todos os participantes puderam falar.

80. Juninho – Mas já não havia um indulto?
81. Monsenhor – Sim, já havia um indulto, mas São João Paulo II mesmo entendeu que o indulto não tinha sido suficiente. Primeiro, porque alguns sacerdotes e bispos relutavam em aplicá-lo. Mas, sobretudo, porque os fiéis que desejam celebrar com o rito antigo não devem ser considerados de segunda categoria. São fiéis aos quais se deve reconhecer o direito de assistir a uma Missa que alimentou o povo cristão por séculos, que alimentou a sensibilidade de Santos como São Filipe Néri, Dom Bosco, Santa Teresinha do Menino Jesus, São João XXIII e o próprio São João Paulo II, que, como eu já disse, entendeu o problema do indulto e, portanto, já tinha em mente ampliar o uso do Missal de 1962.
Devo dizer que, nos encontros com os cardeais e com os chefes dos organismos vaticanos nos quais se discutiu sobre essa medida, as resistências foram realmente mínimas. O Papa Bento XVI, que acompanhou o processo desde o início, deu este passo importante que seu grande predecessor já havia imaginado. É uma medida petrina tomada por amor a um grande tesouro litúrgico, como a Missa chamada de São Pio V, e também pelo amor de um pastor por um considerável grupo de fiéis.

82. Juninho – Com este documento o Sumo Pontífice usa seu poder soberano, que está acima dos Bispos...
83. Monsenhor – Não. O Papa não pretende passar por cima dos Bispos. Ele, é claro, cumpre sua função de velar pelo bem da Igreja toda. Mas as novas normas não diminuem de modo algum a autoridade e responsabilidade sobre a liturgia nem sobre a pastoral dos Bispos sobre seus fiéis. 
Por conseguinte, nada se tira à autoridade do Bispo, cuja tarefa, em todo o caso, continuará a ser a de vigiar para que tudo se desenrole em paz e serenidade. Se por hipótese surgisse qualquer problema que o pároco não pudesse resolver, sempre poderia o Ordinário local intervir, mas em plena harmonia com quanto estabelecido pelas novas normas do Motu Proprio.

84. Juninho – Apesar disso, houve quem afirmasse que, com esse Motu Proprio, Ratzinger “zomba do Concílio” e “dá uma bofetada” em seus antecessores Paulo VI e João Paulo II...
85. Monsenhor – Bento XVI segue o Concílio, que não aboliu a Missa de São Pio V nem pediu que o fizessem. E segue o Concílio, que recomendou ouvir a voz e os desejos legítimos dos fiéis leigos. Quem afirma essas coisas deveria ver as milhares de cartas que chegaram a Roma para pedir a liberdade de assistir a Missa a que cada um se sente mais ligado. E o Papa não se contrapõe a seus antecessores, que são amplamente citados tanto no Motu Proprio quanto na carta que a acompanha. Em alguns casos, o Papa Paulo VI concedeu de imediato a possibilidade de celebrar a Missa de São Pio V. João Paulo II, como eu já disse, queria preparar um Motu Proprio semelhante ao que Bento XVI publicou.

86. Juninho – Então como entender a ação do Sumo Pontífice?
87. Monsenhor – O Motu Proprio Summorum Pontificum constitui uma expressão privilegiada do Magistério do Romano Pontífice e do seu múnus próprio de regulamentar e ordenar a Liturgia da Igreja e manifesta a sua preocupação de Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal.

88. Juninho – Qual a verdadeira intenção do Papa Bento XVI ao escrever seu Motu Proprio?
89. Monsenhor – Motivado por uma razão positiva, ele quer atualizar o Motu Proprio de 1988. Procurando chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja.

Duas Formas de um único Rito Romano
90. Juninho – E o que ele estabeleceu sobre os dois Missais?
91. Monsenhor – Bento XVI estabeleceu que o Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da lex orandi (norma de oração) da Igreja Católica de rito latino. Contudo o Missal Romano promulgado por São Pio V e reeditado por São João XXIII deve ser considerado como expressão extraordinária da mesma lex orandi e deve gozar da devida honra pelo seu uso venerável e antigo.

92. Juninho – Então são dois ritos romanos, o antigo e o novo?
93. Monsenhor – Não. Não é apropriado falar destas duas versões do Missal Romano como se fossem dois ritos. Trata-se, antes, de um duplo uso do único e mesmo Rito.

94. Juninho – Se não são dois ritos podemos, então, dizer duas formas de celebrar o Rito Romano?
95. Monsenhor – É exatamente isso! Aliás, as duas Formas do uso do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente: no Missal antigo poderão e deverão ser inseridos novos Santos e alguns dos novos prefácios. E, na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido, aquela sacralidade e grande reverência em conformidade com as rubricas que atraem muitos para o uso antigo.
Portanto, trata-se aqui de dois usos do único Rito Romano, que se põem um ao lado do outro. Ambas as formas são expressões da mesma lex orandi da Igreja. Pelo seu uso venerável e antigo a Forma Extraordinária deve ser conservada em devida honra.

