domingo, 18 de setembro de 2016

Notas da Liturgia


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Se para que um ato de culto tenha direito de chamar-se litúrgico é necessário que seja realizado em nome da Igreja e que esta o tenha tornando seu imprimindo-lhe o próprio caráter oficial, a Liturgia deverá modelar-se com arregalo à natureza da Igreja e revestir as notas distintivas fundamentais da mesma. Portanto, pode-se reduzir a cinco as características essenciais da Liturgia.
Toda a Liturgia se acha apoiada essencialmente em Cristo, o Cristo ressuscitado e glorioso à direita do Pai, nosso Mediador diante Ele. Já que, como Deus, pudera ser o termo do culto e, junto com o Pai, o objeto de nossas adorações, por isso, na economia litúrgica Ele mantém aquela função de sacerdote e mediador que foi o motivo e o fim de sua encarnação, Ele, portanto, na Liturgia católica aparece, sobretudo, como o liturgo por excelência, O grande Pontífice da nova lei, verdadeiro των αγίων λειτουργός, o sanctorum Minister, que à cabeça do povo, por Ele redimido, oferece a Deus Pai o culto perfeito. A Igreja adora, dá graças, suplica, louva ao Pai sempre por Cristo e em Cristo: per Ipsum, cum Ipso et in Ipso, como se expressa no Canon, conforme o conselho de São Paulo: Omne quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini nostri, Iesu Christi jadié[1], gratias agentes Deo et Patri per Ipsum. Esta é a razão pela qual terminamos todas as orações com uma profissão de fé nesta mediação sacerdotal de Cristo: Per Dominum Nostrum Iesum Christum. Esta lei da oração litúrgica aparece já posta em prática com particular insistência nas cartas apostólicas e nos escritos apostólicos; faz menção dela Tertuliano a modo dum axioma: Deum colimus per Christum; per eum et in eo se cognosci vult Deus et colisi e no final do século IV, um concílio de Cartago (397) a sanciona solenemente: Ut nemo in precibus vel Patrem pro Filio, vel Filium pro Patre nominet, et cum altari assistitur, semper ad Patrem dirigatur oratio.
Mais tarde, no Oriente, a controvérsia ariana sobre a consubstancialidade do Filho com o Pai provocou uma modificação das antigas fórmulas litúrgicas. A tradicional doxologia: Seja glória ao Pai pelo Filho no Espírito Santo, adulterada pelos arianos no sentido de conceber o Filho menor que o Pai, foi sustituído pela atual: Glória ao Pai, ao Filho (ou com o Filho) e ao Espírito Santo. Esta variação litúrgica e outras semelhantes tiveram, entretanto, o efeito de obscurecer o significado salvador da humanidade de Cristo, que é o aspecto preeminente em sua figura redentora; mais ainda: nas igrejas monofisistas, que admitiam em Jesus Cristo nada mais que a natureza divina, desapareceu por completo.
Cristo foi subtraído do contato direto dos fieis e seu Sacrifício, inefável mistério de amor, aparece essencialmente como um mistério de pavoroso temor.
No Ocidente não foi assim. A Igreja romana se manteve constantemente fiel ao espírito da oração primitiva; a ideia de Cristo nosso mediador, supremo sacerdote em sua sacrossanta humanidade, ficou como base de todas suas formas litúrgicas, començando pela do Canon. E melhor no campo da oração privada onde se produziu um desvio deste critério eminentemente católico e tradicional. O Pai se acha muitas vezes como esquecido, enquanto a figura de Cristo absorveu, por assim dizer, em si todas as expressões religiosas, com prejuízo do genuíno sentimento litúrgico e unitário na Igreja. Escreve um moderno teólogo:
“Quanto mais exclusivamente se considera somente a Cristo, tanto mais a piedosa devoção se sente impulsada a considerar e a adorar com preferência a Deus na figura de Cristo. O humano passa a segunda linha na consciência do crente e, com isto, também a sublime verdade de que Cristo, precisamente na vestidura de vítima de sua humanidade, é nosso Sumo Sacerdote, e que é precisamente em virtude de sua santíssima humanidade como nós, os redimidos, permanecemos unidos da maneira mais íntima a sua divinidade, sendo Ele nossa cabeça e nós o seu corpo.
