domingo, 14 de fevereiro de 2016

Principais Perguntas, Objeções e Questões sobre o Rito Tridentino


Hoje publicamos um texto que há muito chegou às nossas mãos. O autor preferiu não se identificar, mas permitiu a divulgação do seu trabalho, o que desde já agradecemos.
Como já diz o título, vamos nos deparar aqui com as mais diversas perguntas, “dificuldades” e situações que podem aparecer em torno da Forma Extraordinário do Rito Romano. E ao mesmo tempo vamos aprender como resolver essas aparentes complicações... O texto é muito bom, vale a pena conferir. Leia e passe aos seus amigos!


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Por um Anônimo

1) A Missa Tridentina foi proibida pelo Código de Direito Canônico. Hoje, só se reza a Missa do Novo Ordinário de Paulo VI.
Esta afirmação não procede. Não existe nenhuma menção proibitiva ao Rito Tridentino no Código de Direito Canônico.

2) A Missa Tridentina foi ab-rogada pelo Papa Paulo VI, ao promulgar o Novo Ordinário da Missa, em 1970. Logo, é proibido rezá-la hoje.
Esta afirmação também não procede. O Rito Tridentino não foi ab-rogado com a promulgação da Nova Missa. O Código de Direito Canônico diz que os costumes mais que centenários só são ab-rogados de forma explícita, ou seja, deve estar explicitamente indicada a sua ab-rogação. Isso não consta na “Institutio” do Missal de 1969. A promulgação de uma Nova Missa não é fator suficiente para ab-rogar a Missa Tridentina. Monsenhor Bugnini, presidente da Comissão que formulou o Novo Ordinário da Missa (1969), pediu para que se formulasse uma ab-rogação explícita do Rito Tridentino, mas sem sucesso.
Em 10 de junho de 1974, o Secretário de Estado rejeitou conceder a permissão pedida, fundamentalmente porque isso teria sido visto como “aversão injustificada à tradição litúrgica” (A. Bugnini, The ReformoftheLiturgy 1948-1975, Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, 1990, p. 300-301). (1)
Em 1986, o Papa João Paulo II criou uma comissão de nove cardeais, para tratar do Rito Antigo. Perguntou aos cardeais se o Papa Paulo VI tinha intenção de proibir a Missa Tridentina. Oito dos nove cardeais responderam que a Nova Missa não tinha ab-rogado a Antiga. Todos os nove cardeais unanimemente afirmaram que o papa Paulo VI nunca tinha concedido aos bispos a autoridade de proibir os sacerdotes de celebrar a Missa segundo o Missal de S. Pio V” (1).
O Rito Tridentino, portanto, não foi proibido, como nos diz o Cardeal DaríoCastrillónHoyos, presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei – quetrata dos assuntos relacionados com o Rito Antigo: "Tudo isto faz ver claramente que este Rito, por concessão do Santo Padre, tem pleno direito de cidadania na Igreja, sem que isto queira diminuir a validade do Rito aprovado por Paulo VI e atualmente em vigor na Igreja latina” (2)