96. Juninho – Mas não existe o risco de que, com a introdução de duas Formas no Rito Romano possa haver uma confusão litúrgica nas paróquias e nas dioceses?
97. Monsenhor – Se as coisas forem feitas com bom senso, simplesmente, não se correrá esse risco. Além do mais, já há dioceses em que se celebram Missas em vários ritos, uma vez que existem comunidades de fiéis latinos, greco-latinos ucranianos ou rutenos, maronitas, melquitas, siro-católicos, caldeus, etc. Penso, por exemplo, em algumas dioceses dos Estados Unidos, como Pittsburgh, que vivem essa legítima variedade litúrgica como uma riqueza, não como uma tragédia. E existem também paróquias que acolhem ritos diferentes do latino, entre outras as de comunidades ortodoxas ou pré-calcedonianas, sem que isso suscite escândalo. Não vejo, portanto, o risco de haver confusões. Contanto, é claro, que tudo se desenvolva com ordem e respeito mútuo.

98. Juninho – Então o Motu Proprio não vai contra o caráter unitário do rito, que seria um desejo dos padres conciliares?...
99. Monsenhor – Admitindo em primeiro lugar que o rito romano continua a ser único, mesmo podendo ser celebrado de duas Formas, tomo a liberdade de recordar que nunca houve um rito único para todos na Igreja latina. Hoje, por exemplo, existem todos os ritos das Igrejas orientais em comunhão com Roma. E mesmo no Rito latino existem outros ritos além do Romano, como o ambrosiano ou o moçárabe. A própria Missa dita de São Pio V, quando foi aprovada, não anulou todos os ritos anteriores, mas apenas aqueles que não contavam com pelo menos dois séculos de antiguidade...

Solução da dúvida
100. Juninho – Quer dizer que é possível rezar a Missa com qualquer um dos dois Missais?
101. Monsenhor – Sim, é lícito celebrar o Sacrifício da Missa segundo a edição típica do Missal Romano, promulgada por São João XXIII em 1962, como Forma Extraordinária da Liturgia da Igreja, pois nunca foi ab-rogada.

102. Juninho – Então o Missal de 1962 não tinha sido abolido?
103. Monsenhor – Quanto ao uso do Missal de 1962, como Forma extraordinária da Liturgia da Missa, o Papa Bento XVI chamou a atenção para o fato de que este Missal nunca foi juridicamente ab-rogado e, consequentemente, em princípio sempre continuou permitido. 
O Concílio Vaticano II não o aboliu, nem depois nunca houve nenhuma medida efetiva que estabelecesse sua abolição. Portanto, formalmente, a Missa dita de São Pio V nunca foi abolida. De certa forma, é surpreendente que aqueles que se dizem intérpretes autênticos do Vaticano II dêem a ele uma interpretação, no campo litúrgico, tão restritiva e pouco respeitadora da liberdade dos fiéis, fazendo que esse Concílio, além de tudo, pareça mais coercitivo ainda que o Concílio de Trento.

Não ruptura, mas continuidade...
104. Juninho – E isso não trará divisão no Rito Romano?
105. Monsenhor – Estas duas expressões da lex orandi da Igreja não levarão de forma alguma a uma divisão na lex credendi (norma de fé) da Igreja; com efeito, são dois usos do único Rito Romano. Não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum. Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura. 

106. Juninho – Por que tanta solicitude em restabelecer o uso do Missal antiquior?
107. Monsenhor – Porque aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar.

Força do Summorum Pontificum
108. Juninho – Então esse documento deve ser lido juntamente com os documentos anteriores?
109. Monsenhor – Não. As condições para o uso do Missal de 1962, estabelecidas pelos documentos anteriores Quattuor abhinc annos e Ecclesia Dei, são substituídas pelas normas do Summorum Pontificum.

Possibilidade da Missa sine populo
110. Juninho – Quem pode celebrar a Missa sem o povo?
111. Monsenhor – Nas Missas celebradas sem o povo, todo o sacerdote católico de rito latino, tanto secular como religioso, pode utilizar seja o Missal Romano editado pelo Papa São João XXIII em 1962 seja o Missal Romano promulgado pelo Papa Paulo VI em 1970, e fazê-lo todos os dias à exceção do Tríduo Pascal. 

112. Juninho – Então qualquer padre pode celebrar a Missa na Forma Extraordinária?
113. Monsenhor – Sim. Mas os sacerdotes que utilizam o Missal de São João XXIII devem ser idôneos e não estar juridicamente impedidos.

114. Juninho – O que quer dizer “idôneo”?
115. Monsenhor – “Idôneo” significa apto, qualificado, que tem condições para realizar determinada ação. Para que um sacerdote seja considerado idôneo para celebrar na Forma Extraordinária é necessário que: a) não seja impedido pelo Direito Canônico  (assim como para celebrar em qualquer rito na Igreja); b) No que se refere à língua latina, é necessário um conhecimento de base, que permita pronunciar as palavras de modo correto e de entender o seu significado; c) Em referimento ao conhecimento e execução do Rito, se presumem idôneos os sacerdotes que se apresentam espontaneamente a celebrar na Forma Extraordinária, e que já o fizeram no passado.

