sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A Batina


Por Robert Lesage, Mestre de Cerimônias de Paris


Não pensamos que os apóstolos e seus imediatos sucessores tenham usado vestes especiais na vida privada ou para celebração do culto. Traziam, como o Mestre, a veste talar (descendo até o calcanhar ou talão), em uso na Palestina. Reconhece-se mesmo que, durante os cinco primeiros séculos de nossa era, não havia, entre o clero e os fiéis, nenhuma diferença no modo de trajar. Santo Agostinho vestia-se como toda gente. Santo Ambrósio dizia que não é pelas suas vestes que se reconhece o bispo, mas por sua caridade e por suas funções. Em seguida às invasões bárbaras, os leigos pouco a pouco abandonaram a tradicional veste romana e oriental, para adotar os trajes curtos dos invasores. Os membros do clero, porém, continuaram a usar a veste longa e ampla (tunica talaris) de que os fiéis estavam habituados a vê-los revestidos.
Essa veste não é outra coisa mais que a batina ou sotaina,cujo nome latino subtanea, roupa de baixo, indica que deve ser usada sob os paramentos sagrados. É muito mais próxima da túnica do que da toga romana.
“Embora o hábito não faça o monge, dirá o Concílio de Trento, é necessário que os clérigos sempre se vistam de acordo com a ordem que receberam, e que a honra e a pureza de seus costumes resplandeçam na decência exterior de suas vestes”.
Nos países latinos, ninguém se admira ao ver os ministros do culto revestidos de um modo particular. Apenas, em certos lugares, poder-se-á surpreender, partindo de pessoas grosseiras, a pergunta: Por que eles não se vestem como todo mundo? Mas como lhes explicar que os sacerdotes outrora “vestiam-se como todo mundo” e não mudaram seu modo de vestir? Antes, foram seus interlocutores ignorantes, de roupas curtas e pernas metidas numas calças, que seguram a moda dos bárbaros e não mais “se vestem como todo mundo”.
A batina é realmente uma veste eclesiástica e, se prevaleceu o costume de usá-la na vida corrente (na França, na Bélgica, Itália, Espanha etc.), nos países de maioria protestante, ao contrário, ela só é vista no interior das igrejas e outros lugares do culto. Fora daí, os sacerdotes católicos e os pastores das seitas reformadas usam indumentária civil, geralmente preta, com um colarinho especial, sem gravata. É a veste do clergyman
Em tempo de guerra, sem dúvida, os sacerdotes, oficiais ou soldados, e mesmo capelães militares, vêem-se por vezes na necessidade de celebrar a Santa Missa sem a batina. Esse caso será cada vez mais raro na França. Efetivamente, Sua Eminência, o cardeal Feltin, vigário geral do exército, prescreveu a todos os capelães e sacerdotes mobilizados que se munam de uma ligeira batina de “nylon”.
A batina é, pois, sinal de clericato. É revestida pela primeira vez no dia da tonsura, isto é, quando o bispo, cortando algumas mechas do cabelo do candidato, significa-lhe, por esse gesto, que doravante pertence ao clero*. Tonsura e batina são duas coisas correlativas, que não se podem separar. A batina não é, aliás, imposta pelo pontífice e, até estes últimos anos, não era benta. O novo Ritual Romano contém uma fórmula nova, destinada à benção facultativa da veste clerical. Todavia, por ser a batina um elemento constitutivo da veste eclesiástica, não se segue que não possa ser dada provisoriamente a outros. Os leigos empregados em nossas igrejas ou que substituem aos clérigos, devem mesmo, obrigatoriamente, levá-la durante o cumprimento de suas funções. Assim o fazem os sacristães, cantores, coroinhas etc.
A cor das batinas tem variado no correr dos tempos. Outrora não era proibido usar batinas vermelhas, roxas, brancas, verdes ou azuis. Durante muito tempo os cônegos de alguns capítulos – e até hoje na Itália – conservam esse privilégio. Na Igreja anglicana, as batinas de diversas cores não são raras. Só no século XIII foi proibido o uso de batinas vermelhas e verdes: primeiro pelo Concílio de Avinhão (1209), em seguida pelo de Latrão (1215) que deixou, entretanto, aos bispos o direito das batinas vermelhas, azuis e verdes. São Carlos Borromeu ordenou a seu clero que adotasse uma cor tendendo para o preto. Depois, vários concílios provinciais, a exemplo do de Milão, determinaram a cor preta para os sacerdotes e clérigos inferiores. Tratava-se apenas do clero secular, pois os monges conservaram as cores usadas na Idade Média, ao menos para o branco (cistercienses, dominicanos, premonstratenses etc.) e o pardo (carmelitas, dominicanos, capuchinhos etc.). Veremos que na legislação atual, o roxo é reservado aos bispos e o vermelho aos cardeais.


(Vestes e objetos litúrgicos, Flamboyant, 1959, p. 80-82)  

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