3) Quem pede ou deseja a Missa Tridentina está contra o Concílio Vaticano II (1962-1965). Se o Concílio pediu uma Nova Missa, aqueles que querem a Missa do Rito Antigo estão contra o Concílio, e atentam contra a unidade da Igreja.
Em primeiro lugar, o Concílio não pediu uma Nova Missa, pediu a revisão dos textos do Rito Tridentino, para que se mudasse ou adaptasse aspectos acidentais, sem, necessariamente, se criar um novo rito: “A Santa Mãe Igreja deseja com empenho cuidar da reforma geral de sua Liturgia, a fim de que o povo cristão na Sagrada Liturgia consiga com mais segurança graças abundantes(Concílio Vaticano II § 552, SacrosanctumConcilium). As mudanças desejadas pelo Concílio não consistiam em criar um novo rito, mas em reformar o rito de então. Portanto, eram em aspectos acidentais que o Vaticano II desejou mudança: “Estas [as partes mutáveis da Liturgia], com o correr dos tempos, podem ou mesmo devem variar, se nelas se introduzir algo que não corresponda bem à natureza íntima da própria Liturgia, ou se estas partes se tornarem menos aptas” (idem). A formulação do Novo Rito aconteceu depois da conclusão dos trabalhos do Concílio. Muitos liturgistas acreditam que a Missa reformada em 1965, com a simplificação de algumas orações do Rito Tridentino, já atendiam às mudanças propostas pelo Concílio, e que uma Nova Missa ia além das propostas do Vaticano II. O próprio Papa Beato João XXIII, que convocou o Concílio, efetuou algumas reformas no Missal Tridentino, em 1962, e é justamente esta Missa que alguns fiéis solicitam.
Se o Concílio não pediu a formulação de um Novo Missal, como podem os fiéis ligados ao Rito Tridentino estarem contra o Concílio? O argumento não faz sentido neste aspecto.
O teólogo do Papa, Padre Nicola Bux, em seu excelente exame sobre as reformas da Missa, demonstra o contrário: o Concílio desejou não a proibição, mas a permanência do Rito Tridentino na Igreja. Citemos um trecho do trabalho do Padre:
Há um parágrafo na Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia que parece referir-se à questão do estatuto jurídico-canônico do Missal de S. Pio V (que chamaremos a partir de agora também “Missa antiga” ou “Rito antigo”). Antes de especificar os modos nos quais se deverá rever o rito da Missa, SacrosanctumConcilium estabelece no parágrafo 49:
Para que o Sacrifício da missa alcance plena eficácia pastoral, mesmo quanto ao seu rito, o sagrado Concílio, tendo em atenção as missas que se celebram com assistência do povo, sobretudo aos domingos e nas festas de preceito, determina o seguinte:
Essa passagem pressupõe que existam duas formas do rito da Missa, uma com a assistência dos fiéis, especialmente no Domingo e nas festas de preceito (cum populo), e uma sem a assistência dos fiéis (sine populo). Parece que era intenção do Concílio que as revisões, que são introduzidas no parágrafo seguinte de SacrosanctumConcilium, dissessem respeito somente ao rito da Missa cum populo. A Constituição sobre a Sagrada Liturgia obviamente imagina que a Missa antiga continua existindo como forma sacerdotal de celebração do sacrifício Eucarístico sine populo; isso significaria também que o sacerdote tem o direito de celebrar o Rito antigo como Missa privada. (1)
Como evidencia o Padre Nicola, as mudanças propostas pelo Concílio não anulavam a Missa Tridentina, mas permitia a continuação de sua celebração, ainda que houvesse um Novo Rito ou um Rito reformado. O próprio Bento XVI, na época em que era cardeal, comenta isso: “'A autoridade da Igreja tem o poder de definir e limitar o uso de tais ritos nas diferentes situações históricas, mas esta não pode jamais puramente e simplesmente proibi-los! Assim, o Concílio dispôs a reforma dos livros litúrgicos, mas não proibiu os livros precedentes.' (Notiziario 126-127 di UNA VOCE).” (1)
Não podemos cometer injustiça e dizer que, os fiéis que solicitam a Missa de Rito Antigo, são, necessariamente, cismáticos, que se opõe às normas atuais da Igreja. Novamente, o Cardeal Hoyos elucida sobre esta questão:
Eu não gosto, com efeito, das concepções que querem reduzir o « fenômeno » tradicionalista somente à celebração do Rito antigo, como se se tratasse de um apego nostálgico e obstinado ao passado. Isto não corresponde à realidade que se vive no interior deste vasto grupo de fiéis. Na realidade, nós estamos aí freqüentemente na presença de uma visão cristã da vida de fé e de devoção – partilhada por muitas famílias, freqüentemente ricas de numerosos filhos – que possui suas próprias particularidades; esta visão comporta por exemplo um forte sentido de pertença ao Corpo Místico, um desejo de manter com solidez os laços com o passado – que se quer considerar não em oposição ao presente, mas na continuidade da Igreja – para conservar os fortes pontos de ancoragem do cristianismo, um desejo profundo de espiritualidade e sacralidade, etc. O amor pelo Senhor e pela Igreja encontra assim, sua mais alta expressão na adesão às antigas formas litúrgicas e devocionais que acompanharam a Igreja ao longo de toda a sua história. (3)
Apesar de também existirem fiéis que não aceitam ser o Missal de Paulo VI lícito, e de rejeitarem as proposições do Concílio Vaticano II, não podemos negar o direito de todos os fiéis do Rito Latino de ter a Missa em Rito Antigo só por causa daqueles. E mesmo os ditos fiéis “tradicionalistas” também têm o seu espaço na Igreja. É o que diz o Cardeal Hoyos:
Na Igreja há uma tal variedade de dons postos à disposição das consciências e sensibilidades diferentes, com suas especificidades, que encontram seu lugar justamente nesta riqueza abundante da catolicidade. Não se pode recusar que no seio de uma tal variedade de dons e sensibilidades os ditos « tradicionalistas » estejam também presentes; e não se devem tratá-los como "fiéis de segunda categoria", mas é preciso proteger seu direito de poder exprimir a fé e a piedade segundo uma sensibilidade particular, que o Santo Padre reconhece como totalmente legítima (2)
O Cardeal Ratzinger, em 2001, também expressou a sua decepção em ver perseguições aos fiéis que pedem o Rito Antigo:
Para uma reta conscientização em matéria litúrgica é importante que não se sobressaia a atitude de suficiência para a forma litúrgica em vigor até 1970. Quem hoje defende a continuação desta liturgia [da Liturgia antiga], ou participa diretamente de celebrações dessa natureza, é colocado no índice; qualquer tolerância fica em segundo plano a propósito. Nunca aconteceu nada do gênero na história; deste modo, é todo o passado da Igreja a ser desprezado. Como se pode esperar no seu presente se as coisas estão assim? Para ser franco, tão pouco entendo porque tanta subjeção, por parte de muitos coirmãos bispos, em relação a essa intolerância, que parece ser um tributo obrigatório ao espírito dos tempos, e que parece contrastar, sem um motivo compreensível, o processo de necessária reconciliação no seio da Igreja. (1)

4) Já que a Missa Tridentina é permitida, ainda assim ele só pode ser celebrada mediante autorização do Bispo, pois ele é o mediador da Liturgia numa Diocese, e assim determinou o Papa João Paulo II no indulto “Quattuor abhinc annos”, de 1984.
É verdade que João Paulo II permitiu que os Bispos aceitassem a celebração da Missa Tridentina caso os fiéis o solicitassem, mas o próprio Papa sabia que tais medidas eram insuficientes por causa da Comissão cardinalícia de 1986, que pediu o alargamento do Indulto.
Neste contexto, deve-se notar que a Santa Sé reconhecia o direito do sacerdote de celebrar a Missa tradicional; isso provinha do fato de que cada vez que os sacerdotes eram injustamente suspensos por ter celebrado a Missa antiga contra a vontade de seus bispos, a Cúria Romana sempre anulava a medida toda vez que um apelo era dirigido a ela. Pertence ainda à atual jurisprudência da Igreja que, por meio de apelo, qualquer suspensão que um Ordinário tenta infligir a um sacerdote para a celebração da Missa antiga contra a vontade do bispo é automaticamente anulada (1)
Porém, além de o Indulto de João Paulo II ter se demonstrado insuficiente, e os Cardeais pedirem o seu alargamento, isso só veio acontecer efetivamente com a publicação do Motu ProprioSummorumPontificum, por Bento XVI, em 7 de julho de 2007. O Motu Proprio assim diz:
Art. 1. O Missal Romano promulgado por Paulo VI deve ser considerado como a expressão ordinária da lei da oração (lexorandi) da Igreja Católica de Rito Romano, enquanto que o Missal Romano promulgado por São Pio V e publicado novamente pelo Beato João XXIII como a expressão extraordinária da lei da oração ( lexorandi) e em razão de seu venerável e antigo uso goze da devida honra.
Art. 2. Em Missas celebradas sem o povo, qualquer sacerdote de Rito Latino, seja secular ou religioso, pode usar o Missal Romano publicado pelo Beato João XXIII em 1962 ou o Missal Romano promulgado pelo Sumo Pontífice Paulo VI em 1970, qualquer dia exceto no Sagrado Tríduo. Para a celebração segundo um ou outro Missal, um sacerdote não requer de nenhuma permissão, nem da Sé Apostólica nem de seu Ordinário. (4)
Como se lê no documento papal, ambas as formas da Missa são expressões do Rito Romano, e o sacerdote pode celebrar a Missa tanto numa quanto noutra forma, sem necessariamente precisar de uma autorização do Bispo.
Alguém poderia argumentar que a Missa Tridentina pode ser celebrada, mas sem assistência do povo, como consta no supracitado artigo 2 do documento. Essa questão se resolve no próprio documento: “Art. 4. Com a devida observância da lei, inclusive os fiéis Cristãos que espontaneamente o solicitem, podem ser admitidos à Santa Missa mencionada no art. 2.” (4).
Se o Papa deu aos padres o direito de celebrar a Missa Tridentina sem a prévia autorização do Bispo, isso não significa a diminuição do poder episcopal, como pensaram erroneamente alguns. Esclarece o Cardeal Hoyos a questão em sua entrevista à Revista 30 Dias:
O bispo é o moderador da liturgia em sua diocese. Mas a Sé Apostólica tem a competência de ordenar a liturgia sagrada da Igreja universal. E um bispo deve agir em harmonia com a Sé Apostólica e garantir os direitos de cada fiel, inclusive o direito de participar da missa de São Pio V, como forma extraordinária do rito. (2)
O Papa deu aos padres um direito, o que não nega, no entanto, a autoridade dos Bispos. Mas, caso haja alguma dificuldade, o Bispo pode intervir para dar a melhor solução, sem jamais proibir a celebração do Rito Tridentino, que é um direito claro dos fiéis: “Obviamente, se houver dificuldades, caberá ao bispo fazer que tudo transcorra num clima de respeito e, eu diria, de bom senso, em harmonia com o Pastor universal”. (2)