116. Juninho – Mas se não houver um sacerdote idôneo, conforme essas características?
117. Monsenhor – Nas dioceses onde não houver sacerdotes idôneos, os bispos diocesanos podem pedir a colaboração dos sacerdotes dos Institutos erigidos pela Comissão Ecclesia Dei ou dos sacerdotes que conhecem a Forma Extraordinária do Rito, seja em vista da celebração, seja com vistas ao seu eventual ensino. 

118. Juninho – O fato de um padre adotar o Missal de 1962 é uma rejeição do Missal de 1970?
119. Monsenhor – Obviamente não. Para viver a plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades aderentes ao uso antigo não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros. De fato, não seria coerente com o reconhecimento do valor e da santidade do novo rito a exclusão total do mesmo.

120. Juninho – Para celebrar a Missa sem o povo é necessário autorização de alguém?
121. Monsenhor – Para tal celebração segundo um ou outro Missal, o sacerdote não necessita de qualquer autorização da Sé Apostólica nem do seu Ordinário.

122. Juninho – Isso é claro para a Forma Ordinária, mas e a Forma Extraordinária?
123. Monsenhor – A faculdade para celebrar a Missa sine populo (ou só com a participação de um ajudante) na Forma Extraordinária do rito Romano foi dada pelo Motu Proprio a todo sacerdote, seja secular, seja religioso. Assim sendo, em tais celebrações, os sacerdotes, segundo o Motu Proprio Summorum Pontificum, não precisam de nenhuma permissão especial dos próprios Ordinários ou superiores.

124. Juninho – Mas com isso não se tira a autoridade do Bispo em permitir ou não que um padre celebre a Missa?
125. Monsenhor – Não é verdade que tenha sido tirado dos bispos o poder sobre a Liturgia, porque já o Código diz quem deve dar a permissão para celebrar a Missa não é o Bispo: o Bispo dá o celebrantet – a potestade de poder celebrar – mas quando um sacerdote tem essa potestade, são o pároco e o capelão que devem oferecer o altar para celebrar.

Possibilidade da Missa cum populo
126. Juninho – Mas só o padre sozinho pode celebrar a Missa na Forma Extraordinária?
127. Monsenhor – Não. As comunidades dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, tanto de direito pontifício como diocesano, que desejem celebrar a Santa Missa segundo a edição do Missal Romano promulgado em 1962 na celebração conventual ou comunitária que tenha lugar em seus oratórios próprios, podem fazê-lo.

128. Juninho – Então quer dizer que cada convento ou casa religiosa pode decidir ter a Forma Extraordinária para si?
129. Monsenhor – Sim. E se uma comunidade individualmente ou todo um Instituto ou Sociedade quiser realizar, de modo frequênte, habitual ou permanente, tais celebrações, o caso deve ser decidido pelos Superiores Maiores, segundo as normas do direito e as regras e os estatutos particulares.

Os fiéis e a Missa na Forma Extraordinária
130. Juninho – Mas então só os padres e os religiosos podem ter acesso à Forma Extraordinária?
131. Monsenhor – Não, pois nas celebrações da Santa Missa que o padre celebra sem o povo  podem ser admitidos – observando as normas do direito – também os fiéis que o solicitem por sua espontânea vontade.

132. Juninho – Quer dizer que o povo só pode participar da Missa privada de um padre?
133. Monsenhor – Não. Nas paróquias, onde houver um grupo estável de fiéis aderentes à precedente tradição litúrgica, o pároco acolha de bom grado as suas solicitações de terem a celebração da Santa Missa segundo o rito do Missal Romano editado em 1962. 

134. Juninho – O que quer dizer esse “grupo estável”?
135. Monsenhor – Um coetus fidelium será considerado stabiliter exsistens, de acordo com o art. 5 §1 do Motu Proprio, quando for constituído por algumas pessoas de uma determinada paróquia unidas por causa da veneração pela Liturgia em seu Usus Antiquior, seja antes, seja depois da publicação do Motu Proprio, as quais pedem que a mesma seja celebrada na própria igreja paroquial, num oratório ou capela; dito coetus pode ser também constituído por pessoas que vêm de diferentes paróquias ou dioceses e que convergem em uma igreja paroquial ou oratório ou capela destinados a tal fim.

136. Juninho – No motu proprio não se estabelece um número mínimo de fiéis necessários para que se peça a celebração da Forma Extraordinária. Mas há algum tempo vazou uma notícia de que se pensava num mínimo de trinta fiéis...
137. Monsenhor – Essa é a prova cabal de como se divulgaram muitas pseudonotícias sobre o Motu Proprio semeadas por pessoas que nem haviam lido os esboços ou que, por interesses próprias, queriam influenciar sua elaboração. Eu acompanhei todo o processo até a redação final e, que eu me lembre, em nenhum esboço jamais apareceu qualquer limite mínimo de fiéis, nem de trinta, nem de vinte, nem de cem.

138. Juninho – E se, ocasionalmente, um padre com fiéis pedir para celebrar em uma igreja alheia...?
139. Monsenhor – No caso em que um sacerdote se apresente ocasionalmente com algumas pessoas em uma igreja paroquial ou oratório e queira celebrar na Forma Extraordinária, como previsto pelos artigos 2 e 4 do Motu Proprio Summorum Pontificum, o pároco ou o reitor de uma igreja, ou o sacerdote responsável por uma igreja, o admita a tal celebração, levando todavia em conta as exigências da programação dos horários das celebrações litúrgicas da igreja em questão.

