quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Exercício da Invenção da Santa Cruz


Padre Jorge Luís
Hoje celebramos no Calendário Próprio do Brasil para a Forma Extraordinária a festa da Invenção da Santa Cruz. Já presente em missais romanos mais antigos, esta festa sempre teve muita popularidade nesta Terra da Santa Cruz. Porém, nas últimas reformas litúrgicas (1962) permaneceu no Brasil apenas em seu Calendário Próprio e agora também no Calendário Próprio da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.
Invenção” é a tradução da palavra latina “inventio” que significa encontro, achado, etc.
A mãe do imperador romano Constantino Magno, Santa Helena, que dedicou-se a recuperar os lugares sagrados e procurar os objetos e instrumentos ligados à vida e morte de Nosso Senhor, encontrou no dia de hoje do ano 326 três cruzes soterradas no lugar da crucificação de Jesus e acreditava ser as mesmas usadas na Sexta Feira Santa.  Para determinar qual das três cruzes era a de Jesus, vários enfermos foram colocados em contato com as cruzes, a cruz que fosse o instrumento da cura seria a de Nosso Senhor. E assim aconteceu que Deus deu a saber qual das três era a verdadeira Cruz de Jesus.
É essa “invenção”, esse “achamento” que comemoramos hoje: o reencontro da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como é de praxe, uma festa tão querida e cara ao povo brasileiro, além da beleza dos textos próprios da Missa, misturou-se com a piedade popular e deu origem à piedosas devoções. Dentre elas uma se destaca: o Exercício da Invenção da Santa Cruz!
Essa piedosa devoção penitencial já foi muito comum no nordeste brasileiro, mas ainda agora possui muita popularidade, por exemplo, no Santuário de Santa Cruz dos Milagres, no Piauí.
Como é comum, credito que o texto da oração tenha muitas variações de acordo com o lugar, pois era passada de boca em boca pelos mais velhos. A seguir a versão que aprendi e minha cidade (Caxias-MA), que é diferente da usada no mencionado Santuário. A oração que aprendi na infância e que trago na memória diz:
      Nos campos de Josafá, o Inimigo da alma encontrarás. E ele te perguntarás: “Do mundo que vieste, o que fizestes por lá?
No dia da Invenção da Santa Cruz cem vezes me ajoelhei [ajoelha-se]; cem vezes o chão beijei [beija-se o chão ou o banco]; cem vezes me persignei (pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, nosso Senhor, dos nossos inimigos); cem vezes o Cão[1] esconjurei (em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo); cem vezes me aproximei [dá-se um passo de joelhos][2]; cem vezes me levantei [levanta-se]; e cem Ave Maria rezei (Ave Maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre as mulheres. Bendito o fruto do Vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.).

Como se pode notar a oração é totalmente de cunho popular, mas cheia do sentido de penitência pela repetição e pelos gestos que acompanham as palavras. A oração começa com uma alusão ao vale de Josafá referido no livro de Joel como o lugar onde o Senhor reunirá os povos para o julgamento. Portanto, diante da imagem do Diabo que interroga a alma cristã no Juízo, a resposta que o fiel dá é a mais sábia, mais consoladora, humildade e cheia de confiança nos méritos que o Senhor nos alcançou no alto da Santa Cruz.
É impressionante ver a multidão dos fiéis fazendo esse exercício piedoso muitas vezes sob o sol escaldante do nordeste.
Foi com devoções simples como essa que muitos fiéis mantiveram a fé viva nos tempos antigos das “desobrigas” que os padres faziam quase que só uma vez por ano nas roças. Na ausência dos sacerdotes, as almas simples continuaram católicas por causa do senso comum de sua fé, retidão de consciência e firmeza nos princípios recebidos dos antigos.

Salve, ó Cruz, consagrada com o Corpo de Cristo, com Seus membros ornada quais pedras preciosa! 
                                          



[1] “Cão” que normalmente se refere a cachorro, aqui é o nome dado a Satanás. Isso é muito comum, por exemplo, no Nordeste do Brasil.
[2] Um pequeno passo em direção ao altar. Quem está no banco nada faz.

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