segunda-feira, 23 de novembro de 2015

E os abusos litúrgicos, o que pensar?


Por Blasius Ludovicus
 Há muitos anos vi uma campanha na internet que dizia: “Diga o preto, faça o vermelho!”. A campanha era a favor de uma “Missa do missal” (?)... Parece confuso e, de fato, o é. Embora pareça redundância, uma Missa do missal é extremamente necessária hoje. Aqui estamos diante de um grande problema, talvez o maior do qual procedem os demais, na celebração da Liturgia católica.
Dizer o “preto” e fazer o “vermelho” significa simplesmente cumprir ou executar o que, de fato, e só aquilo o que está no missal. O fato é que, aquilo que é tão simples e obvio, é ao mesmo tempo tão raro e estranho à geração presente.
Como já bem dizia o então Cardeal Ratzinger, existe mais diferenças entre dois padres que celebram a Missa de Paulo VI do que entre dois padres que celebram respectivamente a Missa acordo com o missal de São João XXIII e de Paulo VI. Por que? Porque os dois missais, embora tenham as suas diferenças, são uma expressão de um mesmo Rito Romano. Já os dois padres que não executam o “vermelho” do missal, não são expressão do grande Rito Romano, mas de uma visão particularista, sentimental e ideológica, tanto do padre que a “preside” quanto da comunidade que a “celebra”.
Dos fiéis que não aderem a essas “liturgias” estranhas à Igreja, é fácil assumir uma das duas posições seguintes: ou suportar calado, ou criticar simplesmente. Entretanto, penso que a questão seja muito mais profunda e, portanto, seria necessário buscar as causas para conhecer melhor as consequências e apontar soluções.

As causas dos abusos litúrgicos
Independentemente do Rito, como explicar que um padre suba ao altar e celebre bem, com piedade e devoção, sem afetação, quando outro celebra sem às pressas, cortando ou incluindo ritos, sem nenhuma atenção às rubricas? Parece-me que poderia apontar as seguinte causas:
Uma ideia errada de Liturgia
Uma primeira causa dessa defasagem litúrgica é uma concepção errada do que é a Liturgia, seja porque já em sua capela ou comunidade as celebrações eram “inculturadas”, “dinamizadas”, “criativas” e “participativas” (claro, tudo no sentido negativo da palavra), seja porque recebeu todas essas coisas como naturais e, portanto, corretas.
Conheço uma paróquia onde há uma intensa busca por fazer que a Liturgia seja participada pelos fiéis. É um ótimo pensamento, mas deve-se ter muita atenção ao modo ou forma de participação. Por exemplo, nessa mesma paróquia tem-se a ideia de que participar é tomar parte mesmo na ação sagrada ou fazer ou sentir alguma coisa na Liturgia. Por isso, para ressaltar a comunhão entre os fiéis, chegou-se mesmo a distribuir logo após a Comunhão uma tacinha de vinho e um salgadinho... (sim, um salgadinho desses servidos em coquetel ou festinhas!). Num desses dias em que vieram me dá o vinho e o salgado, eu disse: “não obrigado!”. Então me disseram que eu era um “mau educado”, um “tradicionalista”, “tridentino” etc...
Provavelmente pessoas com essa mentalidade não são assim por maldade, porque querem cometer sacrilégio ou algo parecido. Estamos diante de uma má formação da ideia sobre o que seja mesmo a Liturgia. E essa má formação para chegar às paróquias começou muito antes... lá no seminário...

Formação deficiente dos sacerdotes
Infelizmente assistimos a um aumento vergonhoso do carreirismo, ou seja, tendo vocação ao não (que é o mais comum), o rapaz vê no sacerdócio um meio de vida, um modo de auto realização... uma oportunidade de vida. É como se dissesse: para cavar não tenho forças, para pedir tenho vergonha: o jeito é ser padre mesmo! O grande problema aqui é que assim ele se torna mais aluno do que seminarista, e o seminário será para ele mais republica do que casa de formação. Deste modo o padre acaba sendo mais intelectual do que homem de oração, ou o que é pior, torna-se o homem do “povão”, da Missa que “emociona”, que “mexe” com as pessoas, etc.
Quantos anos tem a Instrução Redemptionis Sacramentum? Será que nos seus sete ano de seminário nunca ouviu falar sobre este documento? É triste perceber que em muitos seminários (e conheço vários) a Liturgia é algo secundário, objeto manipulação e meio de expressão pessoal e não da Igreja. É o frade que celebra só com a estola sobre o hábito, ou o padre que celebra só de estola, sem túnica ou alva... Agora me lembro de um encontro vocacional que participei e lá o “promotor vocacional” concelebrou só com a estola afro sobre sua camisa de malha... conheço um seminarista que logo na primeira semana de seminário foi chamado atenção pelo reitor porque na hora da comunhão a Hóstia consagrada e comungou sem ir molhar (intingir) por si mesmo no Sangue que estava sobre o altar, como todos faziam...
Não digo que o defeito esteja na parte intelectual em si, mas na parte doutrinal e litúrgica. Em certo seminário alguns seminaristas se viram complicados porque se recusaram a “comungar” tapioca (beiju ou biju, dependendo do lugar) que teria sido consagrada numa Missa na quadra do seminário.
Esse defeito, essa deficiência na formação se refletirá no modo de ser padre. A pessoa precisa ser muito equilibrada, do contrário cairá nos extremos:  ou será um padre ruim porque repete todas essas maluquices em seu ministério, ou será um padre ruim porque é extremamente rígido, mesmo nas coisas em que pode fazer de um modo melhor de acordo com a realidade dos fiéis.