140. Juninho – Como proceder em casos particulares?
141. Monsenhor – A fim de decidir nos casos particulares, o pároco, ou o reitor ou o sacerdote responsável por uma igreja, lançará mão da sua prudência, deixando-se guiar pelo zelo pastoral e por um espírito de generosa hospitalidade.

142. Juninho – E no caso de grupos menores?
143. Monsenhor – No caso de grupos menos numerosos, far-se-á apelo ao Ordinário do lugar para determinar uma igreja à qual os fiéis possam concorrer para assistir a tais celebrações, de tal modo que se assegure uma mais fácil participação dos mesmos e uma celebração mais digna da Santa Missa.

144. Juninho – E se os fiéis pedirem e o pároco não lhes atender?
145. Monsenhor – Se um grupo de fiéis leigos não vir satisfeitas as suas solicitações por parte do pároco, informe o Bispo diocesano. Pede-se vivamente ao Bispo que satisfaça o desejo deles. Se não puder dar provisão para tal celebração, refira-se o caso à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei.

146. Juninho – Mas se o Bispo quiser atender ao pedido dos fiéis e, por algum motivo, não puder fazê-lo?
147. Monsenhor – O Bispo, que deseja corresponder a tais solicitações de fiéis leigos, mas, por várias causas, está impedido de fazê-lo, pode referir a questão à Comissão Ecclesia Dei para que lhe dê conselho e ajuda.

148. Juninho – Se nas igrejas paróquias são os párocos que devem dá licença e ceder a igreja, quem deve ceder nas outras igrejas para a Missa?
149. Monsenhor – Nas igrejas que não são paroquiais nem conventuais, é competência do Reitor da Igreja conceder a licença.

150. Juninho – Mas Missas diferentes na mesma igreja não fará confusão no meio dos fiéis?
151. Monsenhor – Não. Providencie para que o bem destes fiéis se harmonize com o cuidado pastoral ordinário da paróquia, sob a orientação do Bispo, como previsto no cân. 392, evitando a discórdia e favorecendo a unidade de toda a Igreja.  Se as coisas forem feitas com bom senso, simplesmente, não se correrá esse risco. 

152. Juninho – Existe alguma restrição aos fiéis?
01. Monsenhor – Sim. Os fiéis que pedem a celebração da Forma Extraordinária não devem apoiar nem pertencer a grupos que se manifestam contrários à validade ou à legitimidade da Santa Missa ou dos Sacramentos celebrados na Forma Ordinária, nem ser contrários ao Romano Pontífice como Pastor Supremo da Igreja universal.

A Paróquia Pessoal
153. Juninho – E assim como há igrejas (a maioria hoje) que só celebram a Missa do Missal de 1970, poderia haver igrejas só para Missas do Missal de 1962?
154. Monsenhor – Sim. O Ordinário local, se o considerar oportuno, poderá erigir uma paróquia pessoal, de acordo com o cân. 518 , para as celebrações segundo a forma mais antiga do Rito Romano, ou nomear um capelão, observadas as normas do direito.

 O Bispo e a Forma Extraordinária
155. Juninho – Qual a competência concreta dos Bispos em relação à Forma Extraordinária?
156. Monsenhor – É tarefa do Ordinário tomar as medidas necessárias para garantir o respeito da Forma Extraordinária do Rito Romano, de acordo com o Motu Proprio Summorum Pontificum.

157. Juninho – O Bispo pode impor a Forma Extraordinária à sua diocese?
158. Monsenhor – Impor não. Porém, se pede aos Ordinários que ofereçam ao clero a possibilidade de obter uma preparação adequada às celebrações na Forma Extraordinária, o que também vale para os Seminários, onde se deve prover à formação conveniente dos futuros sacerdotes com o estudo do latim  e oferecer, se as exigências pastorais o sugerirem, a oportunidade de aprender a Forma Extraordinária do Rito.

Dias para a Missa na Forma Extraordinária
159. Juninho – Então quais são os dias em que pode ter Missa na Forma Extraordinária nas paróquias?
160. Monsenhor – A celebração segundo o Missal de São João XXIII pode realizar-se nos dias feriais; nos domingos e dias santos, também é possível uma celebração desse gênero.

161. Juninho – Então em todos os dias comuns pode ter Missa Tradicional?
162. Monsenhor – Não só nos dias comuns. Para os fiéis e sacerdotes que o solicitem, o pároco permita as celebrações nesta Forma Extraordinária também em circunstâncias particulares como matrimônios, funerais ou celebrações ocasionais como, por exemplo, peregrinações.

Lugares para a Missa na Forma Extraordinária
163. Juninho – Também nas peregrinações?!
164. Monsenhor – Sim, também nos santuários e lugares de peregrinação deve-se oferecer a possibilidade de celebração na Forma Extraordinária aos grupos de peregrinos que o pedirem, se houver um sacerdote idôneo.  E não só em peregrinações, mas também na Semana Santa...

