sábado, 3 de outubro de 2015

Sobre a orientação (posição) do Sacerdote na Santa Missa


 POR QUE O PADRE CELEBRA DE COSTAS PARA O POVO?
Será que o povo é tão importante assim no Santo Sacrifício a tal ponto de se tornar a referência? Não foi justamente o povo que saiu e deixou Jesus agonizante na Cruz? Não é muito diferente hoje. Numa mentalidade errada Jesus “diminui” para que o povo “apareça”!
Se é verdade que o padre celebra “de costas” para o povo mil vezes mais verdade é que ele celebra de frente para Deus!
Sobre a orientação (posição) do sacerdote na Santa Missa vale lembrar que “não é uma questão de presidir a celebração com as costas voltadas para o povo, como muitas vezes é alegado, mas mais propriamente de guiar o povo na peregrinação rumo ao Reino, convocado para a oração até o retorno do Senhor”.[2]
Até as reformas propostas pelo Vaticano II praticamente só na Basílica de São Pedro rezava-se a Missa voltado para o ocidente, e isso porque a sua construção foi diferente das outras igrejas católicas. Em todas as outras igrejas o padre rezava, desde o principio da Igreja, voltado para o oriente (assim como ainda é costume entre os judeus). Na Basílica de São Pedro se o padre queria celebrar voltado para o oriente tinha que ficar de frente para o povo. Entretanto, em certos momentos o próprio povo virava as costas para o padre para poder ficar de frente para o Oriente. Daí surgiu, com alguns modernistas, o costume do padre, mesmo em outras igrejas rezar de frente para o povo.
Nunca foi costume na Igreja, nem mesmo com os Apóstolos, de se rezar a Missa de frente para o povo. Isso se pode provar pela tradição judaica de o anfitrião, pai de família ou a pessoa mais importante presente, numa refeição (como na ceia) ficar do mesmo lado da mesa que os outros participantes. Assim o fez Nosso Senhor que celebrou a última páscoa, instituindo a Santa Missa, rezando do mesmo lado da mesa que os Apóstolos.
Por isso, mesmo na Basílica de São Pedro quando o sacerdote ia rezar de frente para o oriente não só ele ficava de frente para lá, mas também todos os fiéis presentes, ou seja, os fiéis ficavam de costas para o celebrante!
Não podemos simplesmente dizer que o “de frente para Deus” é coisa do passado, pois mesmo hoje a Igreja nunca mudou ou proibiu a posição do sacerdote. Em todo caso, Deus é sempre o centro!

DONDE VEM ESSA ORIENTAÇÃO REFERENTE À SANTA MISSA?
Na verdade, esta orientação do sacerdote na Santa Missa parece o comprimento da profecia de Ezequiel que diz: “Depois me introduziu no pátio interno do templo do Senhor. Ali, à entrada da nave do templo do Senhor, entre o vestíbulo e o altar, estavam uns vinte e cinco homens, de costas para a nave do templo do Senhor e as faces voltadas para o oriente. Eles se prostravam em direção ao oriente, diante do sol.”[3]
Desde a época do exílio babilônico os judeus adotaram certa maneira de rezar voltados para o oriente, o que foi fixado de uma vez por todas em Jerusalém, sobretudo na colina do Templo. “A oração judaica tinha Jerusalém como direção, qualquer que fosse o lugar geográfico onde se encontrassem os filhos de Israel.”[4]
Assim, encontramos no livro do profeta Daniel: “Daniel entrou em sua casa, a qual tinha no quarto de cima janelas que davam para o lado de Jerusalém. Três vezes ao dia, ajoelhado, como antes, continuou a orar e a louvar a Deus” (Dn 6,11). E no livro dos Reis ouvimos de Salomão: “Quando o vosso povo partir para a guerra contra os seus inimigos, seguindo o caminho que lhe indicardes, se vos invocarem com o rosto voltado para a cidade que escolhestes, para o templo que edifiquei ao vosso nome, ouvi do alto dos céus as suas preces e súplicas, e fazei-lhes justiça” (1Rs 8,44-45). E ainda: “Se orarem a vós com o rosto voltado para a terra que destes a seus pais, para esta cidade que escolhestes, para este templo que construí ao vosso nome, ouvi, do alto dos céus, do alto de vossa morada, as suas preces e súplicas, e fazei-lhes justiça. Perdoai ao vosso povo os seus pecados e as ofensas que cometeu contra vós” (1Rs 8,48-50a).[5]
Quando a Igreja de Cristo surgiu os convertidos judeus que rezavam voltados para o oriente (ou para o Templo) continuaram a prática, porém com novo significado.
O oriente evocava a Ascensão de Jesus. Os olhos fixos no céu, ali onde Cristo os abandonou, os Apóstolos ouviram de dois mensageiros celestes que Ele voltaria “do mesmo modo” (At 1,9-11). Esta relação entre a partida de Cristo e seu retorno a expressaram os escultores da fachada de Chartres, na qual a Ascensão e o Cristo da visão de Ezequiel foram dois temas complementares, um ao norte e outro ao centro, enquanto ao sul se relata a história da primeira vinda de Jesus, de uma maneira muito mais teológica que episódica.
Em suma, o que os novos cristãos esperavam, antes de tudo, do oriente era o retorno em glória e majestade de Cristo vencedor e soberano juiz. Foram preparados para isso pela interpretação de alguns textos do Antigo Testamento, e sobretudo pelo ensinamento do próprio Jesus. O capítulo 24 de São Mateus justificava sua vigilante espera. Especialmente no versículo 27 se encontra a comparação com o relâmpago que sai do oriente.[6]