5) Se o Bispo não pode proibir que um Padre, seja secular ou religioso, celebre o Rito Tridentino, o pároco, no entanto, pode se opôr a esta celebração em sua paróquia.
Nem o pároco pode se opôr. Esta questão está no próprio documento papal: “Art. 5, § 1. Em paróquias onde um grupo de fiéis aderidos à prévia tradição litúrgica existe de maneira estável, que o pároco aceite seus pedidos para a celebração da Santa Missa de acordo ao rito do Missal Romano publicado em 1962.” (4)
O Cardeal CastrillónHoyos também deixa isso claro: “É claro que nenhum pároco será obrigado a celebrar a missa de São Pio V. Só que, se um grupo de fiéis, tendo um sacerdote disponível para fazê-lo, pedir que essa missa seja celebrada, o pároco ou o reitor da igreja não poderá se opor” (2)
E na sua entrevista à Rádio Vaticana, o Cardeal complementa: “já o Código [de Direito Canônico] diz quem deve dar a permissão para celebrar a missa não é o bispo: o bispo dá o celebrantet—a potestade de poder celebrar—mas quando um sacerdote tem essa potestade, são o pároco e o capelão que devem oferecer o altar para celebrar. Se alguém o impede, cabe à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei tomar medidas, em nome do Santo Padre, a fim de que esse direito – queé um direito claro dos fiéis – seja respeitado”. (5) O direito à Missa Tridentina é um direito dos fiéis, que não pode ser impedido nem mesmo pelo pároco. Este deve aceitar e acolher o pedido dos fiéis que desejam ter a Missa, e já possuem um padre disposto a celebrá-la. “O papa não impõe a obrigação; o papa impõe, porém, que se ofereça essa possibilidade onde os fiéis quiserem. No caso de um conflito, porque humanamente dois grupos podem entrar em contraste, a autoridade do bispo – como diz o Motu Proprio – deve intervir para evitá-lo, mas sem anular o direito que o papa deu a toda a Igreja” (5)

6) A Missa é autorizada, o Bispo e o pároco devem aceitá-la. Mas o documento do Papa Bento XVI diz que o Rito Tridentino é “extraordinário”, ou seja, só deve ser rezado de vez em quando, enquanto que o Novo Rito deve ser rezado sempre.
Os termos “ordinário” e “extraordinário”, que designam a Missa de Paulo VI e de Pio V, respectivamente, são de caráter jurídico, ou seja, não estão designando a frequência com que o Rito deve ser celebrado, mas a sua natureza dentro do Rito Romano. Assim diz o teólogo do Papa, Padre Nicola Bux: “Praticamente significa que se a Missa antiga perdeu a sua posição privilegiada, não obstante ela continua existindo e o fiel tem direito a esta” (1)
O próprio Cardeal Hoyos respondeu a esta pergunta numa coletiva de imprensa na Inglaterra:
No Motu Proprio, a ênfase do Papa é em um Rito e duas formas, e ele descreve o Rito Tridentino como “extraordi-nário”. Extraordinário portanto significa excepcional, algo que não celebramos todo domingo.
Cardeal Castrillon: Não “excepcional”. Extraordinário significa “não ordinário”, e não “excepcional”. (6)
Se o argumento fosse levado às suas últimas consequências, as paróquias deveriam excluir os Ministros da Comunhão, tendo em vista que eles são “Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística”.
Um Padre pode rezar tanto um Rito quanto o outro, sem restrição de frequência: “Art. 2. Em Missas celebradas sem o povo, qualquer sacerdote de Rito Latino, seja secular ou religioso, pode usar o Missal Romano publicado pelo Beato João XXIII em 1962 ou o Missal Romano promulgado pelo Sumo Pontífice Paulo VI em 1970, qualquer dia exceto no Sagrado Tríduo.” (4)