165. Juninho – Duas Semanas Santas?...
166. Monsenhor – Não duas semanas santas, mas duas Formas para a Semana Santa. O coetus fidelium que adere à tradição litúrgica precedente, no caso de dispor de um sacerdote idôneo, pode também celebrar o Tríduo Sacro na Forma Extraordinária. Caso não haja uma igreja ou oratório destinados exclusivamente para estas celebrações, o pároco ou o Ordinário, em acordo com o sacerdote idôneo, disponham as modalidades mais favoráveis para o bem das almas, não excluindo a possibilidade de uma repetição das celebrações do Tríduo Sacro na mesma igreja.

Os sacramentos e a Forma Extraordinária
167. Juninho – E os sacramentos? O Summorum Pontificum não os contempla?
168. Monsenhor – Sim. O pároco, depois de ter considerado tudo atentamente, pode também conceder a licença para se usar o ritual mais antigo na administração dos sacramentos do Batismo, do Matrimônio, da Penitência e da Unção dos Enfermos, se o bem das almas assim o aconselhar.

169. Juninho – E o sacramento da Crisma?
170. Monsenhor – Aos Ordinários, é concedida a faculdade de celebrar o sacramento da Confirmação usando o Pontifical Romano anterior, se o bem das almas assim o aconselhar.

171. Juninho – Mas a Igreja mudou a fórmula da Crisma?...
172. Monsenhor – A concessão de usar a fórmula antiga para o rito da Crisma foi confirmada pelo Motu Proprio Summorum Pontificum. Por isso para a Forma Extraordinária não é necessário lançar mão da fórmula renovada do Rito da Confirmação promulgado por Paulo VI.

Os livros litúrgicos da Forma Extraordinária
173. Juninho – E os outros livros litúrgicos?
174. Monsenhor – Permite-se o uso do Pontificale Romanum e do Rituale Romanum, também como do Caeremoniale Episcoporum, vigentes em 1962.

175. Juninho – Podemos adaptar os livros litúrgicos...?
176. Monsenhor – Os livros litúrgicos da Forma Extraordinária devem ser usados como previstos em si mesmos. Todos os que desejam celebrar segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano devem conhecer as respectivas rubricas e são obrigados a executá-las corretamente nas celebrações.

177. Juninho – Então nunca poderemos celebrar os novos Santos?
178. Monsenhor – No Missal de 1962 poderão e deverão inserir-se novos santos e alguns dos novos prefácios, segundo as diretrizes que ainda hão de ser indicadas.

179. Juninho – A Missa na Forma Extraordinária deve ser toda em latim?
180. Monsenhor – Nas missas celebradas com o povo segundo o Missal de São João XXIII, as leituras podem ser proclamadas também em língua vernácula. 

181. Juninho – Como assim?
182. Monsenhor – Como prevê o Motu Proprio Summorum Pontificum no art. 6, precisa-se que as leituras da Santa Missa do Missal de 1962 podem ser proclamadas ou somente em língua latina (mais propriamente na Missa privada ou onde os fiéis não tenham prejuízo espiritual), ou em língua latina seguida da tradução em língua vernácula (como nas Missas cantadas e solenes) ou ainda, nas Missas recitadas, só em língua vernácula.

183. Juninho – E de onde se tira o vernáculo desses dos textos latinos, direto da Bíblia?
184. Monsenhor – Não, devem-se utilizar as edições reconhecidas pela Sé Apostólica.

185. Juninho – Então o Summorum Pontificum do Papa Bento XVI atinge somente a Missa e os sacramentos?
186. Monsenhor – Não, alcança também o Ofício Divino. Aos clérigos constituídos in sacris, é lícito usar o Breviário Romano promulgado por São João XXIII em 1962.

187. Juninho – Podemos misturar o Breviário das duas Formas, já que são do mesmo Rito Romano?
188. Monsenhor – A faculdade dada aos clérigos de usar o Breviarium Romanum em vigor no ano de 1962, conforme o art. 9, §3 do Motu Proprio Summorum Pontificum requer que deva ser recitado integralmente e em latim.

189. Juninho – Além dos livros litúrgicos citados o Summorum Pontificum concedeu o uso de mais algum?
190. Monsenhor – Sim. Aos membros das Ordens Religiosas se permite o uso dos livros litúrgicos próprios, vigentes em 1962.

191. Juninho – Por que o senhor não citou o Pontifical Romano?
192. Monsenhor – Porque somente aos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica que dependem da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, e àqueles nos quais se conserva o uso dos livros litúrgicos da Forma Extraordinária, se permite o uso do Pontifical Romano de 1962 para o conferimento das ordens menores e maiores.

A disciplina da Igreja
193. Juninho – Ordens menores? Mas isso não já acabou?
194. Monsenhor – No que diz respeito a tonsura, ordens menores e subdiaconado, o Motu Proprio Summorum Pontificum não introduz nenhuma mudança na disciplina do Código de Direito Canônico de 1983.  Ou seja, na Forma Ordinária continua existindo somente os ministério de Leitor e Acólito.

