quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Definição da Liturgia


A definição que, segundo nosso parecer, é a mais exata. Com a encarnação, Cristo inaugurou no mundo, por meio de seu sacerdócio, o culto perfecto ao Padre, culminado no sacrifício do Calvário. Cristo dispôs que sua vida sacerdotal fosse continuada através dos séculos em seu Corpo místico, a Igreja, a qual, com efeito, a exerce initerrumpitamente mediante a liturgia.
Segue-se daqui que a definição exata da liturgia no pode, em sua essência, ser outra que esta: o exercício do sacerdócio de Cristo por meio da Igreja; ou melhor, em termos distintos, mas equivalentes, o culto integral do Corpo místico de Jesus Cristo, Cabeça e membros, a Deus.[1]
Nesta definição devemos distinguir três elementos:
1º - Um elemento invisível, espiritual, que constitue como que a alma dela, fixado pelo próprio Jesus Cristo, primeiro e verdadero autor da liturgia. Este elemento é a graça, isto é, a própria vida divina, merecida e comunicada aos seres humanos por meio de seu sacrifício. Assim, pois, se pode dizer que a liturgia atualiza a cada instante e em todos os lugares do globo o sacrifício, porque seu centro é a Missa, ato misterioso que, acima do tempo e do espaço, renova para nós a oferenda suprema feita por Ele no Calvário. E da Missa, como por uma mística irradiação, os sacramentos recebem sua virtude própria, condutora da graça aos corações dos fiéis. Eis aqui porque os sacramentos, especialmente na antiguidade, se apresentavam estreitamente unidos à Missa. O batismo, o sacramento da ordem, a comunhão, a bênção nupcial, manifestam esta última relação com a liturgia.
2º - Um elemento integrante ou acessório, material, sensível, seja unido aos outros do culto, de instituição divina, seja fora dos mesmos, mas determinado pela Igreja, a cuja autoridade somente pertenece regulá-lo, fixá-lo, cuidar de seu desenvolvimento. Tal elemento se acha constituído essencialmente pelo conjunto dos objetos, cerimônias, fórmulas, gestos, etc., que sirvem para formar os vários ritos litúrgicos.
De maneira que a liturgia da Igreja não é outra coisa que o conjunto da Missa, dos sacramentos, da oração pública canônica, dos sacramentais e de todos aqueles outros atos do culto que se referem a estes principais ou dependem deles: bênçãos, exorcismos, consagrações, vários práticas e ritos, com os quais a Igreja não só celebra os mistérios de Cristo e soleniza suas festas, mas que aplica e estende sua virtude santificante, da qual é depositária e dispensadora, em nome de Cristo, à pessoas, tempos, lugares, objetos, elementos; em suma, a tudo aquilo que pertence à vida humana, santificando-a em tudo, consagrando-a e elevando-a para o Céu. Porém, estes atos, desde o menor até ao maior, não são simples formalidades ou cerimônias exteriores. Possuem um sentido e um valor, encerram uma alma e uma força. São coisas vivas, e na liturgia estão com toda sua realidade de força e de vida interna, unida ou oculta dentro do grupo dos elementos externos: orações, fórmulas, leituras, cantos, cerimônias, com que a Igreja os realiza.
Nenhum destes dois elementos deve ser esquecido ou separado. Não só porque de fato existam e se encontrem unidos no exercício atual da Igreja, mas porque cada um tem seu valor, seu fim, sua função na ordem ao efeito supremo do culto, que é honrar a Deus e santificar as almas, e esta função não pode realizar-se devidamente nem pode conseguir-se o fim plenamente a não ser em união íntima e ação recíproca.
3º - O termo último do culto, que é Deus nas três divinas Pessoas. Como o mistério da Santíssima Trindade é o dogma fundamental da lei nova, por isso, ele constitue o fundamento do culto litúrgico.
Pode-se observar a este propósito como a Igreja em suas formas litúrgicas:
1º - Professa a unidade da natureza divina, porque dirige globalmente suas adorações ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Os salmos, hinos, bênçãos, coletas, os sinais da cruz, toda espécie de orações, vão constantemente endereçados à glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A doxologia trinitária é a primeira e a última palabra de todo ato litúrgico. Segundo este esquema trinitário estão compostas as grandes fórmulas eucarísticas, os hinos antigos, as profissões de fé conciliares, o Te Deum, o Gloria, o Credo, os prefácios, as fórmulas sacramentais, etc., y nele se inspira a repetição do Kyrie, Sanctus e Agnus Dei.
2º - Não confunde as pessoas quando se dirige à Santíssima Trindade. A Igreja em suas fórmulas sacerdotais, como regra geral, se limita a nomear ao Pai, porque Cristo na liturgia, como logo diremos, é, antes de tudo, liturgo. É seu ofício humano de mediador o que se quer por de relevo. Por outro lado, como Deus, Ele é também o termo do culto, junto com o Pai e com o Espírito Santo. Portanto, se numa mesma fórmula litúrgica se indicasse a Cristo não só como sujeito, mas também como objeto de culto, haveria perigo (o da época da heresia nestoriana) de considerar duas pessoas em Cristo, e por isso a Igreja, enquanto se dirige em seu culto às três Pessoas, se limita a nomear ao Pai. Por outro lado, o que justifica as homenagens a esta ou aquela Pessoa divina, os títulos que estabelece o culto, se referem sempre à natureza divina. Por este motivo, apesar da distinção real das três Pessoas divinas, a mesma e única oração que se dirige a uma delas, ao Pai, por exemplo, se refere também às outras duas, porque é idêntico o título, a unidade da natureza divina: tribus honor unus.
A Igreja romana não quer jamais estabelecer uma festa separada em honra de uma Pessoa divina. Se se celebram com particular solenidade as do Filho e do Espírito Santo, isto se faz em consideração a sua missão exterior.
Celebra-se o mistério da encarnação do Verbo, mas não existe uma solenidade unicamente em honra da natureza divina do Verbo, e as festas de Pentecostes foram instituídas, desde sua origem, não para honrar exclusivamente ao Espírito Santo em si mesmo, mas para recordar sua vinda, ou seja, sua missão externa.
Por último, também a Santíssima Virgem, os Anjos e os Santos são termo próximo do culto; mas a liturgia, celebrando-os e invocando-os, dirige constantemente todas os louvores e toda a virtude à glória suprema da Santíssima Trindade. Nulli martyrum constituimus altaria, e quod offertur, Deo offertur qui martyres coronavit. Este direcionamento do culto dos Santos ao supremo culto de Deus encontra uma magnífica expressão na visão do Apocalipse, quando São João vê aos Anjos e aos Santos postrados diante do trono de Deus e ao redor do altar do Cordeiro, cantando incessantemente: Santo, Santo, Santo...

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REFERÊNCIA
História da Liturgia, tomo I, n. 2, [I].
Autor: Mario Righetti
Tradução: Blasius Ludovicus



[1] Grifo nosso [N.T.].

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