7) A Missa é a expressão da Fé da Igreja. É uma ação de toda a Igreja, e não só destinada a grupos. A Missa Tridentina tende a criar divisões nas paróquias.
Esta objeção foi respondida pelo Cardeal Hoyos:
Se as coisas forem feitas com bom senso, simplesmente, não se correrá esse risco. Além do mais, já há dioceses em que se celebram missas em vários ritos, uma vez que existem comunidades de fiéis latinos, greco-latinos ucranianos ou rutenos, maronitas, melquitas, siro-católicos, caldeus, etc. Penso, por exemplo, em algumas dioceses dos Estados Unidos, como Pittsburgh, que vivem essa legítima variedade litúrgica como uma riqueza, não como uma tragédia. E existem também paróquias que acolhem ritos diferentes do latino, entre outras as de comunidades ortodoxas ou pré-calcedonianas, sem que isso suscite escândalo (2)
No mundo todo existem paróquias aonde vários ritos coexistem. A existência das duas fomas do Rito Romano numa paróquia não quebra a unidade da Igreja e nem cria cisões. A experiência de tantos lugares demonstra que, quando tudo é feito com bom senso e justiça, não existem riscos. No Brasil, em diversas Dioceses já existe o Rito Tridentino, permanecendo também o Rito Novo. E em Campos dos Goytacazes, aonde existe a Administração Apostólica São João Maria Vianney, o Rito Tridentino é celebrado em muitas paróquias, em plena união com a Diocese.
Aquele que diz que “a Missa é para a comunidade”, ao passo que o Rito Tridentino é para “grupos”, não entendeu o estado da situação.
Assistir a Missa é um dever de todos os fiéis, e cada fiel pertence a um rito. Os fiéis do Rito Latino, no entanto, têm direito tanto ao Rito Ordinário (a Missa de Paulo VI) quanto ao Rito Extraordinário (S. Pio V), ao mesmo tempo em que os padres também têm direito de celebrar nas duas formas. Portanto, dizer que a celebração da Missa “é para todos, e não só para grupos”, só pode ser dito por alguém que não entendeu o problema proposto. O Rito Tridentino não foi liberado pelo Papa para um grupo reservado de fiéis, muito menos para cessar as reclamações dos fiéis tradicionalistas, como consta na entrevista do Cardeal Hoyos à Revista 30 Dias: “Hoje, o motu proprio se dirige a todos os fiéis ligados à missa de São Pio V, e não apenas aos de proveniência, por assim dizer, lefebvriana”. (2) A Missa Tridentina é para todos, tanto quanto a Missa de Paulo VI. A diferença é que, ainda que essa Missa seja direito de todos, os fiéis não são obrigados a assisti-la necessariamente, podendo assistir a Missa Nova também, para cumprir a obrigação dominical de assistir a Missa. Na prática, fiéis mais íntimos do Rito Antigo irão frequentá-lo, mas isso não significa exclusão dos demais fiéis.
A Missa é para todo o Rito Latino, e não só para grupos. Todos podem ter acesso a ela, como disse o Cardeal Hoyos, quando esteve no Brasil, por ocasião do CELAM: “O Santo Padre tem a intenção de estender a toda a Igreja latina a possibilidade de celebrar a Santa Missa e os Sacramentos segundo os livros litúrgicos promulgados pelo Beato João XXIII em 1962” (7)

8) Apesar de o Rito Tridentino ser autorizado, e de os padres poderem celebrá-lo e os fiéis poderem assisti-lo, não são todas as paróquias que comportam essa Missa. Somente em cidades grandes ou capitais ela é possível, ou em lugares aonde essa tradição se manteve viva. Em cidades menores, no interior, ou, de modo geral, em paróquias comuns, ele não é viável.
Como já disse várias vezes o Cardeal Hoyos, a Missa Tridentina é um direito de todos os fiéis de Rito Romano. Não está reservada a grupos, mesmo que somente uma parcela dos fiéis queira assisti-lo com frequência. Isso não anula o direito particular de cada fiel de ter essa forma do Rito Latino.
Não existe restrição de paróquia para a celebração do Rito Antigo. Em todas as paróquias é possível que ele exista, ou melhor, o desejo do Papa é que, futuramente, exista o Rito Antigo em todas as paróquias, conforme disse o Cardeal Castrillón, em entrevista na Inglaterra:
Então o Papa gostaria de ver muitas paróquias fornecendo o Rito Gregoriano?
Cardeal Castrillon:Não muitastodas as paróquias, pois isso é um dom de Deus. Ele oferece essas riquezas e é muito importante para as novas gerações conhecer o passado da Igreja. (6)
Se existem limitações humanas a essa Missa—indisponibilidade de espaço, falta de horários, desconhecimento do latim, falta de catequese dos fiéis neste Rito—, cabe aos Bispos e Padres providenciar recursos para que ela possa ser celebrada, e, deste modo, o direito dos fiéis seja observado.. Na coletiva de imprensa na Inglaterra, o Cardeal Hoyos respondeu a perguntas sobre o modo de se aplicar o Rito nas paróquias:
Anna Arco (The Catholic Herald): Nesse sentido, gostaria de ver todos os seminários da Inglaterra e Gales ensinando os seminaristas a celebrar na forma extraordinária?
Cardeal Castrillon: Eu gostaria e será necessário. Nós estamos escrevendo aos seminários, estamos de acordo que devemos fazer uma grande preparação não apenas para o Rito, mas para ensinar a teologia, a filosofia, a língua latina…
DT: Quais seriam os passos práticos para as paróquias ordinárias [para se preparar para o Rito Gregoriano]?
Cardeal Castrillon: Se o pároco reserva uma hora aos domingos para celebrar a Missa e preparar com catequese a comunidade para compreendê-lo, apreciar o poder do silêncio, o poder da sagrada forma de frente para Deus, a profunda teologia, para descobrir como e por que o padre representa Cristo e rezar com o padre. (6)
Também haviam especulações sobre o número mínimo de fiéis para que se atendesse o pedido de ter a Missa Tridentina nas Dioceses. D. DaríoCastrillónHoyos negou as suposições que saíram na Imprensa, dizendo que era necessário, no mínimo, 30 pessoas. Pelo contrário, a possibilidade da Missa se faz presente por muito menos:
DT: E quanto ao “grupo estável”?
Cardeal Castrillon: Isso é uma matéria de senso comum… Em todo palácio episcopal existem talvez três ou quatro pessoas. Isso é um grupo estável…. Não é possível dar a duas pessoas uma missa, mas duas aqui, duas ali, duas acolá – eles podem tê-la. Eles são um grupo estável.
DT: De paróquias diferentes?
Cardeal Castrillon: Sem problema! Esse é o nosso mundo. Gerentes de empresas não vivem no mesmo lugar, mas eles são um grupo estável. (6)
Quando a Fraternidade Sacerdotal São Pedrofundada pelo Cardeal Ratzinger na década de 90lançou um DVD explicativo da Missa Gregoriana, o Cardeal CastrillónHoyos foi convidado a fazer a introdução do vídeo. Sobre a extensão da Missa em toda a Igreja, assim ele disse:
(...) toda essa riqueza litúrgica, toda essa riqueza espiritual e todas as orações tão bem preservadas por séculos, tudo isso é oferecido para todos como um presente. Não é um presente para os assim chamados tradicionalistas, não, mas é um presente para toda a Igreja católica, e porque é um presente oferecido livremente que o Santo Padre fez, ele o fez para todos por meio da maravilhosa estrutura da Igreja, que são as paróquias, os sacerdotes e os capelães e as capelas onde a eucaristia é celebrada, e eles, pela vontade do Vigário de Cristo, devem aceitar as petições e requerimentos dos fiéis que querem essa Missa e a devem oferecer a eles, e mesmo que essa Missa não seja especificamente solicitada ou pedida, eles devem torná-la acessível para que todos tenham acesso a este tesouro da antiga liturgia da Igreja. Este é o principal objetivo do Motu Proprio, a riqueza espiritual e teológica.
O Santo Padre quer que essa forma da Missa se converta numa forma normal nas paróquias e que desse modo as comunidades jovens se familiarizem também com esse rito. (8)
As palavras de Sua Eminência são claras: a Missa é um direito de todos os fiéis, e os padres devem oferecê-la ainda que não seja solicitada, antes até que seja solicitada pelos fiéis. Muitos fiéis têm desejo de assistir o Rito Tridentino, mas não conhecem o atual estado canônico da Missa, não sabem e nem têm subsídios para organizar uma celebração desse tipo. Por isso, os padres, por vontade própria, devem oferecer essa Missa, que é desejada de forma velada por muitos fiéis, principalmente os idosos que já assistiram a este Rito.
Alguns padres pensam que, já que essa Missa não é do interesse de toda a paróquia, ela “não vale a pena”, é “perda de tempo”, “desnecessária”, “supérflua”, etc. Essa mentalidade não pode ser católica; afinal, a Missa é a renovação incruenta e mística do Sacrifício de Cristo no Calvário, por meio das espécies do pão e do vinho, pelas mãos do sacerdote. A Missa é uma ação de Cristo por meio do ministério sacerdotal, ao qual se unem todos os fiéis católicos. Portanto, a Missa não é uma ação do povo ou do padre, mas uma ação de Cristo, ao qual se une toda a Igreja. A Missa tem valor infinito, e nenhuma Missa é disperdício, nenhuma Missa é desnecessária. São Leonardo de Porto-Maurício, grande devoto da Santa Missa, já dizia que, se compreendêssemos o valor da Missa, jamais pensaríamos que “uma Missa apenas” é dispensável. Nenhuma Missa é dispensável. O padre que se recusa a celebrar a Missa, recusa a oferta perfeita de Cristo no Altar, recusa o próprio culto a Deus, o que é algo bastante escandaloso para um sacerdote, já que é essa a sua razão de ser. D. malcolmRanjith, ex-secretário da Congregação do Culto Divino já lamentava, em entrevista, de um preconceito velado de alguns sacerdotes em relação ao Rito Antigo.