Como consequência disso, se destaca o sentido vivo do vínculo da graça, da comunicação sobrenatural de vida, do conjunto santo de relações que existe entre os cristãos em Cristo. O crente não possui já o inteiro conhecimento de sua união com a cabeça de Cristo e com os demais enquanto do corpo. Ele se sente de frente para Cristo e para os demais membros deste último como um eu e não como um nós, mais como uma individualidade isolada do que como um organismo social.”
Na Liturgia se acha admiravelmente expresso o mistério, desenvolvido por São Paulo e Santo Irineu, da recapitulação de todas as coisas em Cristo, na luz do Pai. A Liturgia chama à união todos os seres, terrestres e celestes, animados e inanimados, para dispô-los na bela ordem ao redor de Cristo e, por meio d’Ele, em torno de Deus. As pedras, sob a inspiração litúrgica, se colocam segundo as grandiosas formas arquitetônicas; as mais preciosas telas se empregam para revestir o altar de seu Sacrifício; o ouro, a prata, o fogo, a água, a luz, o incenso, o sal, a cinza, as flores, a cera e, sobretudo, o pão e o vinho, foram feito para servir de instrumento à ação santificadora de Cristo. Todo o passado com sua história e o presente com suas realidades, humanas e divinas, visíveis e invisíveis, são evocados pela Liturgia. É uma maravilhosa síntese, em cujo centro está Cristo, cabeça do povo redimido e oferecido ao Pai por Ele; de maneira que podemos contemplar o mundo recapitulado n’Ele, contido por sua vez em seu ser, em sua ordenação e desenvolvimento pela força criadora d’Ele e santificado por sua graça.
Foi, sem dúvida alguma, este eminente conceito de Cristo, alma da Liturgia, o que sugeriu aos antigos o colocar a imagen majestosa e soberana, o Pantocrator, sobre o arco triunfal nas ábsides das igrejas.
Com relação ao dito, a Liturgia pode também ser chamada mistérica[2] ou sacramental, porque em seus ritos, e especialmente na Missa, expressa e atualiza o sacramento ou mistério de Cristo, isto é, como diz o Apóstolo, o feito que, por sua vez, é histórico e místico, divino e humano, da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, mediante o qual Ele deu a Deus Pai um culto perfeito.
Assim, pois, Cristo, Cabeça do Corpo místico, do mesmo modo que quer que os fiéis participem de sua santidade e de sua glória, assim também os quer unidos entre si nas cerimônias de seu culto, sejam elas instituídas diretamente por Ele ou instituídas por sua Igreja, em todas as quais Ele está presente moralmente (Ubi sunt dúo vel tres congregan...); ou sacramentalmente, porque sacramenta Ecclesiae specialiter habent virtutem ex passione Christi, cuius virtus quodammodo nobis copulatur per eo rum susceptionem; ou persoalmente, na Eucaristía, sacramentum perfectum dominicae passionis, tanquam continens ipsum Christum passum.
Podemos, pois, afirmar de modo geral que um rito litúrgico encerra em si a razão de verdadeiro ato de culto quando é sacramental ou mistérico, quer dizer, vivificado pelos méritos da Paixão e Morte de Cristo.
Cristo é, finalmente, o centro do ano litúrgico. Todo o ciclo eclesiástico se desenvolve ao redor de sua divina figura, reproduzindo, como numa ampla ação dramática, os principais mistérios de sua vida, para manter-se constantemente em contato con Ele e fazer-nos assimilar melhor o tesouro de graça que eles possuem e que nos mereceu do Pai.
Como Cristo recebeu do Pai o próprio sacerdócio e a missão no tempo, assim Ele formou sobre a terra, na pessoa de seus doze Apóstolos e Bispos, a Igreja, da qual Ele é Cabeça, à qual Ele deu tudo e a qual tudo recebe d’Ele. É a eles e, em sua pessoa, aos Bispos, seus sucessores, a quem Ele comunica toda sua missão, encomenda toda a verdade que recebeu do Pai, transmite a plenitude de seu poder santificador, dá  a autoridade de governar; e enquanto, como Cabeça suprema de seu Corpo místico, se senta invisivelmente na glória à direita do Pai.