Assim a posição do sacerdote no Santo Sacrifício da Missa vem desde os tempos apostólicos numa tradição ininterrupta.

HÁ TESTEMUNHOS CRISTÃOS A RESPEITO DA ORIENTAÇÃO?
Sim, há testemunhos! Dentre eles podemos citar:
“No séc. II, São Justino (†185 aproximadamente) é sensível à comparação entre Cristo e o oriente. Comentando o capítulo 21 dos Números, versículo 8, vê na serpente de bronze levantada por Moisés o símbolo da cruz do Salvador.
Santo Irineu (†202): ‘É ele que ilumina as alturas, ou seja, os céus. É ele que adorna a larga extensão do oriente ao ocidente’.”[7]
“Lê-se em Clemente de Alexandria (†215 aproximadamente):
‘O oriente é a imagem do dia que nasce. É deste lado também que cresce a luz, a qual em primeiro lugar faz desaparecer as trevas onde se detém a ignorância e de onde se separou o dia do conhecimento da verdade da mesma maneira como se eleva o sol. Por isto, é normal que se dirijam as orações rumo ao nascimento da manhã’.”[8]
“Tertuliano (†240 aproximadamente) – constata e aprova o uso observado pelos cristãos de se voltarem para o oriente para rezar. Volta-se para isso em várias ocasiões: Ad orientis regionem conversi, Deum precabantu... Ad orientis partem facere nos precationem.”[9]
“São Cipriano (†258) se expressa assim: Cristo é o verdadeiro sol e a verdadeira luz. Quando, ao declinar o dia, pedimos que a luz brilhe de novo sobre nós, imploramos a vinda de Cristo que nos dará a graça da eterna claridade. Ora, que Cristo seja designado como o dia é o que nos ensina o Espírito Santo nos salmos... É ele o dia que o Senhor fez; marchemos e alegremo-nos com sua luz... Cristo é igualmente designado como o sol, segundo nos atesta Malaquias.”[10]
“Um dos textos mais importantes é o de Orígenes (†255 aproximadamente) em seu Libellus de oratione: ‘E agora, a respeito da parte do mundo para a qual se deve dirigir para rezar, serei breve. Sendo quatro essas partes: o norte, o sul, o poente e o nascente, quem pois negará que se deve indicar bem claramente o nascente, e que devemos rezar voltando-nos simbolicamente para esse lado, olhando com a alma de certo modo a saída da verdadeira luz? Se estando as portas da casa situadas não importa para que parte, alguém prefere por causa disso rezar para o lado de onde se abre a morada e sustém que a vista direta do céu o atrai mais que um muro que o esconde, no caso em que a entrada da dita casa não esteja para o oriente, é necessário responder-lhe que pela vontade dos homens os edifícios se abrem para tal ou tal parte do mundo, enquanto que é pela própria natureza que o oriente supera as outras regiões do céu. Ora, o que está na ordem natural supera o que provém de um arranjo arbitrário’.”[11]
“Lactâncio (250 ~ depois de 317) explica porque convém orar para o oriente: ‘Desta terra, [Deus] constituiu duas partes contrárias e opostas uma à outra, a saber, oriente e ocidente. O oriente está iluminado por Deus, Ele mesmo fonte da luz, iluminador de todas as coisas. Ele nos faz entrever a vida eterna. O ocidente, pelo contrário, se atribui ao espírito turvo e vicioso, porque esconde a luz, porque traz sempre as trevas e faz que os homens sucumbam ao pecado. A luz vem do oriente e a vida tem seu princípio na luz. As trevas estão no ocidente, e nas trevas estão a morte e a destruição’.”[12]
São Jerônimo (347~419), no livro segundo de seu comentário sobre Habacuc, “compara Cristo com o Sol de justiça que ilumina a Igreja. Comentando Zacarias, escreve: ‘O Senhor não se adiantará ao declinar o dia, na proximidade das sombras da tarde, como o fez, lemos, com Adão (cf. Gn 3,8). E quando se detiver, não será nos vales e nas depressões, mas sobre a montanha... E esta montanha está junto a Jerusalém, do lado do oriente, de onde vem o Sol de Justiça’.
Mais incisiva e precisa é esta passagem de seu comentário sobre Amós (livro III), na qual recorda primeiramente os versículos 33 e 34 do Sl 68: ‘Cantai os louvores de Deus, fazei ressoar cânticos à glória do Senhor que subiu sobre todos os céus para o oriente’.
E logo escreve: ‘Daqui vem que, em nossos mistérios, renunciemos primeiramente aquele que está no ocidente e que morre em nós com os pecados, e, voltando-nos para o oriente, nos aliemos ao Sol de justiça e prometamos servi-lo a partir de então’.”[13]
E São Cirilo de Jerusalém (313~386) disse: “Quando renuncias a satanás, abolindo todo pacto com ele (cf. Is 28,15) e todas as velhas alianças com o inferno, então se abre para ti o paraíso de Deus, que Ele plantou ao oriente (Gn 2,8), do qual, depois de ter violado o mandamento de Deus, foi expulso nosso primeiro pai. E em razão desse símbolo te voltaste do poente para o oriente, que é a região da luz. E então é quando deves dizer: Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo, e em um batismo de penitência’”.[14]