195. Juninho – Então a que está se referindo?
196. Monsenhor – O texto refere-se aos lugares onde se mantém o uso dos livros litúrgicos da Forma Extraordinária, ou seja, aos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica que dependem da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei.

197. Juninho – Nesses lugares a incardinação se dá quando?
198. Monsenhor – Nesses lugares, o membro professo de votos perpétuos ou aquele incorporado definitivamente numa sociedade clerical de vida apostólica, pela recepção do diaconato incardina-se como clérigo no respectivo instituto ou sociedade de acordo com o cân. 266, § 2 do Código de Direito Canônico.

199. Juninho – Em vários lugares nos livros litúrgicos vemos referência à disciplina da Igreja citando o antigo Código de Direito Canônico de 1917. Ele também deve ser observado?
200. Monsenhor – Não. No que diz respeito às normas disciplinares conexas à celebração, aplica-se a disciplina eclesiástica contida no Código de Direito Canônico de 1983.

III
O CUIDADO PASTORAL DA IGREJA

Sobre a Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”
201. Juninho – Existe algum organismo da Santa Sé responsável por essa parte da Missa na Forma Extraordinária?
202. Monsenhor – Sim. É a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei que foi instituída por São João Paulo II em 1988 com a tarefa de colaborar com os Bispos, Dicastérios da Cúria Romana e com os ambientes interessados, a fim de facilitar a plena comunhão eclesial dos sacerdotes, dos seminaristas, das comunidades ou de cada religioso ou religiosa que estavam ligados de diversos modos à Fraternidade fundada por Dom Marcel Lefèbvre, que desejem permanecer unidos ao Sucessor de Pedro na Igreja Católica.

203. Juninho – Então a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei é somente para esses grupos ligados à Fraternidade São Pio X, do Monsenhor Lefèbvre?
204. Monsenhor – Não. Em virtude das faculdades a ela atribuídas pelos Sumos Pontífices, a Pontifícia Comissão exerce a autoridade da Santa Sé sobre os diversos Institutos e Comunidades religiosas por ela erigidas, que têm como Rito próprio a Forma Extraordinária do Rito Romano e praticam as precedentes tradições da vida religiosa.

205. Juninho – Como a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei cumpre sua função?
206. Monsenhor – A Pontifícia Comissão segue e promove a cura pastoral dos fiéis ligados à precedente tradição litúgica latina, presentes em várias partes do mundo, que encontram nela um ponto de referência nas próprias necessidades. E a Carta Apostólica Motu Proprio Summorum Pontificum de Sua Santidade Bento XVI, amplificou as faculdades da Pontifícia Comissão, afirmando que, além das faculdades de que goza, ela exercerá a autoridade da Santa Sé, vigiando sobre a observância e a aplicação das disposições do Motu Proprio.

207. Juninho – A quem compete regulamentar os novos textos litúrgicos da Forma Extraordinária?
208. Monsenhor – Compete à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, depois de aprovação da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, a tarefa de preparar a eventual edição dos textos litúrgicos concernentes à Forma Extraordinária.

Sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum
209. Juninho – Existia algum medo em relação à publicação do Summorum Pontificum?
210. Monsenhor – Sim. Contrapunham-se de forma mais direta a este documento dois temores: o primeiro temor era de que fosse afetada a autoridade do Concílio Vaticano II e que uma das suas decisões essenciais – a reforma litúrgica – fosse posta em dúvida. 

211. Juninho – E não é verdade?
212. Monsenhor – Tal receio não tem fundamento. A este respeito, é preciso antes de mais afirmar que o Missal publicado por Paulo VI, e reeditado em duas sucessivas edições por São João Paulo II, obviamente é e permanece a Forma normal – a Forma Ordinária – da Liturgia Eucarística. A última versão do Missale Romanum, anterior ao Concílio, que foi publicada sob a autoridade do Papa São João XXIII em 1962 e utilizada durante o Concílio, poderá, por sua vez, ser usada como Forma Extraordinária da Celebração Litúrgica. 

213. Juninho – Qual era o segundo temor?
214. Monsenhor – Era que uma possibilidade mais ampla do uso do Missal de 1962 levasse a desordens ou até a divisões nas comunidades paroquiais. Também este receio não me parece realmente fundado.

215. Juninho – Quando o Sumo Pontífice Bento XVI escreveu esta Carta?
216. Monsenhor – Escreveu-a em Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de Julho de 2007, terceiro ano do seu Pontificado.

217. Juninho – E quando entrou em vigor as Normas dadas no Summorum Pontificum do Papa Bento XVI?
218. Monsenhor – Tudo aquilo que foi estabelecido na Carta Apostólica dada sob a forma de Motu proprio Summorum Pontificum, ordenado como estabelecido e decretado entrou em vigor no dia 14 de Setembro do ano de 2007, festa da Exaltação da Santa Cruz, não obstante tudo o que possa haver em contrário.

Summorum Pontificum: lei universal
219. Juninho – Qual o alcance jurídico na Igreja desse Motu Proprio?
220. Monsenhor – Com o motu próprio Summorum Pontificum o Santo Padre promulgou uma lei universal para toda a Igreja com o fim de regulamentar o uso da Liturgia Romana em vigor no ano de 1962, ilustrando de forma autorizada as razões de sua decisão na Carta aos Bispos que acompanha a publicação do motu próprio sobre o uso da Liturgia Romana anterior à Reforma efetuada no ano de 1970.

