sábado, 27 de agosto de 2016

1. O Culto em Geral




D
a total e absoluta dependência em que se encontra o ser humano a respeito de Deus, seu supremo princípio e fim último, nasce um complexo de deveres que o une estreitamente a Ele e constituem o objeto material da virtude da religião.
A pessoa, com efeito, criatura de Deus e elevado ao estado sobrenatural, deve ao Criador a homenagem da adoração, isto é, o reconhecimento humilde e sincero da própria dependência dele; enriquecido gratuitamente com dons maravilhosos, lhe deve o tributo do reconhecimento; pecador pela fragilidade de sua natureza e malícia da vontade, tem a obligação de satisfazer à Majestade divina ultrajada; débil e impotente, deve implorar com súplicas os auxílios naturais e sobrenaturais que lhe são indispensáveis para conseguir o próprio fim. Os atos com que o ser humano cumpre este quádruplo dever de adoração-agradecimento-satisfação-petição, constituem o culto religioso privado. O qual, único em si mesmo, pode considerar-se sob um duplo aspecto: interior, que emana radicalmente das faculdades espirituais características do ser humano, a inteligência e a vontade; exterior, quando os sentimentos internos da alma se manifestam visivelmente mediante os atos materiais do corpo.
Não é nosso propósito demonstrar a necessidade e a conveniência do culto externo. O ser humano é uma natureza mista, porque à alma espiritual vai unida um corpo, criado por Deus, que participa dos benefícios divinos e que, por desgraça, se põe frequentemente ao serviço da vontade para cometer o pecado.
 Todo isto leva consigo, também para o corpo, o dever de associar-se à alma nos atos da religião, não esquecendo que se por lei natural todo movimento da alma repercute no corpo, o sentimento religioso, que é certamente dos mais fortes e profundos, tem necessidade de manifestar-se ao exterior. A história religiosa de todos os povos nos oferece uma demonstração digna de fé.
Entretanto, a pessoa não foi feita para viver sozinha. Deus a criou para viver em sociedade; é um ser social. Por conseguinte, a sociedade humana, pelas mesmas razões (com as devidas proporções) que valem para o indivíduo, tem por sua vez a obligação de dar a Deus, seu autor, um culto público e social.
Este culto, cuja organização Deus podia deixar à livre vontade dos chefes da sociedade, quis organizá-lo Ele mesmo no mundo por divina revelação: primeiro, mediante o culto mosaico, e mais tarde, mediante o culto cristão que, estabelecido por Cristo e seus apóstolos em suas linhas essenciais, se desenvolveu admiravelmente no decurso dos séculos por obra assídua e clara da Igreja Católica.
O termo culto, portanto, que em sentido genérico significa toda expressão de sentimento religioso, designa, em sentido objetivo, aquele conjunto fixo e ordenado de normas pelo qual se acha organizada a religião exterior correspondente a uma determinada sociedade. Temos assim um culto pagão, um culto hebraico, um culto cristão. Neste segundo caso, culto vem a ser, como veremos, sinônimo de liturgia, e a este termo nos ateremos preferentemente segundo o uso mais comum dos escritores modernos.
Muito agudamente observa Santo Agostinho: Orantes de membris sui corporis faciunt quod supplicantibus congruit, cum genua figunt, cum extendunt manus, vel etiam prosternuntur solo, et si quid aliud visioiiiter faciunt, quamvis eorum invisibilis voluntas et cordis intentio Deo nota sit, nec Ule indigeat his indiciis, ut humanus ei pandatur animus; sed hiñe magis seipsum excitat homo ad orandum gemendumque humilius ac ferventius. Et nescio quomodo, cum hi motus corporis fien nisi motu animi praecednte non possint, eisdem rursus exterius visibviter foctis Ule interior invisibilis, qui eos fecit, augetur; ac per hoc cordis affectus, qui ut fierent ista praecessit, quia facta sunt crescit (De cura gerenda pro mortuis: PL 40,597).[1]

Voltar ao ÍNDICE

REFERÊNCIA
História da Liturgia, tomo I, n. I.
Autor: Mario Righetti
Tradução: Blasius Ludovicus



[1] Sic.

Nenhum comentário:

Postar um comentário