MAS COMO REZAR NAS IGREJAS ONDE É IMPOSSÍVEL OU DIFÍCIL VOLTAR-SE PARA O ORIENTE?
Nas igrejas onde é impossível rezar a Santa Missa, ou pelo menos difícil de o fazer voltado para o oriente, o sacerdote pode perfeitamente rezar de frente para o altar, no qual pode estar presente o sacrário com o Santíssimo Sacramento.
A posição do templo para o oriente não é apenas uma questão de posição somente, mas de um gesto, um sinal muito expressivo e venerável pela tradição que o acompanha desde o início da Igreja Católica. Como vimos acima, a orientação da Igreja de Deus é uma espera do Cristo Ressuscitado que foi ao Céu e que retornará. Ao rezar voltados para o oriente não se está colocando em evidência o Oriente em si, mas Deus, Jesus Cristo, que atuou na historia, vindo a nós do oriente. Por isso, como já é costume da Igreja, este oriente geográfico pode ser representado por um “oriente espiritual”, ou seja, aquilo que nos representa Jesus Cristo oriente pode ser substituído por objetos sagrados (o altar e “a parede”, o retábulo) que nos remetem à realidade de Deus, ou ainda pode-se rezar diretamente voltado para Deus no sacrário.
          Por isso, mesmo dizemos que no Rito Romano na sua Forma Extraordinária o sacerdote reza voltado para Deus[15], pois seja por Ele mesmo (Jesus no sacrário) seja pelo que O representa, é Deus que orienta o posicionamento de seu sacerdote!



[1] Ou seja, a posição, direção, do sacerdote.
[2] Instrução para a aplicação das prescrições litúrgicas do Código de Cânones das Igrejas Orientais, n. 107.
[3] Ezequiel 8,16 apud Jean Fournée, cap. 2, p. 9.
[4] Jean Fournée, cap. 2, p. 9.
[5] Cf. Jean Fournée, cap. 2, p. 9.
[6] Jean Fournée, cap. 2, p. 11.
[7] Jean Fournée, cap. 2, p. 12.
[8] Ibid, p. 13.
[9] Idem.
[10] Idem.
[11] Idem.
[12] Jean Fournée, cap. 2, p. 13-14.
[13] Ibid, p. 14.
[14] Idem.
[15] Isso não significa afirmar que a Missa Versus populum não é “de frente para Deus” no sentido de excluí-lO. Aqui nos referimos à posição aos objetos que representam a Deus.

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