quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Origem e difusão da Liturgia Cristã


Por Blasius Lodovicus 

Culto cristão e culto judeu

     Após a instituição da Eucaristia e a Ascensão de Nosso Senhor, os Apóstolos, em memória do Senhor, continuaram a fazer tudo o que Ele havia feito na última Ceia.
Os primeiros cristãos, seguindo o exemplo de Cristo, participavam do culto no Templo e do serviço nas sinagogas. Com as perseguições e tensões com os judeus os cristãos foram cada vez mais se afastando do culto no Templo[1], embora o respeitassem e reconhecessem sua validade.

     As reuniões dos cristãos eram, geralmente, unidas a uma refeição fraterna[2]. Com a destruição do Templo no ano 70 os cristãos conheceram um fortalecimento da Liturgia e os Apóstolos em suas comunidades usaram elementos próprios do culto judaico, como: as orações, muito praticadas por Nosso Senhor; a leitura de partes do Antigo Testamento (a Lei, os salmos e os profetas); e a pregação da Sagrada Escritura[3].


    Essa cristianização de elementos judaicos seria uma pratica da Igreja de então e que permaneceria por muitos séculos. Ela demonstra uma movimentação própria das comunidades em torno do culto a Deus e a tomada de consciência a respeito da nova Liturgia instituída por Jesus. Sem o Templo dos judeus e fora da direção dos sacerdotes, os cristãos reúnem-se agora em torno do altar de Jesus, participando do Sacrifício que, primeiramente, foi chamado de Fractio Panis (Fração do Pão), denominando assim um Rito próprio do novo povo de Deus.
      
      Levando em conta o “roteiro” dos judeus, os cristãos se reuniam e o que presidia a assembleia proferia algumas orações que eram encerradas pelo “amém” dos fiéis. Depois eram lidas duas leituras (Antigo Testamento) separadas por um canto[4]. Em seguida, conforme o costume dos judeus e a prática do Senhor Jesus, acontecia a pregação que consistia na explicação das leituras. Esta estrutura é praticamente a mesma que mais tarde seria chamada de Ante-Missa ou Missa dos Catecúmenos.

Os tempos apostólicos

     Dos primeiros séculos cristãos temos na Sagrada Escritura exortações de São Paulo[5] que deixam claro que a Igreja apostólica cria verdadeiramente que as Espécies do Pão e do Vinho, pela palavra do Senhor, eram o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, no ano 56, São Paulo, após relembrar o rito instituído por Jesus[6], adverte os fiéis que se aproximam da Comunhão, dizendo: “Todo aquele que comer do pão e beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Portanto, cada um examine a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que comer e beber sem discernir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação.”[7]

     Também um documento antigo chamado de Doutrina dos doze Apóstolos (Didaquè) fala sobre a liturgia na era apostólica:
         "Reuni-vos no dia do Senhor para a Fração do Pão[8] e agradecei (celebrai a eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.

Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de se ter reconciliado, a fim de que vosso sacrifício não seja profanado. [...]
     
     No que concerne à Eucaristia, celebrai-a da seguinte maneira:
     
     Primeiro sobre o cálice, dizendo: Nós te bendizemos (agradecemos), nosso Pai, pela santa vinha de Davi, teu servo, que tu nos revelaste por Jesus, teu servo; a ti, a glória pelos séculos! Amém.
     
     Sobre o pão a ser quebrado: Nós te bendizemos (agradecemos), nosso Pai, pela vida e pelo conhecimento que nos revelaste por Jesus, teu servo; a ti, a glória pelos séculos! Amém.

     Da mesma maneira como este pão quebrado primeiro fora semeado sobre as colinas e depois recolhido para tornar-se um, assim das extremidades da terra seja unida a ti tua igreja (assembleia) em teu reino; pois tua é a glória e o poder pelos séculos! Amém.
Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor: Não deis as coisas santas aos cães!"[9]

     Depois dos mencionados doze anos os Apóstolos se espalharam, levando consigo o que era comum ao colégio apostólico, e, conforme os lugares e a necessidade, foram introduzindo novos ritos e orações. Com a morte dos doze Apóstolos e a sucessão apostólica vão surgindo, ou se desenvolvendo, liturgias para a Santa Missa, que, embora tivessem certas diferenças, conservavam semelhanças e o que era essencial. Essas liturgias surgiram tanto no oriente como no ocidente.[10]

Os primeiros séculos da Liturgia cristã

      O bispo e mártir Santo Inácio de Antioquia (+ 102), na sua Carta aos Efésios exortava os fiéis a serem freqüentes na celebração da Eucaristia. E o mártir São Justino (+ 165), nas suas Apologias, descreveu o rito comum em sua época para a Santa Missa, dizendo:
Terminadas as orações, damos mutuamente o osculo da paz. Apresenta-se, então, a quem preside aos irmãos pão e um vaso de vinho, e ele tomando-os dá louvores e gloria ao Pai do universo pelo nome de seu Filho e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças em razão dos dons que dele nos vêm. Quando o presidente termina as orações e a ação de graças, o povo presente aclama dizendo: Amém [...].

