domingo, 28 de agosto de 2016

2. Noção de Liturgia.




Liturgia, segundo o sentido etimológico ληιτον έργον (publicum opus, munus, ministerium), no uso corrente dos clássicos gregos traz o conceito de uma obra pública levada a cabo em benefício do interesse de todos os cidadãos.
Nas cidades gregas, e especialmente em Atenas, os que possuíam um censo superior a três talentos estavam encarregados por turno, tanto na paz quanto na guerra, de um conjunto de diversas prestações [contribuições] (λειτουργίαι), os quais, enquanto se achavam investidos de honras e de cargos, redundavam em benefício de todos os cidadãos. Assim eram, por exemplo, a organização de uma festa pública (χορηγία), a representação oficial da cidade nos grandes jogos nacionais (γυμνασιαρχία), as consultas oficiais no orαculo·de Belfos[1], etc.
Em seguida, o termo λειτουργία, do conceito de um serviço levado a cabo para a coletividade e em favor dela, passou a designar o conjunto de serviços que constituíam o culto dos deuses. Porém, nesta última significação a obra do interesse comum não fica a cargo do indivíduo privado, mas de todos os cidadãos. Aristóteles escrevia a este respecto: “Os gastos destinados ao culto dos deuses são comuns a todas as cidades. É necessário, pois, que uma parte dos fundos públicos sirva para pagar os gastos do culto dos deuses” (εις τας προς τους θεούς λειτουργίας).
Neste sentido essencialmente religioso introduziram os LXX na versão da Bíblia os termos λειτουργείν e λειτουργία, para indicar o ministério sagrado que os sacerdotes e os levitas deviam desempenhar no tabernáculo em nome e em favor do povo: Et ipsi ministrabunt (λειτουργέαουαιν) ίη eo. No Novo Testamento, o termo λειτουργία no só continua sendo usado para indicar o serviço dos sacerdotes no templo, mas designa também os atos do eterno sacerdócio de Cristo, muito mais excelente que o sacerdócio levítico, assim como o serviço eucarístico da Nova Lei. Os Atos dos Apóstolos, aludindo indubitávemente ao Sacrifício da Missa que os Apóstolos ofereciam, diz: Ministrantibus (λειτουργούντων) autem illis Domino.[2] Expressões análogas se encontram na Didaché e em São Clemente. O termo liturgia vem a ser assim sinônimo de sacrifício, a ação sagrada por excelência do culto cristão. No século IV, os concílios de Ancira (314, c. 2), de Antioquia (341, c. 4), de Laodicéia (c. 475), os Padres gregos e as Constituciones Apostólicas a empregam normalmente com este significado. Além do mais, a Missa na Igreja Antigua não era somente a principal das ações sagradas, mas também o centro para o qual convergiam todas elas e com as quais iam mais ou menos unidas.
No Ocidente, ao cessar a língua grega, também o termo liturgia decaiu do uso comum. Santo Agostinho apenas o recordou em seu significado sagrado. Falando do ministerium no servitium religionis, acrescenta: Quod graece liturgia oel latría dicitur. Os escritores eclesiásticos medievais diziam em seu lugar officia divina, ministerium divinum ou ecclesiasticum. Foram os humanistas primero, e depois os eruditos de 600, os que trousseram à luz o antigo vocábulo para designar o conjunto das formas históricas de um determinado rito.
Suposto isto, é necessário precisar a noção de liturgia e defini-la exatamente. A este respeito, até há pouco tempo não existia entre los escritores toda a uniformidade desejada.
Alguém chamou de liturgia o elemento exterior sensível do culto, isto é, o conjunto dos ritos e das prescrições que formam o cerimonial do culto cristão. Esta é uma noção unilateral incompleta da liturgia, que desconhece o elemento íntimo e vital da mesma. Já que os ritos e as formalidades litúrgicas não são mais que um brilhante vestido sob o qual se esconde a força e a vida mesma da Igreja, comunicada a ela por Cristo como fruto e continuação de sua virtude redentora e sacerdotal. “Tomar os ritos sem a força, sem a vida que entranham, é tomar um corpo sem a alma; como querer fazer aquela força e aquela vida sem os ritos exteriores é querer tomar uma alma fora do corpo que anima, por meio do qual obra e através do qual exercita sua virtude. Em abstrato se poderá distinguir um elemento do outro; mas na realidade não se pode separar sem desnaturalizar e destruir a liturgia. Nem o corpo sem alma, nem a alma sem o corpo.”