221. Juninho – Uma Lei universal?
222. Monsenhor – Sim. E por força do seu caráter de lei especial, no seu próprio âmbito, o Motu Proprio Summorum Pontificum derroga os textos legislativos inerentes aos sagrados Ritos promulgados a partir de 1962 e incompatíveis com as rubricas dos livros litúrgicos em vigor em 1962.

223. Juninho – Em síntese, quais os objetivos do Summorum Pontíficum?
224. Monsenhor – O Motu Proprio se propõe como objetivo: a) oferecer a todos os fiéis a Liturgia Romana segundo o Usus Antiquior, considerada como um tesouro precioso a ser conservado; b) garantir e assegurar realmente a quantos o pedem o uso da Forma Extraordinária, supondo que o uso da Liturgia Romana vigente em 1962 é uma faculdade concedida para o bem dos fiéis e que, por conseguinte, deve ser interpretada em sentido favorável aos fiéis, que são os seus principais destinatários; c) favorecer a reconciliação ao interno da Igreja.

IV
CONCLUSÃO

225. Juninho – Depois de tudo isso, o senhor poderia me dizer por que a Forma Extraordinária é tão importante para a Igreja?
226. Monsenhor – A Santa Missa na Forma Extraordinária é importante por causa de sua visível sacralidade, seu sentido do mistério que ali é celebrado, sua beleza e profundidade, e o valor dado ao silêncio.

227. Juninho – O que é a sacralidade?
228. Monsenhor – Sacralidade é o oposto de banalização. Se a Missa é o que temos de mais santo, mais sagrado, mais semelhante à Liturgia celeste, seus ritos devem exprimir dignidade, respeito, adoração, enfim, sacralidade.  Bento XVI, na Carta aos Bispos que acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum, disse que faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar.
E, quando Cardeal, afirmava que mesmo que haja numerosos motivos que possam ter levado um grande número de fiéis a encontrar refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre eles é que eles aí encontram preservada a dignidade do sagrado. 

229. Juninho – Por que esse sentido de mistério é importante?
230. Monsenhor – Um dia o Cardeal Ratzinger, narrando os primeiros contatos com o mundo misterioso da Liturgia na sua infância, através do seu primeiro missal, disse que esta misteriosa trama de textos e de ações havia crescido no curso dos séculos da fé da Igreja. Levava em si o peso de toda a história e era muito mais do que um produto da história humana… Nem tudo era lógico, muitas coisas eram complicadas e não era sempre fácil se orientar. Mas exatamente por isso o edifício era maravilhoso e nos sentíamos em casa. 
A Forma Extraordinária da Missa serve precisamente a muitas pessoas para manter vivo este sentido do mistério. O rito sagrado, com o sentido do mistério, nos ajuda a penetrar com nossos sentidos no recinto do mistério de Deus. A nobreza de um rito que acompanha a Igreja durante tantos anos justifica bem o fato de que um grupo escolhido de fiéis mantenha a apreciação deste rito, e a Igreja, pela voz do Soberano Pontífice, o compreendeu assim, quando ela pede que haja portas abertas à sua celebração… Nós celebramos um belo rito, rito que foi o de muitos Santos, uma bela Missa, que encheu os arcos de muitas catedrais e que faz ressoar seus acentos de mistério nas pequenas capelas do mundo inteiro.

231. Juninho – E o que dizer da reverência e humildade?
232. Monsenhor – O silêncio, as inclinações, as múltiplas genuflexões, a sobriedade dos gestos, prescritos pelas rubricas do antigo Missal, e, sobretudo, o texto das orações exalam reverência e humildade diante de Deus, a quem é oferecido o Santo Sacrifício da Missa.
O Papa São João Paulo II afirmou que o Povo de Deus tem necessidade de ver nos padres e nos diáconos um comportamento cheio de reverência e de dignidade, capaz de ajudá-lo a penetrar as coisas invisíveis, mesmo com poucas palavras e explicações. E que no Missal Romano, dito de São Pio V, encontramos belíssimas orações com as quais o padre exprime o mais profundo senso de humildade e de reverência diante dos santos mistérios: elas revelam a substância mesma de toda a Liturgia.  Uma Liturgia que não conhecesse mais o ajoelhar-se seria intrinsecamente doente. É preciso reensinar a ajoelhar-se, reintroduzir o ajoelhar-se por toda a parte onde isso tiver desaparecido, a fim de que por nossa oração continuemos em comunhão com os Apóstolos e os mártires em comunhão com Jesus Cristo.