      Este alimento se chama entre nós Eucaristia, não sendo licito participar dele senão ao que crê ser verdadeiro o que foi ensinado por nós e já se tiver lavado no banho [batismo] da remissão dos pecados e da regeneração, professando o que Cristo nos ensinou.
Porque nos tomamos estas coisas como pão e bebida comuns, mas da mesma forma que Jesus Cristo, nosso Senhor, se fez carne e sangue por nossa salvação, assim também se nos ensinou que por virtude da oração do Verbo, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças – alimento que, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossas carnes – é a Carne e p Sangue daquele mesmo Jesus encarnado. E foi assim que os Apóstolos, nas Memórias por eles escritas, chamadas Evangelhos, nos transmitiram ter-lhe sido ordenado fazer, quanto Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: ‘Fazei isto em memória de mim’. [...]

        No dia que se chama do Sol [domingo] celebra-se a reunião[11] [...].
     Assim que o leitor terminar [de ler as memórias dos Apóstolos], o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos tais exemplos. [...] Segue-se a distribuição a cada um, dos alimentos consagrados pela ação de graças, e seu envio aos doentes, por meio dos diáconos. [12]

       Santo Hipólito de Roma (+ 234) nos dá um belo relato do Cânon do Rito Romano, por ocasião da sagração episcopal, que se principia pelas invocações:

"O Senhor esteja convosco.
Respondam todos: E com o teu espírito.
Corações ao alto!
Já os oferecemos ao Senhor.
Demos graças ao Senhor.
É digno e justo.

     E prossiga a seguir: Graças te damos, Deus, pelo teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos últimos tempos nos enviastes, Salvador Redentor, mensageiro da tua vontade..."[13]
Nestes testemunhos temos um retrato fiel do que será, e já era, o Rito Romano que chegou até nós. Foi dos Apóstolos que a Igreja recebeu a forma com a qual deveria rezar, o Rito com o qual deveria fazer o que Jesus fez na última Ceia. Seja como for, Cristo e os Apóstolos estão na origem do Rito da Santa Igreja Romana.

     Porém, dos primeiros séculos da era cristã não temos nenhum livro litúrgico, a não ser alguns textos registrados na Tradição Apostólica por Santo Hipólito de Roma (+ 235) durante o pontificado do Papa Calisto (217-222). É verdade que muitas orações e gestos eram feitos pelo que presidia como que de forma “espontânea”, mas obedecendo a tradição existente.

        É verdade incontestável que o principe dos Apóstolos, São Pedro teve sua Sé em Roma. Por isso, Santo Irineu (+ 202) afirmava: É com essa Igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade e fundação, que deve necessariamente concordar toda igreja, isto é, que devem concordar os fiéis procedentes de qualquer parte, ela, na qual sempre, em benefício dos que procedem de toda parte, se conservou a tradição que vem dos Apóstolos[14].
São João Crisóstomo dizia: “No interesse da paz e da fé não podemos discutir sobre questões relativas à fé sem o consentimento do Bispo de Roma”[15] e Santo Agostinho, afirmando a superioridade do Papa e de Roma, dizia: “Roma locuta, causa finita”[16].


     O Papa São Damaso (+ 384), conforme alguns, teria realizado a primeira reforma significante na Liturgia[17]. Porém, predominou no ocidente o Rito Romano, ou seja, o Rito usado na Igreja fundada por São Pedro em Roma. Ele foi sempre a Liturgia mais comum. A respeito disso o Papa Inocêncio I (+ 419) escreve:

     É manifesto que ninguém em toda a Itália, Gália, Espanha, África e ilhas adjacentes fundou igrejas, senão as que o Apóstolo Pedro ou seus sucessores estabeleceram como bispos. Daí se segue que estes têm de guardar o que guarda a Igreja Romana, da qual, sem dúvida, tiram sua origem.[18]