9) A Missa Tridentina é rezada em latim; mas o latim foi abolido pela Igreja no Concílio Vaticano II.
Essa idéia é muito disseminada, mas completamente falsa. Só pode dizer isso quem não leu o Concílio Vaticano II, que assim diz: “Salvo o direito particular, seja conservado o uso da língua latina nos ritos latinos." (Concílio Vaticano II, SacrossanctumConcilium, nº 36). O Concílio não aboliu o latim, apenas deu espaço para que a Missa fosse rezada também em língua vernacular, isto é, a língua de cada nação. Falando em termos mais claros, o latim ainda é a regra, enquanto que o vernáculo é a exceção:
(...) visto que, quer na missa como na admistração dos sacramentos, quer em outras partes da liturgia, costumeiramente o uso da língua nacional pode tornar-se de grande utilidade para o povo, concede-se à língua nacional uma parte mais ampla, especialmente nas leituras e nos sermões, em alguma orações e cânticos, conforme as normas fixadas para os casos específicos nos capítulos seguintes.
Baseada nestas normas, cabe à competente autoridade eclesiástica territorial, (....) decidir sobre a omissão e a extensão da língua nacional. Tais decisões devem ser aprovadas, ou seja, confirmadas pela Sé Apostólica.
A tradução do texto latino na língua nacional a ser usada na liturgia deve ser aprovada pela competente autoridade eclesiástica acima aludida.(idem)
Como se vê, o Concílio quis um espaço mais amplo para o vernáculo, ao mesmo tempo em que diz “em algumas orações”. Ou seja: o latim permanece, o vernáculo tem alcance limitado, e o seu uso deve ser regulado pelo Bispo.
O latim é a língua da Igreja, faz parte de toda a tradição do Rito Romano e do Ocidente. Abolir o latim é cortar fora uma tradição milenar, é desenraizar todo o desenvolvimento da Liturgia ao longo dos tempos, é perder um patrimônio de orações, cantos, salmos, etc.
Quem convocou o Concílio Vaticano II foi o Papa Beato João XXIII. Este, por sua vez, se recusou de abolir o latim. Pelo contrário: escreveu a constituição VeterumSapientiae, para reafirmar o latim como língua da Igreja.
4.1 - (....) Não sem a disposição da Divina Providência, aconteceu que a língua (latina), que por muitos séculos unira tantos povos sob o Império Romano, se tornasse a própria língua da Sé Apostólica e, preservada para a posteridade, reuniu num estreito vínculo, uns com os outros, os povos cristãos da Europa
4.2 - De fato, pela sua própria natureza, a língua latina está apta a promover junto a qualquer povo toda a forma de cultura; pois que ela não suscita invejas, apresenta-se imparcial a todos os povos, não se constitui em privilégio de ninguém, em fim é totalmente aceita e amiga.
4.3 -Não podemos esquecer que a lígua latina tem nobreza de estrutura lexica, visto que oferece a possibilidade de « um estilo conciso, rico, armonioso, cheio de magestade e de dignidade» ( Pio XI, Epist. Ap. Officiorumomnium, 01/08/1922), que de modo especial consegue clareza e gravidade.
4.4 - Por estes motivos a Santa Sé tem cuidadosamente zelado na conservação e progresso da língua latina e a considera digna de ser utilizada como « magnífica vestimenta da doutrina celeste e das santíssimas leis»(Pio XI, Motu ProprioLitterarumLatinarum, 20/10/1924), no execício do seu magistério, e quer ainda que seus ministros a utilizem.
4.5 - «O pleno conhecimento e uso dessa língua, tão ligada à vida da Igreja, não interessa tanto à cultura e às letras quanto à Religião» (Pio XI, Epist. Ap. Officiorumomnium, 01/08/1922), como disse nosso Predecessor...; o qual, ocupando-se cientificamente do assunto, reuniu três dons desta língua, de modo admirável conforme a própria natureza da Igreja: «De fato, a Igreja, como mantém unidos na sua amplitude todos os povos e durará até a consumação dos séculos...requer, pela sua natureza, uma língua universal, imutável, não vulgar» (Ibidem).
4.6- É necessário que a Igreja utilize uma língua não só universal, mas também imutável. Se, de fato, a verdade da Igreja Católica fosse confiada a algumas ou a muitas das línguas modernas, sujeitas a uma contínua mudança, as quais nenhuma tem maior autoridade e prestígio sobre as outras, resultaria sem dúvida que, devido à sua variedade, não ficaria manifesto para muitos com suficiente precisão e clareza o sentido de tais verdades, nem, por outro lado, se disporia de alguma língua comum e estável, para confrontar o sentido das outras.
4.7- (....) Em fim, visto que a Igreja Católica, por ter sido fundada por Cristo Nosso Senhor, excede sem medida em dignidade sobre todas as sociedades humanas, é sumamente conveniente que ela use uma língua não popular, mas rica de magestade e de nobreza.
4.8 - Além disso, a língua latina, que «justamente podemos chamar de católica» (ibidem), pois que é própria da Sede Apostólica, mãe e mestra de todas as Igrejas, e consagrada pelo uso perene, deve ser mantida como «tesouro de incomparável valor» (Pio XII, Alloc. Magisquam, 23/11/1951) e como porta pela qual se abre a todos o acesso às mesmas verdades cristãs, vindas dos tempos antigos, para interpretar o testemunho da doutrina da Igreja (Leão XIII, Epist. Encicl. Depuislejour, 08/09/1899) e, finalmente, como vínculo mais que idôneo, mediante o qual a época atual da Igreja se mantem unida com os tempos passados e com os tempos futuros de modo admirável».
4.9 - Em nossos dias, o uso do latim é objeto de controvérsia em muitos lugares e, conseqüentemente, muitos perguntam qual é o pensamento da Sé apostólica sobre este ponto. Por isso nós decidimos tomar medidas oportunas, enunciadas neste solene documento, para que o uso antigo e ininterrupto do latim seja plenamente mantido e restabelecido onde ele quase caiu em desuso. (9)
O Concílio preservou o latim, e o Papa João XXIII, que o convocou, fez questão de reafirmá-lo como a língua oficial da Igreja. Como disse o ex-secretário da Congregação do Culto Divino em entrevista, D. malcolmRanjith: “Quanto ao latim, gostaria de salientar que nunca foi abolido, e é mais uma garantia da universalidade da Igreja. Mas eu repito: convido aos sacerdotes, Bispos e Cardeais à obediência [ao Motu Proprio sobre a Missa Tridentina], deixando de lado todo o tipo de orgulho tipo ou preconceito” (10)