A criatividade litúrgica
Primeira coisa a deixar claro é que a criatividade não é nada litúrgica. Aqui identificamos dois sujeitos: as comunidades de fiéis ou alguns fiéis em particular que se colocam à frente das “equipes de liturgia”, e os próprios padres.
Não raro encontramos a digníssima equipe de “liturgia” agindo como verdadeira moderadora ou liturga, dotada de poderes para tirar, omitir ou acrescentar algo nas sagradas cerimônias, isso quando não criam totalmente suas próprias liturgias, liturgias que tem sua “cara”, que reflete sua “realidade”. E assim, a cada celebração sentem a necessidade (diabólica) de “dinamizar” para tornar a Liturgia “participativa”, seja com uma monumental entrada da Palavra um quibane, num coco, num carro alegórico ou descendo da cúpula da igreja; ou ainda fazendo uma coreografia ou encenação do Evangelho; ou, o que é pior, a realização de Missas temáticas: missa do vaqueiro, missa da consciência negra, missa gaucha, missa sertaneja, etc. sem falar da “missa-show”, cada vez mais comuns nos grandes centros.
Em meio a tudo isso, encontramos padres que pensam que sua missão é atender e seguir essas “liturgias”, isso quando não são eles mesmos os seus instigadores. E os que vêem no sacerdócio um meio de vida acham aqui uma mina de ouro: platéia garantida, audiência, “banda”, “palco”, etc. Quanto mais “próximo” do povão melhor, não importa se a Liturgia, o culto de Deus, fica prejudicado...

As consequências
A cada dia assistimos tristes as consequências dessas ideias erradas sobre a Liturgia, o resultado da formação deficiente dos padres e da criatividade “litúrgica”.
Concebida como uma ação do humana, “feita” pela comunidade e “para” ela, a Liturgia torna-se teatro, coreografia, aula de psicologia ou autoajuda, manifestação de classes, festa ou simples reunião. A sagrada Liturgia é por natureza simples, embora sintamos sempre a necessidade de enobrecê-la cada vez mais. Entretanto, o que vemos hoje é um simplicismo degradante nos quais as sagradas cerimônias ficam descaracterizadas.
Assim, no lugar do crucifixo encontramos uma imagem do ressuscitado; no lugar dos seis castiçais, quando muito dois, ou nenhum, ou uma jarra com vinho e uma bandeja com pão; no lugar as toalhas do altar, um pano colorido ou de cor não identificável; no lugar do altar, uma simples mesa de cozinha, uma prancha, uma pedra, uma tábua, o chão...; no lugar dos vasos sagrados, uma taça, um copo, uma bandeja, um potinho de sobremesa; no lugar das sagradas espécies (hóstia e vinho), um beiju, pão francês, um churrasco...; no lugar do sagrado canto gragoriano, um forró, funk, axé, reggae, MPB ou música protestante; no lugar do piedoso véu das mulheres, os penteados (ou não!) mais extravagantes e ridículos, acompanhados dos acessórios mais inusitados e desnecessários para a Santa Missa; no lugar dos rosários, o celular em cliques frenéticos; no lugar do silêncio, os cochichos, os fuxicos, os risos, as conversas e gargalhadas que dão a impressão de se estar num mercadão; no lugar da modéstia e regato, as roupas inadequadas e indecentes, os modos indecorosos, as palmas e aclamações redundantes e desnecessárias e estranhas à Liturgia; no lugar do templo sagrado, os lugares mais impróprios e inusitados; no lugar dos paramentos e vestes sagradas, um despojamento ridículo e uma aversão diabólica.
Tudo isso demonstra a perca gradativa do sentido do sagrado justamente onde se deveria viver a ação mais santa e sublime de nossa santa Religião e do culto a Deus nosso Senhor. A celebração e o culto de Deus se converte na celebração e culto do homem...
A beleza da Liturgia, que outrora foi capaz impactar e converter os corações mais duros e alheios à fé, uma vez expulsa de nossas celebrações, deixa um buraco que o espírito modernista preenche com as mais diversas arbitrariedades, para não dizer aberrações. Deste modo, demasiado humano, as celebrações já não são capazes de converter à fé ortodoxa da Igreja nem a representa, estando reduzida a sentimentos personalistas.