A Liturgia, pois, está organizada, presidida e celebrada por estas autoridades, colocadas por Cristo para o governo da Igreja, e pelos sacerdotes, que os Bispos geram espiritualmente para Cristo. É um fato indiscutível que desde os tempos apostólicos nas comunidades cristãs a vida religiosa, e em particular o exercício do culto público, se desenvolve inteiramente sob a dependência do Bispo e dos membros subalternos da hierarquia, seu venerando presbyterium, “sua coroa espiritual”; esta doutrina da constituição hierárquico-litúrgica da Igreja está posta de relevo de um modo especial nas cartas de Santo Inácio Mártir (+ 107):
“Segui todos ao Bispo, como Jesus Cristo [seguia] a seu Pai e o presbyterium aos Apóstolos; em quanto aos diáconos, venerando-os como à lei de Deus. Não façais nada sem o Bispo no que respeita à Igreja. Não considereis válida a Eucaristia se não é celebrada pelo Bispo ou seu delegado. Não está permitido batizar nem celebrar o ágape (a Eucaristia) sem o Bispo; tudo o que ele aprova, é do mesmo modo agradável para Deus. Desta maneira, tudo o que se faz [na Igreja] será seguro e válido.”
Mais gerais, mas substancialmente idénticas, são as declarações de São Clemente Romano (ano de 96) na sua Carta aos Coríntios: “Não tem todos a faculdade de exercer as funções do culto, senão somente os que forum designados pela vontade soberana de Cristo.” E referindo-se ao sacerdócio judeu acrescenta que, do mesmo modo que em Jerusalém as oferendas as fazia o sumo sacerdote, os sacerdotes e os levitas, assim o serviço litúrgico na Igreja cristã deve fazê-lo não qualquer intermediário, mas somente a pessoa devidamente autorizada para isso.
Ao antigo simbolismo da arte cristã não se ocultou a importância deste caráter herárquico da Liturgia, e o representou com gosto especialmente nos mosaicos absidiais. Por cima e por trás do altar sai das nuvens uma mão misteriosa: é o Pai, que dá tudo a Cristo, símbolo da hierarquia primera, da qual procedem todas as demais. Debaixo da mão está Cristo glorificado e benzendo, com um rolo da lei na esquerda, à cabeça de seus doze Bispos, representados em outros tantos cordeiros, todos voltados para Ele. Finalmente, debaixo de Cristo se encontra colocada a cátedra marmórea, símbolo do Bispo, sentado, como doutor, pastor e grande sacerdote, à cabeça de sua igreja particular, diante do único altar onde ele preside as cerimônias dos Santos Mistérios.
Vão associadas ao ministério litúrgico e próprio dos ministros sagrados a “participação dos fiéis” seu regale sacerdotium. Esta participação pode considerar-se sob um duplo aspecto:
a) passivo, enquanto percebe das ações litúrgicas aqueles frutos de edificação e de santificação aos quais estão ordenados;
b) ativo, que consiste em uma certa cooperação ao exercício de um determinado ato de culto com o fim de alcançar frutos mais abundantes, segundo aquele princípio teológico: Quo quisque propius concurrit ad offerendum, eo.eízam,[3] ceteris paribus, meliorem titulum habet ad participandum, de sacrificii fructu.
Isto deve dizer-se especialmente da Missa, mas com as oportunas reservas. Nela os fiéis são certamente concelebrantes da Vítima augusta enquanto membros do Corpo místico, seja habitualiter et implicite, seja também actualiter, se concorrem para ela de um modo particular; mas não podem ser concelebrantes no sentido estrito da palavra, porque o ato da oferenda é própria somente do sacerdote. No Calvário a oblação de Cristo Vítima foi feita conjuntamente por Ele e por nós; mas a oferenda, a apresentação a Deus, a fez somente Ele, Sumo Sacerdote, mediator Dei et hominum, por meio de suas santíssimas mãos. Nisto consiste propriamente seu sacerdócio, do que os sacerdotes recebem uma participação ministerial, mas que é absolutamente incomunicável aos fiéis.
c) a Liturgia é social.
A Liturgia é social; isto é, reveste uma índole eminentemente coletiva, porque atua em função da Igreja, corpo social por excelência. O culto cristão em todos seus ritos e em suas fórmulas mostra constantemente a marca da coletividade, da qual é expressão e pela qual está criada. O ato litúrgico fundamental, o Sacrifício Eucarístico, que já é de si um magnífico símbolo da unidade do grande corpo dos fiéis em suas cerimônias (leituras, cantos, oferendas, comunnhão) e em suas fórmulas, verdadeiramente antigas, não olha jamai ao singular como tal, mas sempre para os fiéis, e a todos os fiéis, vivos e defuntos, fora do tempo e do espaço. Publica est nobis et communis oratio, dizia São Cipriano. A Liturgia é a grande epopeia da Igreja militante, purgante e triunfante. Este caráter superpessoal e objetivo da Igreja católica está em perfeito contraste com a concepção protestante, primordialmente individualista, do culto, e se apresenta como um dos motivos mais altos e eficazes para estimular ao fiel o apreço e o amor à oração litúrgica.