10) O latim ainda é a língua da Igreja, mas o seu uso deve ser regulado pelo Bispo. Só ele pode autorizar Missas em latim, seja do Rito Novo ou Rito Antigo.
Ora, o Concílio renova o ensino de que o latim é a língua oficial da Igreja, dando, porém, permissão para o uso do vernáculo, então a língua latina continua sendo a regra, enquanto que o vernáculo é a exceção. Não é para o latim que se precisa de autorização, mas para o vernáculo, como consta no próprio Concílio Vaticano II: “Baseada nestas normas, cabe à competente autoridade eclesiástica territorial, (...) decidir sobre a omissão e a extensão da língua nacional”.
O documento RedemptionisSacramentum, de 2003, mais uma vez, demonstra isso: “Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.” (11)

11) O latim e o gregoriano são elementos da Liturgia que só devem, porém, existir em mosteiros ou ordens de vida religiosa.
Novamente o Concílio Vaticano II desmente isso. Se o Concílio estabeleceu que o latim permanece como a língua oficial da Igreja, então qualquer padre do Rito Latino pode celebrar nesta língua, e não só os de vida religiosa.
Ademais, Bento XVI pediu para que, em toda a Igreja, os seminaristas fossem educados no latim: “A nível geral, peço que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do seminário, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano (...).” (12)
Tendo em vista o desaparecimento abrupto do latim na vida da Igreja, o Cardeal Francis Arinze, ex-Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, disse durante um discurso proferido em Saint Louis “(....) que as paróquias maiores tenham uma Missa em latim pelo menos uma vez por semana e que as paróquias rurais e menores a tivessem pelo menos uma vez ao mês.” Ou seja, já que o latim foi suprimido quase que totalmente da Igreja, hoje—por um infortúnio—, então que, pelo menos, se celebre em latim, no mínimo, uma vez na semana. Ora, se o Cardeal Arinze disse que em todas as paróquias—sejam maiores ou menores—devem ter Missa em latim, logo, é falso afirmar que o latim é só para a vida religiosa.
Também é falso afirmar que o latim permanece somente no Rito Tridentino. Muitos padres pensam que “Missa Tridentina” e “Missa em latim” é a mesma coisa, como se fossem sinônimos absolutos. A Missa Nova pode ser rezada tanto em latim quanto em vernáculo, pois o Cardeal Arinze, no seu discurso acima citado, estava obviamente falando do Novus Ordo.

12) O latim, no entanto, só deve ser usado em celebrações internacionais.
Esta afirmação parte de uma má leitura da Exortação Apostólica “SacramentumCaritatis”, de Bento XVI. Bento XVI disse que, de preferência, as celebrações com fiéis de diversas nacionalidades sejam rezadas em latim, como fator de unidade entre todos:
(...) penso neste momento, em particular, às celebrações que têm lugar durante encontros internacionais, cada vez mais frequentes hoje, e que devem justamente ser valorizadas. A fim de exprimir melhor a unidade e a universalidade da Igreja, quero recomendar o que foi sugerido pelo Sínodo dos Bispos, em sintonia com as directrizes do Concílio Vaticano II: exceptuando as leituras, a homilia e a oração dos fiéis, é bom que tais celebrações sejam em língua latina (...). (12)

13) Somente grupos que saibam latim é que podem ter celebrações nesta língua.
Esta “desculpa” está sendo usada por Bispos, tanto no Brasil quanto em outros países, para barrar a celebração da Missa Tridentina quando os fiéis o pedem. Mas ela, igualmente, não procede..
Antes do Concílio, todas as Missas de Rito Latino eram em latim. E, obviamente, em muitos lugares do mundo o povo não sabia falar em latim: a Missa era em latim tanto na China quanto no Japão, por exemplo. No Brasil, porém, era ensinado latim nos colégios, então o povo tinha noções da língua.
Aqueles que dizem que somente os fiéis sabedores da língua latina podem ter a “Missa em latim”, evidentemente cometem um grave erro. Afinal, as graças de Cristo são alcançadas pelos fiéis independente da língua em que se celebra a Missa. Caso vá um fiel brasileiro para o Japão, se ele não falar japonês então ele não pode assistir Missa? Ou, se assistir, não irá receber dos frutos dessa Missa? Esse argumento parte da idéia—de origem protestante—de que todos os fiéis devem participar da Missa, para que a Missa tenha efeito. Por causa do sacerdócio ministerial do padre, os fiéis não são obrigados nem a responder as orações, já que a participação dos fiéis se dá quando eles desejam se unir àquela Missa, para usufruir de seus efeitos. Os fiéis, portanto, rezam a Missa pelas mãos do padre, por meio do padre, mas não diretamente. Por isso, não são obrigados nem a saber a língua da Missa.
Mas se a questão é que “somente aonde o povo sabe latim” é que se celebra “Missa em latim”, então por que não oferecer aos fiéis as orações principais da Igreja em latim? Aqueles que dão este argumento já o dão porque também não fazem a menor questão de resolver o problema. O argumento é proposital, infelizmente. O Papa Bento XVI pediu, aliás, para que os fiéis fossem ensinados nesta língua: “(...) nem se transcure a possibilidade de formar os próprios fiéis para saberem, em latim, as orações mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia.” (12)