Solução para os abusos
Agora, já tendo visto um pouco das causas e suas consequências, podemos apontar algumas soluções para os abusos litúrgicos.
1.   Uma primeira solução, embora pareça muito evidente é a mais importante: Estudar! Estudar o Catecismo da Igreja Católica, o Código de Direito Canônico, o Cerimonial dos Bispos, a Instrução Geral do Missal Romano, a Instrução Redemptionis Sacramentum... Estudar bons manuais de Liturgia, assistir cerimônias realizadas pelo Santo Padre, ler a vida dos Santos, consultar autores bons, como Cardeal Ratzinger. Isso tanto no seminário como, principalmente, depois dele.
2.  Desde o seminário, cultivar o espírito de oração: Missa diária, terço todos os dias, e rezar o breviário. Ser fiel à sua vida de oração.
3.  Outro modo importantíssimo é fazer o “vermelho”, sim cumprir as rubricas da sagrada Liturgia, observa as prescrições dos livros litúrgicos. Não inventar, mas executar, pois, como diz o Papa Bento XVI, a Liturgia não se constitui de simpáticas novidades, mas de repetições solenes.
4.  Não ser “Maria vai com as outras”. Não ter medo de ser piedoso, de demonstrar devoção, de rezar. Procurar fazer as coisas do modo correto.
5.  Os fiéis não podem se conformar com uma “liturgia” deformada, devem (com a devida reverência) denunciar os abusos à legítimas autoridades. Devem cobrar dos seus sacerdotes cerimônias solenes, procurando dar mais assistência à sua preparação. Se for o caso, no lugar de um presente, dêem ao seu pároco livros bons, batina, casula bonita, alva digna; juntem-se nos seus grupos e procurem embelezar a casa de Deus dando de presente (ou pelo menos cobrando do padre) objetos bonitos, de bom gosto (crucifixo, castiçais, imagens, etc.). Assim o padre perceberá o gosto dos fiéis e procurará agir assim também.
6.  Os padres devem procurar corrigir sua deficiência em matéria de Liturgia. Completar sua formação doutrinal e litúrgica. Não ter medo de sofrer discriminação, não ceder à pressão do clero, ter a ousadia de ser correto. Investir em livros bons, em paramentos dignos, em celebrações solenes, em formações para os seus fiéis. Não ter medo de se identificar como padre por meio do hábito eclesiástico. Tomar consciência de que é padre 24 horas por dia, todos os dias de sua vida.
7.  O que fará muita diferença será organizar um bom coral, não só que cante bem, mas que seja capaz de executar hinos mais novos (litúrgicos), hinos mais tradicionais e peças gregorianas. Abolir os instrumentos que não são permitidos. Adotar o órgão, valorizar o latim, organizar (onde existir) os ministérios leigos de tal modo que façam somente o que lhes compete. Selecionar com muito cuidado as músicas que se cantam nas igrejas.
8.  Dá uma atenção especial para as procissões e festa do Padroeiro, procurando preparar tudo de modo sóbrio, mas ao mesmo tempo solene. Pregar sobre a modéstia, as obras de misericórdia, os novíssimos, s vida dos Santos, a vida cristã, etc.
9.  Organizar o grupo dos coroinhas, dando preferência a meninos, colocando as meninas em outros grupos mais apropriados. Quando é o próprio padre que se encarrega dos coroinhas (e o padre é bom sacerdote), normalmente temos muitos coroinhas, são bons meninos, solenizam a Liturgia, e muitos se tornam sacerdotes também.
10. Acompanhar os grupos de fiéis, especialmente de adolescentes e os jovens. Dando orientação correta e católica.
11.    Outra coisa que poucos fazem, mas daria grande diferença, seria explicar para o povo tanto em geral como em seus grupos o significado das cerimônias da Liturgia.

Como podem ver, não temos uma solução técnica pronta para dar, é necessário que seja a devida atenção de acordo com o lugar, para saber qual o melhor remédio para os abusos. Não pensemos que seja necessário fazer grandes coisas. Por exemplo, conheço um rapaz que, quando coroinha em sua paróquia, se dedicava a toda semana, várias vezes, limpar o sacrário, que já era muito velho e sujo. E ele o flanelava tanto que o deixava brilhando de tal modo que quando alguém entrava na igreja logo tinha a atenção voltada para o sacrário que brilhava... Um padre, já com seus noventa anos, entrava todos os dias arrastando uma cadeira, se dirigia ao altar e celebrava todos os dias, com devoção, simplicidade, amor. Com coisas pequenas como essas, podemos dar à Liturgia seu devido valor e lugar.

Rezemos pelos nossos padres, para que sejam de fato um outro Cristo, ministro sagrado e dedicado ao culto de Deus e salvação das almas.

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