233. Juninho – Mas beleza e profundidade não é o mesmo que triunfalismo?
234. Monsenhor – A Missa de São Pio V encanta a todos pela sua beleza inigualável, proveniente da sua riqueza litúrgica, profundidade e elevação espiritual de suas orações, que foram compostas ou usadas por Santos de vários séculos, e pela nobreza e solenidade das suas vestes, rituais e cerimônias.
Não é triunfalismo, de forma alguma, a solenidade do culto com que a Igreja exprime a beleza de Deus, a alegria da fé, a vitória da verdade e da luz sobre o erro e as trevas. A riqueza litúrgica não é riqueza de uma casta sacerdotal; é riqueza de todos, também dos pobres, que, com efeito, a desejam e não se escandalizam absolutamente com ela. Toda a história da piedade popular mostra que mesmo os mais desprovidos sempre estiveram dispostos instintiva e espontaneamente a privar-se até mesmo do necessário, a fim de honrar, com a beleza, sem nenhuma avareza, ao seu Senhor e Deus.

235. Juninho – Como o silêncio pode ser importante numa ação que é pública?
236. Monsenhor – O silêncio na liturgia, que é uma das características da Missa na Forma Extraordinária, é como um caminho em comum em direção ao interior, como interiorização da palavra e dos sinais, como uma liberação dos papéis que escondem o verdadeiro, e é imprescindível para uma ‘participatio actuosa’ verdadeira (participação ativa, conforme o Vaticano II). A emoção litúrgica já não pode consistir na ‘variedade’, mas na consecução de um espaço para encontrar o verdadeiramente grande e inesgotável, o que não necessita de variação, porque satisfaz por si mesmo, quer dizer, a verdade e o amor. Só o valor para voltar a aprender a palavra em silêncio pode solucionar o problema, diante da presente inundação de palavras, que no final nos leva a uma verborréia, precisamente no momento em que há de encontrar com o Logos, a Palavra.

237. Juninho – Nossa, monsenhor, a Forma Extraordinária é tudo isso? Eu não sabia...
238. Monsenhor – Infelizmente muita gente não sabe...

239. Juninho – Monsenhor, o senhor não quer celebrar na Forma Extraordinária? Eu queria muito conhecer essa Forma do Rito Romano e... e se o senhor precisar, o senhor poderia me ensinar, aí eu poderia ajudar a Missa do Senhor...!!! 
240. Monsenhor – É claro, Juninho, eu mesmo não fazia ideia de que esse Catecismo serviria para mim também! Preocupei-me só em estudar o Summorum, mas não havia pensado em celebrar... Vou te ensinar, vou ensaiar, relembrar aquelas sagradas cerimônias e vou celebrar!
241. Juninho – Obrigado, monsenhor!!!

242. Monsenhor – Faço votos de que o Motu Proprio Summorum Pontificum possa ser um motivo de alegria para todos aqueles que amam a tradição, um motivo de alegria para todas aquelas paróquias que não terão mais divisões, mas terão – pelo contrário – uma multiplicidade de santidade com um rito que foi certamente o fator e o instrumento de santificação por mais de mil anos. Portanto, agradecemos o Santo Padre que recuperou para a Igreja esse tesouro. Nada é imposto aos outros. O papa não impõe a obrigação; o papa impõe, porém, que se ofereça essa possibilidade onde os fiéis quiserem. 
De fato, a Carta Apostólica Summorum Pontificum Motu fez mais acessível à Igreja universal a riqueza da Liturgia Romana. 







REFERÊNCIA
Nota explicativa sobre a Instrução Universae Ecclesiae (tradução nossa): http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_commissions/ecclsdei/documents/rc_com_ecclsdei_doc_20110513_nota-universae-ecclesiae_sp.html
Instrução sobre a aplicação da Carta Apostólica Motu Proprio Summorum Pontificum, Pontifícia Comissão Ecclesia Dei (30 de abril de 2011): http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_commissions/ecclsdei/documents/rc_com_ecclsdei_doc_20110430_istr-universae-ecclesiae_po.html
Carta Apostólica  de Sua Santidade Bento XVI dada sob forma de Motu Proprio Summorum pontificum (7 de Julho de 2007): http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/motu_proprio/documents/hf_ben-xvi_motu-proprio_20070707_summorum-pontificum.html
Carta que acompanha o Summorum Pontificum dirigida aos Bispos pelo Santo Padre Bento XVI (7 de Julho de 2007): http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070707_lettera-vescovi.html
Pontifícia Comissão "Ecclesia Dei" [história da Pontifícia Comissão]: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/ced_documents/rc_con_cfaith_20090930_ecclesia-dei_po.html
Nova et vetera, Entrevista com o Cardeal Darío Castrillón Hoyos de Gianni Cardinale. Revista 30 Dias: http://www.30giorni.it/articoli_id_14918_l6.htm
Rádio Vaticano entrevista o Cardeal Hoyos sobre o Motu Proprio ''Summorum Pontificum'': http://www.defesacatolica.org/noticia/radio-vaticano-entrevista-o-cardeal-hoyos-sobre-o-motu-proprio-summorum-pontificum

Considerações sobre as Formas do Rito Romano. Dom Fernando Arêas Rifan: http://formaextraordinaria.blogspot.com.br/2015/10/consideracoes-sobre-as-formas-do-rito.html

2 comentários:

  1. lo pudiera facilitar en español?
    y también si da autorización para difundir

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  2. Caro Eduardo, salve Maria!
    Sinta-se à vontade para difundir!
    Quanto ao espanhol, a única coisa que podemos fazer agora é colocar o texto online (mande traduzir a página!).

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