14) Mas para quê latim, se o povo não entende?
E eu pergunto se os fiéis entendem o português. Só porque a Missa é em português não quer dizer que os fiéis saibam o que significa cada oração. Afinal, existe uma diferença clara entre entender e compreender. Os fiéis sabem que a Missa é em português, mas não necessariamente saibam o que elas querem dizer. Se entendêssemos tudo o que fosse dito na nossa língua, não precisaríamos nem de dicionários e nem de professores de gramática. Não é a língua que faria com que os fiéis entendessem a Missa, e sim, o conhecimento deles sobre a teologia da Missa. Saberia um fiel o que quer dizer “consubstancial”? Ou então “transubstanciação”? Ou “doxologia final”? Essas palavras ou expressões não dependem da língua, e sim, dos conhecimentos em liturgia ou teologia.
Ademais, a Missa não é catequese. “O povo não entende”, mas a Missa não é o lugar indicado para se ensinar a Fé ao povo. A Missa é uma ação aonde se afirma a Fé, e se ensina a Fé por meio dos símbolos que exteriorizam a nossa adesão à mesma. O latim ajuda a entender que o culto da Liturgia é oferecido a Deus e só a Deus, daí o uso de uma língua dedicada, separada e oferecida só a Ele. Esta língua não pode ser vulgar, isto é, comum, mas uma língua reservada, para um ato nobre como a Liturgia. E sendo a Igreja uma só, convém que o culto oferecido por ela seja numa mesma língua no mundo todo, para indicar a Fé no mesmo Deus e nas mesmas verdades.
Variando as línguas dos povos com o tempo, o sentido dos textos da Missa poderiam mudar ou se perder. O latim, por ser uma língua mortaque não é falada por nenhuma nação especificamenteimpede que o sentido de seus textos se perca ou mude com o tempo, além de evitar que surjam falsas traduções ou deturpações do texto. Aonde os protestantes conseguiram acabar com o latim, houve deturpação e introdução de heresias na Liturgia. O latim é uma fortaleza para a Liturgia.
E sendo a Missa um ato sagrado, convém que as coisas santas sejam protegidas dos profanadores e blasmefamodes. Cristo disse: “não dêem pérolas aos porcos”, isto é, não dêem as coisas santas àqueles que não as merecem ou que não as respeitam. Cristo ensinava as verdades do Reino do Céu em parábolas, mas somente as apóstolos Ele explicava o sentido dessas parábolas, afirmando que “a vós é dado conhecer”. O latim impediria que um infiel blasfemasse ou profanasse a Missa, justamente por não conhecer o sentido daquelas palavras. O latim protege as coisas santas.
E para evitar que os próprios fiéis entendam mau a Missa, o latim evitaria juízo particular, isto é, que os fiéis queiram interpretar a Missa por conta própria. Não sabendo latim, procurariam o sentido e a tradução da Igreja. Aliás, em Missas em latim, sempre se dá aos fiéis um Missal popular, com os textos em português, sendo que a própria Missa possui a leitura, o Evangelho e o sermão—as partes dirigidas ao povo—em português.
Não só a Igreja, mas outros povos compreenderam a necessidade de se ter uma língua sagrada dedicada exclusivamente para os ofícios religiosos. Os judeus têm o hebraico, os muçulmanos, o árabe, e os hindus, o sânscrito. Ademais, os judeus falavam em aramaico no dia-a-dia, mas, no Templo, as orações eram feitas em hebraico.
E se tudo o que Cristo tocava se tornava santo, a língua que a Igreja usou por séculos para as celebrações litúrgicas também se tornou santificada com o uso. Por isso os exorcismos são feitos em latim. E se Cristo é um Deus morto e ressuscitado, o culto a Ele também é feita numa língua morta, mas que a Igreja ressuscitou para si.
Também sobre isso falou D. malcolmRanjith, durante entrevista:
Frequentemente, mas com argumentações pouco convincentes, critica-se o rito antigo sustentando que pouco se o entende…
Não compartilho dessa opinião. Entretanto, o latim permanece sempre a lingua universal da Igreja. Ademais, sobre a cruz Cristo, morrendo não foi compreendido. Ele expirou no mistério e não houve necessidade de tradutores ou de divulgadores para explicar aquele mistério. Portanto, se Cristo morto na Cruz é o mistério por excelência, por que razão a Missa deveria ser toda e racionalmente compreensível? (13)
Como salientou D. Ranjith, a Missa é mistério, e o mistério não é compreensível pela mente humana. Mais uma razão para ser o latim a língua da Missa: enfatizar o mistério numa língua desconhecida, evitar falsos juízos, falsas interpretações e um certo “orgulho” dos fiéis que se arrogam dizer que entendem a Missa. Podemos saber o que é a Missa, mas jamais poderemos compreendê-la.
Dizer que a Missa só deve ser em português é concordar com a teologia protestante e modernista, que preconizavam ambas a participação necessária dos fiéis para que a Missa acontecesse de fato. Afinal, os protestantes negavam o sacerdócio hierárquico e a Missa enquanto sacrifício incruento. Se a Missa fosse só uma reunião da assembléia, até poderíamos tê-la sempre em português, mas, devido à sua dignidade e imponência como renovação incruenta e mística do Calvário, é necessária revesti-la de sacralidade, piedade e deixar os fiéis sempre preparados para assisti-la, pois o latim é um aviso constante que nos indica algo tão valioso que precisou até ser rezado em outra língua.
Ademais, quem afirma que a Missa só deve ser em vernáculo cai na excomunhão do Concílio de Trento: “Se alguém disser que (...) a Missa se deve celebrar somente em língua vulgar, (...) — seja excomungado [cfr. n° 943, 945 s].

