sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Os Atos Litúrgicos e Paralitúrgicos


De tudo quanto foi dito se segue que nem todos os atos do culto podem ser chamados litúrgicos no sentido próprio da palavra, mas somente aqueles que são realizados pela Igreja em nome de Cristo, como a Missa, os sacramentos, o ofício, etc. Em resumo, todos aqueles atos que a Igreja fez como próprios, porque constituem sua piedade, seu culto. A Igreja imprimiu nestes atos seu caráter oficial, e como tais os insertou em seus livros litúrgicos: Pontifical, Missal, Breviário, Ritual, etc. Esta distinção é de máxima importância, porque nos dá o critério com o qual vai exatamente limitado o campo da Liturgia católica propriamente dita.
Ficam, portanto, excluídas todas as devoções privadas, que a religiosidade dos fiéis criou em todo tempo para alimento espiritual de suas almas conforme as mutáveis condições históricas, nacionais, sociais do ambiente. É conhecido, com efeito, como, pelo menos desde o século IV, foram introduzidas aqui e alí um número de diversas práticas de piedade a título de culto, seja para com Deus ou para com a Santíssima Virgem e os Santos. A vida religiosa anacorética e cenobítica das comunidades, tanto orientais como ocidentais, foi especialmente fecunda, ajudada nisto pela índole particular dos diversos povos, mais ou menos inclinados ao brilho da religião exterior. A Igreja jamais reprovou em princípio a variedade das práticas religiosas individuais. Neste campo da piedade, o espírito e o coração tem exigências que não se podem sufocar, e o homem, por pertencer à sociedade cristã, não deixa de ter uma natureza individual que deve ser respeitada. Nada haveria mais equivocado que querer suprimir, a título de uniformidade litúrgica, formas de vida religiosa popular, sãs e preciosas. Entretanto, tais formas, muitas das quais estão, todavia, em uso e gozam merecidamente de uma aprovação da Igreja (por exemplo, o rosário, a via sacra, o escapulário, etc.), não revestem um caráter oficial, e por isto não podem chamar-se litúrgicas. Elas, ainda que sejam úteis e boas, em comparação com os atos do verdadeiro culto litúrgico, não podem pretender preeminência alguma nem muito menos tentar substituí-lo.
Somente à Liturgia, expressão dos sentimentos da Esposa de Cristo, pertence o primado de honra, de eficácia e de universalidade na vida religiosa da Igreja.
Com tudo isto, a superioridade dos atos litúrgicos propriamente ditos não significa contraste ou oposição com as práticas não oficiais da ascética cristã; aquelas, sobretudo, que são expressão imediata das características especiais de uma comunidade e as totalmente privadas, que podem criar os particulares para suas necessidades pessoais.
Elas estimulam as energias dos fiéis e os prepara para participar com melhores disposições no augusto Sacrifício do altar; para receber os sacramentos com maior fruto e para celebrar os sagrados ritos de forma que resultem mais animados e conformes à oração e à abnegação cristã, para cooperar ativamente com as inspirações e os convites da graça... Por isto, na vida espiritual não pode existir nenhuma oposição ou repugnância entre a ação divina, que infunde a graçia na alma para continuar nossa redenção, e a colaboração do ser humano, que não deve tornar vão o dom de Deus; entre a eficácia do rito externo dos sacramentos, que provem do valor intrínseco dos mesmos (ex opere operato), e o mérito do que os administra ou o que os recebe (opus operantis); entre as orações privadas e as orações públicas; entre a ética e a contemplação; entre a vida ascética e a piedade litúrgica; entre o poder de jurisdição e o legítimo magistério e a potestade eminentemente sacerdotal que se exerce no mesmo ministério sagrado.
Por graves motivos a Igreja prescreve aos ministros do altar e aos religiosos que, nos tempos estabelecidos, atendam à meditação, ao exame e emenda da consciência e a outros exercícios espirituais, porque estão destinados de um modo particular a completar as funções litúrgicas do Sacrifício ou do Louvor divino.