      O Rito da Igreja Romana conheceu várias etapas. Do ano 100 ao ano 400 era comum a improvisação[19], mas propriamente a inspiração, conforme os costumes provindos dos Apóstolos. Do ano 400 ao ano 700 surgem na Igreja os primeiros sacramentários, eles continham o cânon da Santa Missa e outras orações mutáveis do oficio[20]. Nesse período o Rito Romano já se encontra todo fixo, ou seja, as principais funções litúrgicas, textos e orações já se encontram solidificados. O primeiro dos sacramentários foi o leonino com 175 textos litúrgicos[21]. Depois veio o sacramentário gelasiano, por volta do século V, tendo por autor provavelmente o Papa Gelásio (+ 496)[22]. São Gregório Magno (+ 604) compôs o sacramentário que depois foi chamado gregoriano, no qual prescreveu uma única oração por dia, 10 prefácios e acrescentou alguns ofícios[23]. De São Gregório em diante os livros litúrgicos sofreram poucas modificações rituais significativas.

      Depois dessa “consolidação” do Rito Romano a Igreja decidiu, do ano 700 ao ano 1500, unificar o Rito em todo o mundo católico (lembrando que, paralelamente ao Rito Romano, outros Ritos litúrgicos foram se desenvolvendo em diversos lugares no mundo). Foi a época da generalização da Liturgia da Igreja Romana. Para tanto, São Gregório enviou Agostinho, monge beneditino, com 40 companheiros, em 597, para implantar o Rito Romano na Inglaterra. Depois enviou São Vilibrordo e outros missionários ingleses para a Frísia. Santo Ansgário foi enviado para a Dinamarca e para a Suécia, depois seguiu com São Bonifácio para a Alemanha e o país dos francos. Os monges beneditinos de Cluni propagaram o Rito Romano nos reinos da península ibérica.

     Nesses lugares o Rito recebido dos Apóstolos e guardado por Roma substituiu os Ritos galicano e moçárabe[24].





[1] Introdução à Liturgia, p. 192.
[2] São Paulo (I Cor 11,17-22) faz-nos crer nisto quando escreve repreendendo os cristãos por não serem fraternos, não manterem a caridade nas refeições. Diz ele: “Já que estou dando recomendações, não vos posso louvar por vossas reuniões, pois elas têm sido, não para o vosso maior bem, mas antes para o vosso dano. Primeiro, ouço dizer que, quando vos reunis como igreja, têm surgido dissensões entre vós. E, em parte, acredito. É necessário que haja até divisões entre vós, para que se tornem conhecidos os que, dentre vós, são comprovados! De fato, quando vos reunis, não é para comer a ceia do Senhor, pois cada um se apressa a comer a sua própria ceia e, enquanto um passa fome, outro se embriaga. Não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a igreja de Deus e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Acaso vos louvarei? Não, neste ponto não posso louvar-vos”.
[3] Introdução à Liturgia, p. 198.
[4] Introdução à Liturgia, p. 193.
[5] Cf. 1 Cor 10,14-17.
[6] Cf. 1 Cor 11,23-26. Este relato de São Paulo é o mais antigo testemunho sobre a Eucaristia, pois foi escrito dez anos antes dos Evangelhos.
[7] 1 Cor 11,27-30.
[8] Este é um dos primeiros nomes dado à Santa Missa. Hoje o usamos para designar um rito do Santo Sacrifício. Conferir quadro acima.
[9] Cf. versão em: Aquino, p. 79.
[10] Por exemplo: a liturgia de São Tiago.
[11] Outro nome para designar a Santa Missa.
[12] Apologias. Apud Aquino, Escola da Fé I: A Sagrada Tradição, p. 81-82.
[13] Aquino, p. 83.
[14] Apud Aquino, III “o Sagrado Magistério”, p. 46.
[15] Ibid, p. 45.
[16]Roma falou, encerrada a questão!”. Ibid, p. 46.
[17] Cf. Alberto Wagner, Introdução à Liturgia, p. 64.
[18] Eisenhorfer, p. 31-39; Gatterer. Ann. Lit. p. 31. Apud Reus, n. 58, p. 35.
[19] Cf. Reus, 62, p. 37. Não se deve entender esta improvisação como a entendemos em nosso tempo, mas como uma inspiração divina para digirir a Deus orações que seguem uma tradição de gestos e sentido.
[20] Cf. Reus, n. 63, p. 37.
[21] Ibid n. 63.1, p. 37.
[22] Ibid n. 63.2, p. 37.
[23] Ibid n. 63.3, p. 37-38.
[24] Cf. Reus, n. 64, p. 38.

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