Esta concepção da liturgia, que não vê senão a estructura exterior, chega a degenerar em um ritualismo vazio, fim em si mesmo que evoca e se assemelha ao formulismo mágico das religiões pagãs.
A religião romana, com efeito, se identificava com o rito. Esta coincidência havia transformado o rito de meio em fim, esvaziando-o de seu conteúdo expressivo ou simbólico, e o havia reduzido a uma mera ação externa, a magia e superstição. O rito, portanto, era tudo. Aos romanos importava essencialmente só isto, que a cerimônia fosse realizada rite[3], segundo as normas de rigor: bastava que o músico interrompesse o canto por um só momento para que todo o sacrifício fosse nulo; um brevíssimo erro na recitação das fórmulas sagradas invalidava a cerimônia inteira. Nesta essência ritualística se apoia a reforma religiosa de Augusto, a qual põe em vigor todo o conjunto dos ritos antigos que haviam caído em completo desuso. Ele renovou a religião romana simplesmente colocando em vigor a liturgia; na base de sua reforma não foi necessário nenhuma mudança dogmática, teológica ou moral, mas unicamente um conjunto de ritos.
Depois disto é fácil compreender a enorme diferença existente entre a religião cristã e a pagã, ainda que só pelo ponto de vista litúrgico. A Igreja, no Decretum de observandis et evitandis in celebratione missarum, que encabeça o missal, quer que todo o cuidado do sacerdote seja posto em que a Missa seja dita com a máxima possível coráis munditia et puritate atque extenoris devotionis ac pietatis specie[4]. Eis aqui o essencial. Ao romano bastava, com perfeita lógica, a externa devotio, quer dizer, a precisão do rito. Porque enquanto a liturgia cristã conservar o próprio significado e o próprio carácter, deve estar separada do ritualismo, que é seu pior inimigo.
Outros liturgistas, com o fim de fazer exaltar com mais precisão ou constitutivo da liturgia como ciência em si, definiram-na como coordenação eclesiástica do culto público: ou como o culto público enquanto está regulada pela autoridade da Igreja, ou também a organização das relações oficiais entre Deus e o homem.
Esta noção da liturgia, dizem seus autores, se faz necessária pelo fato de que se se incluem também nela os elementos divinos do culto, como, por exemplo, a Missa e os sacramentos, a ciência litúrgica viria a ter um âmbito tão amplo que se pode dizer que compreenderia todo o scibile theologicum; isto é impossível.
Porém, este outro inconveniente no existe. A liturgia compreende, sem dúvida, também os elementos divinos do culto; portanto, también a Missa e os sacramentos; mas os estuda somente em função de sua própria competência, isto é, sob o aspecto do culto, enquanto são meios para procurar a Deus a honra a Ele devida. E depois, querer distinguir no culto as instituições de direito divino daquelas que são de direito eclesiástico, é, historicamente falando, muito difícil. Si tiramos a substantia sacramentorum, que, como definiu o Tridentino, é de divina instituição, o que a Igreja não há feito no campo sacramental?

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REFERÊNCIA
História da Liturgia, tomo I, n. 2.
Autor: Mario Righetti
Tradução: Blasius Ludovicus



[1] Sic. [N.T.].
[2] Cf. At 13,2 [N.T.].
[3] Ritualmente, ou seja, conforme o rito estabelecido [N.T.].
[4] Sic. Acreditamos que numa citação correta, a tradução seria: espécie de piedade e devoção exterior, e pureza e inocência de coração [N.T.].

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