Pode observar-se como muitas práticas, introduzidas primeiro na vida religiosa monástica ou secular como exercício privado de devoção, foram mais tarde aceitas pelos fiéis em geral e depois inseridas pela Igreja em seus livros litúrgicos. As diversas apologias da Missa são um exemplo clássico. A aceitação de tais práticas por parte da Igreja constitui por si mesma não só sua aprovação oficial, mas também o louvor de sua bondade. Não se puede negar que no passado tenham tomado parte do patrimônio litúrgico fórmulas e ritos de origem suspeita ou de uma discutível oportunidade; mas frente a algum exemplo raro desta classe é preciso reconhecer que os papas se mostraram, de modo geral, opostos à novedade, rigorosos na seleção e na correção, severos na conservação e na tutela das boas tradições litúrgicas.
A oração litúrgica, assim como não está em contradição com as práticas extralitúrgicas da ascese cristã, assim tampouco suprime a oração individual. Tudo o que aquela diz genérica ou implicitamente, pode dizer-se que foi dito nesta de um modo explícito e mais íntimo para a alma. As ondas do sentimento podem elevar-se livremente; a dor pode ser sentida até às lágrimas; o gozo, cumprido até à saciedade.
A Liturgia é a marcha do exército do Senhor, e seu canto é o hino de uma imensa fila de soldados que caminha em ordem perfeita, enquanto a oração individual é um girar, ou parar, ou um correr perdidamente, sem direção, murmurando, gritando, calando, tudo em plena libertad. As resonâncias interiores suscitadas pela oração litúrgica são a reprodução no indivíduo dos sentimentos da Igreja e tem uma tonalidade social comum a todos los fiéis presentes. As resonâncias interiores da oração individual são incomunicáveis, pessoais, mesmo quando seu nascimento tenha sido produzido pela indústria do dia.
O espírito litúrgico se empobrece e morre se prescinde da oração consistente na meditação privada; só o encontro com Deus na soledade pode tornar a alma capaz de dar-se à comunidade, concorrendo ativamente para a glorificação de Deus na obra litúrgica. Entretanto, isso não significa que a oração individual, por sua vez, se apoie na Liturgia: muitas veces a alma encontra o sentimento perdido da presença e da majestade de Deus precisamente na Liturgia.
Na prática, muitas veces a oração individual e a litúrgica se entrelaçam e se completam. Em certos momentos em que o texto não sugere determinados pensamentos, como durante uma longa comunnhao geral, sustentada durante alguns instantes só pelo canto da Communio, nada mais natural senão que quem participa na Missa mantenha uma conversa particular com Deus. Na tendência que se manifesta em alguns mosteiros, desde o século V, para prolongar as pausas entre os hemistíquios do canto ou na recitação dos salmos, se vê claramente a intenção de mesclar a oração individual com a Liturgia, ainda que seja à custa de violentar ligeiramente a natureza.
Podernos dizer, concluindo, que o desenvolvimento completo da personalidade cristã na relação com a oração se dá da Liturgia e da oração individual, não as contrapondo entre si, mas desenvolvendo-se cada uma em sua própria linha, sendo assim capaz de oferecer a Deus a maior possibilidade de revelar-se e de obrar.
Note-se finalmente como alguma vez uma cerimônia, uma fórmula, um texto, estando contido nos livros oficiais, pode não estar conforme aqueles princípios e aquelas regras que a Igreja consagrou em seus usos litúrgicos; em tal caso costuma-se dizer não é litúrgico. O exame dos ofícios compostos depois do século XV nos brinda alguns exemplos. A festa da Dolorosa, para citar um, tem como antífona no Intróito: Stabant iuxta crucem... etc., e por salmo: Mulier, ecce filius tuus, dixit Iesus; ad discipulum autem: Ecce mater tua. Gloria Patri... etc. Se se considera, pois, que o Intróito nas regras tradicionais é o canto de um salmo durante a entrada do celebrante e que no exemplo adotado o salmo é um texto do Evangelho, não se pode negar que neste caso o Intróito está em desacordo completo com as normas da composição litúrgica. A Igreja, sempre em liberdade para introduzir neste campo novas leis, mostrou-se sempre muito tenaz em suas tradições clássicas. A última reforma do Breviário é uma prova eloquente disto.
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REFERÊNCIA
História da Liturgia, tomo I, n. 2, [II].
Autor: Mario Righetti
Tradução: Blasius Ludovicus

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