quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Breve história das cores litúrgicas



Por Gaetano Masciullo

Sabemos bem que a liturgia da Missa é uma parte integrante da Tradição católica, não é em sua substância invenção do homem, porque foi instituída por Cristo no sacramento eucarístico, e aperfeiçoada por ele mesmo durante os quarenta dias após a Ressurreição, como a Tradição ensina. No entanto, é interessante perguntar, depois de dois mil anos de cristianismo, a história da evolução de uma parte simbólica muito importante da Missa, que é a cor.
Atualmente as cores lícitas para as celebrações são, pelo menos no Rito Romano, oito: roxo, branco, dourado, verde, vermelho, azul, rosa e preto. Cada uma delas tem um significado específico, mas como chegamos a essas cores? Como os cristãos adotaram esses tons ou será que houve uma evolução?
Na verdade, nos Ritos mais antigos (como o Rito de Jerusalém), a veste usada durante as funções dominicais era simplesmente uma túnica não tingida e limpa, de linho e, mais raramente, de lã, recordando assim a cor branca, a cor cristológica por excelência que lembra a pureza, a inocência, o manto branco do divino cordeiro. Uma cor que se assemelhava ao branco, mas que na verdade não era, porque a técnica de branqueamento dos tecidos eram lentas e custosas, por isso, havia realmente uma variedade de tons de cinza. 
A partir do século VII, começo a se difundir cores diferentes e, com elas, alguns tratados litúrgicos que, todavia, não obtiveram qualquer efeito, a não ser no âmbito diocesano. As principais cores tornaram-se três cores, que são as três cores clássicas utilizadas desde os tempos mais antigos: o vermelho, branco e preto. Destas três cores foram utilizados vários tons, conforme a festividade que se quer recordar, então se tinha três vermelhos, dois brancos e dois negros, que se diferenciavam entre si essencialmente na sua intensidade e brilho, para o bem total de sete cores diferentes. O candidus era mais brilhante que o albus. O niger mais brilhante que o ater. Assim, nos três Vermelhos, o purpureus era mais brilhante do que o coccinus ou do que o ruber. Estas três cores começou-se a adicionar o dourado, que na verdade era um amarelo, em seguida, o verde, o roxo e até mesmo cinza. Alguns sacerdotes – mais ou menos como hoje – adotaram casulas estranhas e fora do lugar, que foram rapidamente condenadas pelos bispos locais, porque elas eram consideradas pouco decentes (casulas listradas, colorida ou muito vistosa, que reuniam mais de duas cores com significados totalmente diferentes). Muitas vezes o significado das cores, apesar de algumas orientações gerais e pouco claras, estavam em detrimento [por causa] dos celebrantes. Haviam padres que celebravam a Páscoa com paramentos brancos e outros com paramentos vermelhos, ou até mesmo verde.
A partir do século VIII, entretanto, houve uma discussão entre os teólogos e os prelados sobre a necessidade do uso das cores durante a liturgia. Havia duas escolas correntes de pensamento, representada pela Cluniacense (nascido no século X) e pela Cisterciense (século XII). A primeira reivindicou a natureza do brilho da cor e, depois, a matéria mais superior, para ser usada somente durante a divina liturgia. A segunda, no entanto, apoiou a natureza material da luz e, depois, a inconveniência de usar durante a liturgia, onde ela traz uma natureza radicalmente diferente, o Deus espiritual. A chamada cromofobia (medo da cor), embora na verdade tenha sido combatida pelos papas e bispos desde o período em torno do ano mil, ela sobreviveu ao longo da Idade Média, até influenciar os líderes da Reforma protestante, que renunciou a qualquer uso de imagens e cores, considerados pura vanitas.
A partir do século XII, tentou-se dar uma uniformidade das cores nos Ritos da Igreja. Os liturgistas[1] da época foram unânimes em atribuir às três cores principais significados muito específicos. O vermelho era a cor da paixão, do martírio e do Espírito Santo. O branco era a cor de Páscoa, enquanto o preto era a cor da abstinência, penitência e luto. O roxo foi considerado um subniger, ou seja, um derivado e substitutivo do preto em alguns casos. Cinza e amarelo eram substitutivos do branco. Por esta razão, o roxo começou a substituir o preto durante o Advento. O cardeal Lotário de Conti de Segno escreveu um tratado intitulado De sacro sancti altari mysterio [Sobre o Santo Mistério do Santo Altar] entre os anos de 1194 e 1195, onde ele também fala das cores litúrgicas. Este texto foi depois retomado por Lotário depois de sua eleição como Papa Inocêncio III, com a intenção de uniformizar as cores da liturgia em todas as dioceses, mesmo naquelas mais distantes de Roma e com Ritos diferentes do Romano. Finalmente, neste tratado, que faz escola pelo menos até o Concílio de Trento, se dá um significado definitivo para as cores e até mesmo as precisas referências do calendário litúrgico, a fim de evitar interpretações vagas de cada um dos celebrantes: o vermelho, a cor da Paixão, do martírio e do Espírito Santo, é para ser usado apenas nas celebrações dos apóstolos, dos mártires, da Santa Cruz e de Pentecostes; o branco, cor pascal por excelência, é para ser usada apenas nas festas dos anjos, das virgens, dos confessores, na Quinta-feira Santa, na Páscoa, no Natal, na Epifania, na Ascensão, e Todos os Santos. Preto, luto e penitência, deve ser usado apenas nas festas dos defuntos, durante o Advento e a Quaresma, para a festa dos mártires Inocentes. Nos dias restantes, deve-se usar apenas a cor verde, porque – escreve Inocêncio III no tratado – se trata de uma cor “a meio caminho entre o vermelho, o preto e o branco.” Entretanto, o roxo pode substituir o preto, e o amarelo pode substituir, em casos especiais, apenas o verde.
É interessante notar que o roxo, naquela época, não era como o conhecemos hoje. Pelo contrário, tratava-se de um azul muito escuro, tendendo ao roxo ou mais provavelmente ao anil. Muitos paramentos antigos, que parecem azul escuro, eram na verdade considerados por roxo medieval. O azul tendente ao anil foi completamente afastado da liturgia, como um legado da crença clássica que o anil era uma cor bárbara (e pagã), e mesmo efeminada. Apesar deste legado, desde o século IX, especialmente na França carolíngia, nas igrejas começaram a espalhar o azul como o conhecemos hoje, como uma cor símbolo do Céu, mas apenas em afrescos e vitrais, os santos são representados com vestes azuis, mas apenas para confirmar a sua presença no paraíso, que está nos céus. Na verdade não existiam paramentos azuis ou anis para ser usados na liturgia. A partir do século XII, este mesmo azul para ser usado em afrescos e vitrais, iluminura, para simbolizar a luz divina e vem muitas vezes ligado ao vermelho, em vez do verde (como tinha sido feito até agora).
Para a introdução do azul na liturgia, como uma cor para usar nas festas marianas, devemos esperar os séculos XIII e XIV, e exclusive dos Ritos nativos da Espanha (como o moçárabe). Progressivamente, esta cor litúrgica também se espalhou para outras partes da Europa, mas a cor branca para as festas marianas continuará a ser o mais prevalente. No Rito Romano, por exemplo, que sofreu influências significativas do Rito Galicano, a cor azul nunca foi oficialmente incluída entre as cores litúrgicas oficiais. Esta propagação da cor azul na liturgia se deu em função da apreciação que esta cor estava recebendo pela primeira vez em nível artístico e literário, com seus primeiros usos importantes na tinturaria.
Durante o período Barroco (século XVII) foram introduzidas duas novas cores litúrgicas, o dourado e o rosa. A primeira cor, já em voga como um substituto de preto e verde, foi amplamente utilizada para festas marianas no Rito Romano, ao posto que o azul no espanhol e o branco precedente no romano. Muitas estátuas da Virgem com roupas azuis foram especialmente ritinte com ouro. Convencionou-se que a cor dourada, um símbolo da majestade de Deus, poderia substituir qualquer cor, exceto as cores roxa e preto, cores penitenciais. O rosa, absoluta novidade, foi introduzida apenas para os domingos Gaudete (terceiro do Advento) e Laetare (terceiro da Quaresma[2]), como uma cor que está entre roxo (direito do tempo do Advento e Quaresma) e o branco (enquanto nesses dois domingos se lembram as promessas de alegria da Natividade e da Ressurreição, respectivamente).  


Título original: Breve storia dei colori liturgici
Fonte: RadioSpada
Tradução: Padre Jorge Luís


[1] Ver Honório de Autun,. De divinis officiis; Ruperto de Deutz, De divinis officiis; Hugues de Saint-Victor, De sacramentis christianae fidei; Jean Beleth, Summa de officiis ecclesiasticis.
[2] Na verdade é o IV Domingo da Quaresma [N.T.].

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