“Ele que ora, sim – escrive Mohlberg – se vê e se considera metido na imensa multidão daqueles que ao mesmo tempo, sobretudo, a faz da terra, levantam os braços para louvar, agradecer, orar; e oferecem o Sacrifício Eucarístico ou participam dele, e ao mesmo tempo se vê como um átomo nas gerações que, desde os primeiros alvoreceres do cristianismo, tem rezado e sacrificado antes que ele, e entre aquelas que rezaram e sacrificaram depois de si, quando ele mesmo já há muito tempo que é pó no sepulcro. Ele, enquanto ora e oferece seu Sacrifício, vive a vida mais profunda e mais intensa, como de gerações e épocas inteiras.
É natural que o sentimento de uma tão sublime comunhão de orações seja tanto mais elevado quanto seja maior no que ora a compreensão histórica das cerimônias e das palavras do culto em que toma parte e quanto mais profundo seja o conceito teológico do culto da Igreja.”
Tudo na Igreja está feito para despertar nos fiéis o sentido social da fraternidade cristã, a ideia de que nenhum deles está sozinho, senão que é membro da grande família de Cristo; o culto, entretanto, se presta, mais do que qualquer outro meio, a insinuá-lo eficazmente. Por isso, a Igreja exige de todos um mínimo de participação nos atos litúrgicos e faz deles uma condição essencial para que se mantenham o espírito cristão. Sendo nosso mais vivo desejo que o verdadeiro espírito cristão refloresça por todos os meios em todos os fiéis, é necessário prover, antes de tudo, à santidade e dignidade do templo, onde precisamente os fiéis se reúnem para beber esse espírito de sua primeira e indispensável fonte que é a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja.
O caráter público e social está inerente aos atos litúrgicos em todo lugar e em toda circunstância.
A Liturgia é universal.
A Liturgia é universal, porque é:
a) única através das formas rituais mais diversas, pela unidade da fé que expressa do Sacrifício que oferece, dos sacramentos que administra;
b) viva, enquanto por todas as partes, sob a aparência dos ritos exteriores de que se acha revestida, palpita a alma da Igreja, que é a vida mesma e a força indefectível de Cristo, e vibram os sentimentos de todo o povo cristão com os quais Ele se associa à oração litúrgica;
c) tradicional enquanto que se remonta em suas linhas fundamentais à mesma Liturgia dos Apóstolos e, por meio destes, até Cristo. O estudo que faremos nesta obra nos dará uma clara demostração disso.
A Liturgia é santificante.
A vida de Deus está em Cristo; a vida de Cristo está na hierarquia da Igreja; a hierarquia a realiza nas almas, transmitindo-a por meio dos atos litúrgicos sacramentais, invocando-a assiduamente com a força intercessora de suas orações, dispondo as almas a recebê-la e aumentá-la mediante os sentimentos de fé, de caridade, de contrição que sugere a Liturgia.
Todos os esforços da Liturgia tendem a estabelecer e desenvolver nas almas o mistério sacerdotal de Cristo. O ciclo do ano litúrgico é, sobretudo, a organização por parte da Igreja da vida espiritual dos fiéis em função do sacerdócio de Cristo. Através de cada um dos sucessos da vida da Cabeça, os membros de seu Corpo místico estão chamados a vivê-los como se estivessem presentes e a realizar em se os sentimentos de Cristo, assimilando-se seus frutos de santidade e de graça. Para isto ajuda particularmente a participação ativa dos fiéis nas horas do ofício divino. No o passado, a Igreja teve cuidado de convidar o povo aos domingos e nas festas do ano, ainda durante a noite; e este piedoso costume se praticou universalmente até o século XVI. Com justiça os teólogos sustentam que todo tempo litúrgico e toda celebração litúrgica é um sacramentale que obra ex opere operantis Ecclesiae; em virtude, pois, da eficácia moral e da santidade entranhada nos atos oficiais da Igreja.

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REFERÊNCIA
História da Liturgia, tomo I, n. 2, [III].
Autor: Mario Righetti
Tradução: Blasius Ludovicus




[1] Sic.
[2] Ou melhor, Misteriosa em relação ao mistério de Cristo [N.T.].
[3] Sic.

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