15) Latim é uma questão cultural apenas. Deve-se rezar a Missa em vernáculo mesmo.
O Papa João XXIII negou que o latim fosse apenas uma questão “cultural” na supracitada Constituição VeterumSapientiae, aonde ele apresenta as razões para o uso do latim, que vão muito além de questões de ordem cultural. E, na objeção anterior, foram dados diversos motivos—todos de natureza religiosa—para o uso do latim.
D. malcolmRanjith, atualmente Bispo do Sri Lanka, assim respondeu durante uma entrevista:
DT: Da Ásia, ouvem-se vozes dizer que o debate sobre a liturgia tridentina é tipicamente europeu, e nada tem a ver com o povo das regiões de missão. Como V.. Excia vê isso?
Mons. Ranjith: Bem, essas são opiniões individuais que não podem ser generalizadas para a Igreja Católica. Que toda a Ásia rejeite a Missa tridentina é inconcebível. Deve-se tomar cuidado com generalizações tais como: "A Missa antiga não convém para a Ásia". Precisamente é o rito da liturgia extraordinária que reflete alguns valores asiáticos em toda a sua profundidade. Acima de tudo, o aspecto da Redenção e o sentido da perspectiva vertical da vida humana, a relação profundamente personalizada entre Deus e o sacerdote, entre Deus e a comunidade, são expressas mais claramente na antiga liturgia do que no Novus Ordo. O Novus Ordo, pelo contrário, sublinha mais a perspectiva horizontal. O que não quer dizer que o próprio Novus Ordo sublinhe uma perspectiva horizontal, mas antes sua interpretação por diferentes escolas litúrgicas, que consideram a Missa mais como uma experiência comunitária. Contudo, se certas maneiras de pensar forem evocadas, alguns reagem desconfiadamente. A Santa Missa não é apenas um memorial da Santa Ceia, mas também o Sacrifício de Cristo e o Mistério de nossa Salvação. Sem a Sexta-Feira Santa, a Santa Ceia não tem sentido. A Cruz é o sinal maravilhoso do amor de Deus e somente em relação com a Cruz é plenamente possível haver verdadeira comunidade. Aqui está o real ponto de partida para a evangelização da Ásia. (14)
O latim vai além de questões culturais, até porque, quando a Igreja defendeu o latim contra a Reforma Protestante, o único objetivo era salvaguardar a Liturgia. Não havia nenhuma tentativa de sobrepor uma cultura à outra, porque a Reforma aconteceu em países europeus, e a defesa do latim ficou restrita à própria Europa, até o momento em que vieram os padres missionários para outros continentes. Não podemos confundir problemas de ordem religiosa com os de ordem política. A dominação européia de outros povos não tem a ver com a Igreja, que sempre defendeu a liberdade dos povos e lutou contra a escravidão e exploração.

***

Sejamos honestos: a Missa Tridentina em nada prejudica a Igreja, mas muito prejudicam a Igreja aqueles que se opõe a ela, pois estão lutando contra o bem do Corpo Místico de Cristo, e irão responder por isso no dia do Juízo.
O Motu ProprioSummorumPontificum sobre a Liturgia Latina, de 7 de julho de 2007, é o fruto de uma profunda reflexão do nosso Papa sobre a missão da Igreja. Não cabe a nós [Bispos], que vestimos a púrpura e o vermelho eclesiástico, colocar isso em questão, sermos desobedientes e esvaziarmos o Motu Proprio por nossas próprias pequenas e mínimas regras.
Mesmo se elas fossem feitas por uma conferência de bispos. Os próprios Bispos não têm esse direito. O que o Santo Padre diz tem de ser obedecido na Igreja. Se nós não seguirmos esse princípio, nós permitiremos nós mesmos sermos usados como instrumentos do Demônio, e ninguém mais. Isso vai levar a discórdia à Igreja e diminuir sua missão. Nós não temos tempo a perder com isso. [D. Malcolm Ranjith] (15)



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

1.N. Bux e S. Vitiello - "Dossier: O Motu proprio de Bento XVI"
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=dossie_bux&lang=bra
2.    DIAS, Revista 30. Apostolado VeritatisSplendor: LITURGIA. O MOTU PROPRIO SUMMORUM PONTIFICUM. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4564. Desde 12/09/2007
3.    MASS, Latin. Apostolado VeritatisSplendor: ENTREVISTA COM O CARDEAL CASTRILLÓN HOYOS (MAIO DE 2004), DESTINADA À REVISTA "THE LATIN MASS". Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4662. Desde 19/11/2007
4.    BENTO XVI. Motu ProprioSummorumPontificum. 07/07/2007
5.    Rádio Vaticano entrevista o Cardeal Hoyos sobre o Motu Proprio ''SummorumPontificum''. http://defesacatolica.org/index.php?option=com_content&task=view&id=63&Itemid=27
6.    Cardeal CastrillonHoyos: "Missa de sempre para todas as paróquias". http://defesacatolica.org/index.php?option=com_content&task=view&id=96&Itemid=27
7.    Missa em latim deve ser cada vez mais habitual em rito romano, afirma Card. Castrillón. http://www.acidigital.com/noticia.php?id=9975
8.    Monterrey, Felipe Alanís - CreerenMexico - "Cardeal CastrillónHoyos: "O Santo Padre quer que a Missa de São Pio V se converta em uma forma normal nas paróquias". http://www.montfort.org.br/index.php?secao=imprensa&subsecao=igreja&artigo=20080502&lang=bra
9.    JOÃO XXIII. Constituição VeterumSapientiae. 22/02/1962.
10. Monsenhor Ranjith: "Devemos ter a coragem de corrigir o que está sendo feito". http://www.montfort.org..br/index.php?secao=imprensa&subsecao=igreja&artigo=20080824&lang=bra
11.  Sagrada Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramento. Constituição RedemptionisSacramentum, nº 112. 2003
12. BENTO XVI. Exortação Apostólica SacramentumCaritatis, nº 62. 2007
13. Monsenhor Ranjith: "Devemos ter a coragem de corrigir o que está sendo feito". http://www.montfort.org.br/index.php?secao=imprensa&subsecao=igreja&artigo=20080824&lang=bra
14. Volpe, Bruno - Papanews.it - "Missa tridentina - a advertência da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos: “Sacerdotes, Bispos e Cardeais obedeçam ao Papa”".http://www.montfort.org.br/index.php?secao=imprensa&subsecao=igreja&artigo=20071106&lang=braArchpRanjith on bishops who resist SummorumPontificum: “instruments of the devil”. http://wdtprs.com/blog/2007/10/archp-ranjith-on-bishops-who-resist-summorum-pontificum-instruments-of-the-devil/


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